terça-feira, 30 de junho de 2020

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte X/X – Afirmação de Portugal)

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte X/X – Afirmação de Portugal) (05/02/2015)



C. Afirmação de Portugal

159. Já fiz provas cegas de produtos alimentares, tendo quase sempre reconhecido o aroma e o sabor dos que são portugueses. No azeite conheci poucos falhanços e nos queijos nenhum. No vinho as únicas hesitações envolveram variedades de videiras plantadas em regiões fronteiriças, designadamente a Alvarinho e a Tinta Roriz. O elevado grau de confiança com que distingo os vinhos lusos nada tem a ver com o terroir dos solos. Estará provavelmente relacionado com a intervenção dos vinificadores ou dos enólogos; mas acima de tudo prende-se com as castas indígenas da nossa terra (que ainda não foram internacionalizadas massivamente).

160. No que acabo de escrever não mora qualquer sentimento pretensioso ou chauvinista. Chauvinismo é o que alguns grupos de pessoas – incluindo críticos opiniáticos – manifestam quando discriminam sistematicamente os produtos somente pelo facto de não serem nacionais. Jamais desqualifiquei os produtos estrangeiros. Apenas identifico de forma isenta – repito: em provas cegas puras – as características da maioria dos nossos produtos.

161. Em matéria de vinhos é mais fácil e menos arriscado alinhar com o olor e o palato da globalização (que a maioria assume, conscientemente ou não) do que apostar no estilo ou na marca Portugal (em que se exige maior esforço e acrescida perseverança). Há todavia a realçar que os consumidores mundiais agradecerão se fizermos esta aposta. Aposta não como forma de impor qualquer identidade mas antes como veículo de partilha de experiências e modo diferente de exercitar a combinação olfato-gustativa.

162. Portugal tem muito boas – ótimas será o adjetivo apropriado – condições para os vinhedos, começando pela sua localização geográfica. Tal sucede também com a Espanha, por exemplo. Ou seja, são zonas naturalmente apropriadas para a criação de néctares poderosos, sem serem necessárias doses adicionais de empenho. Ao invés, quanto mais se deslocar para o norte da Europa, maiores a incerteza do clima e a ocorrência de doenças das parreiras.

163. É por isso quase hilariante alcandorar-se os vinhos franceses e enaltecer os solos escamoteando a latitude, por exemplo. Em Portugal as cepas forâneas proporcionam resultados subtis, apreciáveis ou mesmo elegantes. Contudo falta-lhes o resto que as castas nacionais concedem: diferença, memória e genuinidade. A propósito dos bons resultados registados por aquelas cepas em solo lusitano, cumpre não esquecer que por vezes a mistura de uvas, mostos ou vinhos de diferentes variedades de videiras nem sempre surte bom efeito – recorde-se o ponto 128, em relação à Cabernet Sauvignon.

164. Sem querer entrar no diálogo de surdos entre viticultores do Velho e do Novo Mundos quanto aos solos apropriados para as parreiras, é unânime que os terrenos de Portugal e da Espanha foram agraciados pela mãe-Natureza, pois têm literalmente o melhor dos dois paraísos. No nosso País, o sul oferece a segurança climatérica típica do Novo Mundo e essencial para a floração das videiras e a maturação das uvas, ao passo que o norte dispõe dos rios serpenteados e das côtes abrigadas tão catapultados no Velho Mundo para a relação conciliadora – cada vez mais mística, para os crentes e os seus seguidores – da Natureza dos solos com o prazer que a beleza dos vinhos transporta. Enfim, há de tudo para todo o bom gosto, do clima real ao terroir imaginário.

165. Os abastados vitivinicultores franceses pagariam com ouro para terem uma pequena porção do clima quente de várias regiões ibéricas, que se dão ao luxo de vindimar antes de terminar a maturação das uvas, para que os bagos não tenham tanta concentração de açúcar. Com a maturação completa, é verdade que o alto teor alcoólico daí resultante daria néctares com baixa acidez – que pelos vistos não são apreciados pelos afrancesados e pelos franceses (porque as bebidas destes são tendencialmente ácidas). Contudo esses néctares teriam uma vantagem natural tentadora: resistiriam sobremaneira à oxidação e por isso seriam ideias para envelhecerem sem haver o risco da deceção mencionado no quinto mito.

166. Nos tintos, bastantes vinhos portugueses e espanhóis têm uma complexidade e um equilíbrio invejáveis, senão mesmo inigualáveis. Comparar os tintos das regiões do Douro ou da La Rioja aos tintos de Bordéus é um desprestígio para os ibéricos – desprestigiante relativamente à categoria; não ao preço. Totalmente acertado o provérbio «Mais vale cair em graça do que ser engraçado.» Talvez uma união ibérica conseguisse corrigir mais rapidamente a injustiça inerente ao provérbio. Com ou sem esta utópica união, os dois países impor-se-ão, o que só ocorrerá quando romperem com o modus vivendi que têm aceitado e que retarda as suas efetivas potencialidades.

167. Portugal, com quase três centenas de variedades de vitis vinifera, é porventura o país com maior diversidade de videiras nativas, adaptadas aos mais diversos tipos de solo e clima. Os vitivinicultores devem estar permanentemente cientes de tamanha e inestimável (mas ignota) riqueza, pois grande parte das castas vernáculas identificadas é adequada para produzir vinho de qualidade. A Grécia terá maior diversidade de cepas locais, porém segundo os especialistas não tão de reconhecida classe para a produção vinícola.

168. Apenas de há poucas décadas para cá, bem depois de consolidado o enterro do período de meio século da lusa república anterior, temos vindo a sair da letargia e a florir a mente, abrindo-a para o novo panorama e dispondo da capacidade para conhecer e valorizar o nosso património. Se durante vários séculos o povo foi habituado a mostrar-se acanhado e a beber vinho áspero e sulfuroso, ou seja, se os portugueses foram educados a produzir e a consumir o que não prestava, compreende-se que, pelo máximo que se esforçassem, estavam fadados para a exportação de má qualidade.

169. As castas eram (e continuam a ser) boas para a viticultura, no entanto imperava a má vinificação. Por ser uma questão cultural, foi uma safra quase homérica infletir radicalmente o estigma pacóvio do perfil de consumo e assumir o erro das metástases profundas. Atualmente o mercado nacional já bebe vinhos varietais de categoria, para não referir os sublimes néctares de lotes que estão à sua mercê. Em termos internos a odisseia parece estar assegurada. Falta a extensão para o exterior. Apesar das melhorias crescentemente significativas ano após ano, continuamos a ser algo tímidos, como que temêssemos a competição com as potências tradicionais e receássemos colocarmo-nos na dianteira do escol do mundo vinícola.

170. Em termos de determinação, os países do Novo Mundo devem ser um exemplo para nós. Tiveram a capacidade para transformar o sonho em realidade. Através do conhecimento científico, afrontaram os tabus ancestrais do Velho Mundo, mudaram as posições internacionais e provaram que o saber não fica aquém da convenção. Os vitivinicultores portugueses e as organizações que os representam têm-se esmerado na difusão dos seus produtos, o mesmo acontecendo com a associação pública ViniPortugal. É uma questão de prosseguir solidamente a intensificação do trabalho que tem sido encetado para a afirmação do vinho nacional.

171. Encontramo-nos no bom caminho, naquele que nos leva à gesta de atingir a fase final da crisálida e da libertação da verdade. Atrevo-me contudo a arriscar que tem faltado arrojo para desmistificar os dogmas há muito criados e que tornam imperfeito o comércio internacional do vinho. Essa falta talvez se justifique pelo facto de termos vindo de certo modo a usufruir dos dogmas, conforme a alusão no parágrafo 166 efetuada ao modus vivendi e a menção no parágrafo 34 orientada diretamente para as encostas da região do Douro. Para a tarefa da desmistificação estão convocados todos os interessados. Deve pensar-se como um todo e para o universo dos produtores, independentemente da dimensão e do prestígio que carregam.

172. Tendo a postura de mantermos a superior qualidade dos produtos oferecidos, urge afastar as visões inócuas e curtas. Importa subir ao alto das gáveas e avistar mais além, sendo inevitável manejar as mesmas armas dos nossos concorrentes, se possível com maior intensidade e acutilância. Refiro-me à agressividade do marketing, como se depreende. Gostaria de enaltecer dois casos. O primeiro refere-se ao enoturismo, que é encabeçado inevitavelmente pelo vale do Douro, cartão de visita nacional e símbolo do engenho lusitano para aproveitar e dignificar a Natureza.

173. Arrisco-me a apostar que o Douro é o lugar supremo e altaneiro do enoturismo internacional, onde a Natureza e o Homem deram as mãos e até hoje souberam respeitar-se mutuamente. Mas o enoturismo vai enormemente para além da região duriense. Combinando a tradição vinícola com a gastronomia, a Natureza com o clima e, como não podia deixar de ser, a honrosa História com o grado gentio, percebe-se que Portugal possui todos os ingredientes para que tal tipo de turismo seja uma aposta de futuro e uma referência central na excelência a nível mundial.

174. O segundo exemplo prende-se com o êxito comercial da exportação, para infinitos pontos do planeta: o rosé. Os mais puristas atenuam o resultado desse exemplo e preferiam que o sucesso da exportação massiva do vinho português se verificasse noutros vinhos. Uns casos não invalidam outros; se os agentes convergirem nos objetivos e trabalharem em conjunto, haverá espaço para todos. Basta acreditar nos bons projetos, sustentáveis e competitivos. Bem sei que na área da competitividade o input não será o mais favorável. Mas o que temos a menos nesta matéria é de longe ocupado pelo resto: a fragrância e o sabor de Portugal.

175. Ao contrário do que preferem muitos pregadores das castas e dos vinhos franceses, os outros países (que não a França) não devem desistir de trabalhar no reforço da qualidade – «excelência de qualidade», em bom rigor (vide parágrafos 63 e 96). Com prejuízo do disposto no parágrafo 162 (onde se preconiza que, ante a propiciação das zonas ibéricas para a viticultura, dispensam-se doses adicionais de empenho), a melhoria contínua na senda da perfeição deve ser um desiderato permanente, até porque as condições naturais de Portugal rescendem e excedem as existentes noutras plagas do Velho Mundo.

176. O resto advém do conhecimento e da intervenção humana, bem como da humildade e da sensatez de os intervenientes no negócio vitivinícola congraçarem os seus interesses com os dos demais. Afastemos a (rara) ostentação da vaidade e o (não raro) preconceito da inferioridade. Lavremos ao invés a virtude da diferença. O pragmatismo, o brio e a honestidade têm definitivamente de se impor, sem beliscar a identidade e sobretudo a classe nacionais. Será deveras mais simples do que parece.

177. Finda a publicação das quintas-feiras desta dezena de fascículos digitais alusivos à placebomania dos mitos e ao preço do vinho - causada pelo post «O preço do vinho e os mercados imperfeitos»-, renovo o desafio colocado na parte final do primeiro deles: ergo o braço para brindar à luta pacífica de ideias. Se alguma da informação controversa constante dos pouco mais de nove quarteirões de texto for objetivamente refutada no próximo encontro anual do FRES Vinhos do dia 7 de fevereiro, será um inequívoco sinal de que se vislumbra uma luz de futuro para esse núcleo fresiano dedicado a assuntos sobriamente báquicos. À saúde de todos, participantes e ausentes do evento.

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IX/X – Regiões francesas)


A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IX/X – Regiões francesas) (29/01/2015


Mito 8 – A França contém as regiões vinícolas mais distintas do Mundo.

141. Têm sido sistematicamente divulgadas apologias desgarradas sobre os vinhos produzidos em França, seja em zonas meridionais ou setentrionais. As suas plagas são consideradas por inúmeros críticos vinícolas – escritores ou meros fazedores de opiniões – como as mais empolgantes do Mundo. Em repetidas ocasiões tais indivíduos quedam-se em seu pensamento e confessam que não conseguem identificar o que os (escoltados) vinhos franceses têm que inexiste nos vulgares secundogénitos.

142. Temos de reconhecer que só haverá uma explicação possível para tamanho misticismo. Os vinhateiros franceses são os descendentes modernos dos alquimistas medievais, os únicos que alcançaram a descoberta da pedra filosofal. Pelos vistos a descoberta ainda hoje encontra-se mantida religiosamente no saber recôndito, como que se tratasse dum sagrado segredo. Transparece que eles transportam a ímpar missão filantrópica de partilhar com o gentio o resultado da sua magnum opus, cujo epítome é o vinho francês.

143. A subserviência aos vinhos franceses é aflitiva, tanto mais que os elogios proferidos são contraditórios com os argumentos usados noutras situações, alguns dos quais foram invocados aquando de desmistificações anteriores. Um dos argumentos prende-se com a ideia de que o preço reflete a relação inversa entre a quantidade e a qualidade. Ora quer em anos bons quer em anos maus, Bordéus tem sempre modelado o panorama internacional em termos de tintos, e a Borgonha não se tem sentado atrás em matéria de brancos. E, claro está, Champagne tem sido o núcleo dos espumantes de excelência. Abençoada ínclita trindade.

144. Os escritores de vinhos e demais fazedores de opiniões, de tão ardilosos que por vezes são, chegam a defender que há uma mística no céu, no clima, nos solos, nas uvas de Bordéus, da Borgonha, de Champagne impossível de compreender, que torna únicos os néctares dessas regiões. É profunda a justificação do mito de que a França é o berço das melhores regiões vinícolas do Mundo. A ciência, a metafísica ou qualquer outra lógica racional são excessivamente ténues para conseguirem entrar no domínio da magia dos vinhos franceses e dos dogmas criados à sua volta alusivos à qualidade (e ao preço).

145. Entranhou-se no mercado internacional o arroubo epidémico das cepas francesas. Os produtores europeus e os do Novo Mundo usam e abusam por exemplo da Cabernet Sauvignon, da Pinot Noir, da Syrah ou da Chadornnay, julgando que com iguais castas ficam em idênticas condições com os concorrentes franceses, e por isso não desenvolvem tanto quanto poderiam as variedades autóctones.

146. Se fosse atribuído o prémio da casta-princesa àquela que mais facilmente se molda aos caprichos do Homem, com certeza seria eleita a Chadornnay. De tão vulgarizada que tem sido, atualmente é mais conhecida do que o tremoço, que entra em todos os sítios: desde os recintos mais etiquetados e chiques, sob a forma de pâté, aos cafés mais informais e atabernados, como anexo aos copos colados ao balcão. Refiro-me ao tremoço, pois seria sacrilégio ignóbil referir-me de tal modo popular a um qualquer Chadornnay, por mais banal que seja.

147. Em abono da suma verdade, os produtores não franceses poderiam ficar avantajados ante os franceses, ceteris paribus, visto que o clima francês, caracterizado pelo padrão de irregularidade, é menos favorável à viticultura. As expectativas dos produtores não franceses têm saído algo goradas porquanto eles negligenciam – mais uns do que outros – dois aspetos decisivos já realçados: a intervenção humana, não menos importante do que a própria Natureza; e a influência determinante do marketing, variável que decide o êxito comercial.

148. Ainda a propósito da rendição (certamente bem paga), por parte dos críticos opiniáticos, aos vinhos franceses: não posso deixar de reproduzir uma majestosa passagem semântica atinente ao vinho vegetal, àquele cujo aroma se assemelha a mato e a feno. Os peritos reconhecem que as notas vegetais podem ser benéficas ou prejudiciais, consoante a preferência de cada um. Acho corretíssimo, dado que o consumidor deve ser o comandante do seu gosto.

149. No entanto há zeladores afincados dos vinhos franceses que são perentórios a afirmar que odores um tanto acentuados a verdura são negativos para os vinhos, por ficarem herbáceos. Os mesmos mag(n)os defensores – para quem o vegetal perfeito é a fragrância dos cogumelos silvestres – reconhecem que a verdura é necessariamente um ponto positivo quando está associado a algumas variedades de castas, mormente a Sauvignon Blanc. Parece que quando o vegetal se aproxima de mato silvoso, é mau; mas quando é feno rorejante, passa a bom – e então se advier duma cepa que saiba falar francês, situa-se algures entre o muito bom alto e o ótimo.

150. Alguns argumentos para o preço elevado desaguam na viticultura e na vinificação biológicas, mais presentes em França do que noutros países – embora deva sublinhar-se que abundam regiões de países do Novo Mundo, nomeadamente dos EUA e do Chile, em cujas explorações vinícolas uma parte importante da produção assenta em processos biológicos. Não deixa de ser verdade que os processos biológicos envolvem esforço e mão de obra acrescidos que inflacionam sobremaneira o produto final, já sem mencionar que, face aos processos não biológicos, a produção é substancialmente menor (mas a qualidade é superior – daí que o vinho biológico seja dos mais caros). Todavia é necessário destrinçar os vinhos biológicos.

151. Antes disso gostaria de manifestar o meu entendimento. Creio que é possível valorizar o habitat natural das parreiras e obter uma qualidade muito boa das uvas combinando quantidades moderadas de enxofre e de calda bordalesa (para combater o oídio e o míldio, respetivamente) com componentes orgânicos (seja de origem animal, vegetal ou mineral). Com ponderação e sem fundamentalismos, há lugar para a articulação de tratamentos químicos com processos naturais.

152. O patamar extremo da vitivinicultura biológica é a biodinâmica. Trata-se dum conceito biológico e dinâmico, que impede liminarmente a utilização de qualquer componente sintético em todas as fases, do cultivo das cepas à vinificação, garantido assim a máxima sinceridade da bebida. É factual que existem extensas herdades francesas cuja exploração das vinhas assenta no biodinamismo, pelo que o correspondente vinho é mais dispendioso, até porque o clima francês é deveras propício à propagação de doenças que atacam as vinhas e as uvas, conforme acima indicado. Mas outros factos devem ser tidos em conta.

153. Um patamar inferior ao do biodinamismo é preenchido pela vitivinicultura orgânica. Porém é curioso que os requisitos vigentes em França para efeitos da certificação de vinhos orgânicos abrangem unicamente o tratamento das videiras, ou seja, não se estendem à vinificação em si mesma. Portanto, vinhos biodinâmicos são assaz diferentes de vinhos orgânicos – e ambos são biológicos –, e por isso percebe-se que os primeiros sejam bastante mais caros do que os segundos. Desconheço se na prática o preço de cada um desses tipos traduz tal diferença, apesar de apontar para que a resposta seja tendencialmente negativa.

154. À parte os misticismos que envolvem o biodinamismo, designadamente a filosófica articulação entre o espírito do Homem e o universo cósmico, e entre a energia dos astros e os ciclos da Natureza, existe validade racional para que os princípios da agricultura biológica melhorem a qualidade. O uso descomedido de produtos agrotóxicos – tais como fertilizantes químicos, herbicidas, pesticidas e fungicidas – perturba o equilíbrio natural da terra e destrói quer a microflora (tais como fungos e algas) que transmite os nutrientes do solo às raízes das cepas, quer a macroflora (incluindo vermes e insetos) que permite a aeração dos solos, razão pela qual as videiras ficam cansadas e as uvas crescem carentes de componentes que lhes conferem olor e sabor.

155. Não obstante esperava-se que, ao mesmo tempo que ecoa a viticultura biológica, biodinâmica ou não, para fundamentar os preços dissuasores – como se ela fosse aplicada em todos os vinhedos da França –, houvesse humildade para descer drasticamente o preço nos maus anos agrícolas. Os críticos parecem esquecer-se que, nas herdades francesas convencionais, ou melhor, nas herdades não biodinâmicas, para se conseguirem salvar as más colheitas, originadas seja pelas uvas pouco maduras devido às temperaturas relativamente baixas no verão, seja pelas uvas estragadas causadas pela chuva em outubro – antes disso não é possível vindimar pois as uvas ainda estão demasiado verdes, inclusive nas zonas do sul da França –, usam-se técnicas nada naturais.

156. Entre tais técnicas, realizadas para que no final os vinhos não sejam magros nem acerbos e detenham maior teor alcoólico, camuflando-se de néctares estruturados, estão a adição de açúcar (de cana ou de beterraba) – chaptalização – e a concentração do mosto. Esta segunda técnica, que no fundo consiste nas formas de extração do excesso de água existente no mosto em fermentação – excesso relacionado com a grande quantidade de uva e a respetiva fraca qualidade –, é incomparavelmente mais cara do que a primeira.

157. Contra-atacarão os enólogos franceses e os seus protetores cúmplices, advogando que os processos de enriquecimento do mosto correspondem aos processos de acidificação levados a cabo nos países e nas regiões de climas mais quentes e secos. Recorde-se no entanto que a preferência doutrinal pela acidificação (efetuada em geral acrescentando ácido tartárico ao mosto antes da fermentação para estimular uma sensação de frescura, com o objetivo de criar vinhos que, em anos muito ensolarados, pareçam outrossim mais equilibrados) decorre marcadamente da circunstância de, por regra, os vinhos franceses serem mais ácidos do que os restantes – vide por exemplo, mais uma vez, os parágrafos 11 e 12 de «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)».

158. Com efeito, a acidificação permitida em regiões quentes e secas, seja da Europa ou do Novo Mundo, é uma batota tão grosseira como a chaptalização e outras formas de fortificação do mosto autorizadas em regiões frias e húmidas, tornando os vinhos igualmente adulterados. Todavia quem adota, contudo como exceção, o processo de acidificação não tem a pretensão de afagar manias ou fama nem a ousadia de colocar a auréola do terroir, da côte, da autenticidade ou pergaminhos quejandos que pouco mais têm de especial do que preços altos inúmeras vezes injustificados. Olhar ao espelho nem sempre é sinal de vaidade; também reflete humildade.

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VIII/X – Cabernet Sauvignon)

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VIII/X – Cabernet Sauvignon) (22/01/2015)



Mito 7 – A Cabernet Sauvignon é de Bordéus e o resto não passa de imitação.

127. Mais controlável do que os resultados irrefutáveis das provas cegas, o tinto bordelês tem sido comercialmente considerado o rei dos tintos, o arquétipo irredutível para qualquer produtor. Proferir esta afirmação é o mesmo que apresentar a Cabernet Sauvignon, nada e criada para ser a casta-rainha das tintas; daí que seja a variedade da vitis vinifera mais mundialmente difundida. Queiram ou não, os consumidores têm de amargar com o amargo preço da fama fermentada.

128. Arrisco-me a avançar – opinião formulada sem qualquer rastilho de afronta – que uma boa parte dos tintos de corte produzidos com lotes de castas autóctones de superior qualidade tem sido conspurcada pela Cabernet Sauvignon. Frise-se que a conspurcação não decorre do aroma dessa casta em si mas antes do facto de a mistura esmorecer demasiado as fragrâncias das restantes castas. Entendo que há variedades (como sucede com a nossa Touriga Nacional) que saem ofuscadas e adulteradas nos lotes onde entra a Cabernet Sauvignon. Podem acusar-me pelos gostos filistinos. Acho que não é o caso; mas que assim seja.

129. A Cabernet Sauvignon é a cepa que rotula os vinhos de exportação de Bordéus – região responsável por cerca dum terço das exportações francesas de vinho –, e por isso (ou melhor, pelo preço de venda e pelos lucros granjeados) representa a bitola ideal, designadamente para os produtores mais ambiciosos do Velho Mundo. Ainda que seja relativamente frequente a fraca vinificação associada quer aos maus anos, quer à produção excessiva, o filão é intemporal: preços incólumes, como se dum padroado se tratasse. A fé da crítica regular e secular advoga que quando é anunciada a presença da Cabernet Sauvignon as outras devem, por deferência, infletir-se e ir ao beija-mão. Amém ao lisonjeio.

130. Na verdade não passa duma postura idólatra enraizada em inúmeros críticos vinícolas, pois há bastantes vinhos tintos que, embora transportem um equilíbrio normal – contrastando com o equilíbrio artificialmente conseguido – entre aroma e sabor e uma complexidade para envelhecer – um dos panfletos usados para transportar no andor a Cabernet Sauvignon de Bordéus –, são produzidos a partir doutras castas tintas. Para além disso, tenham-se presentes dois pontos que dizimam a escola de pensamento dos tintos de Bordéus, a seguir descritos.

131. Desde logo convém recordar que embora as castas sejam um dos elementos principais que caracterizam os vinhos, os demais são tão essenciais como esse, e portanto o resultado final depende da conjugação de todos os elementos presentes, como tem sido sobejamente abordado em posts anteriores. É infundada em termos científicos a relação entre terroir e qualidade – primeiro mito –, do mesmo modo que é escandalosamente redutor estabelecer uma relação biunívoca entre a qualidade do vinho e a natureza das videiras duma região – segundo mito. Por outro lado, há que não negligenciar a questão subjetiva das apreciações, conforme também já por de mais explicado em várias ocasiões.

132. Como curiosidade atenda-se a que, ao contrário do que vulgarmente se difunde, a Cabernet Sauvignon não é a variedade predominante em Bordéus, mas sim a Merlot. O equívoco decorre do facto de a Cabernet Sauvignon dominar os vinhedos das extensas propriedades de Médoc – outrora de charcos e lodo, como mencionado no parágrafo 33 aquando do primeiro mito –, sub-região donde nasce a maioria dos tintos bordeleses exportados. Ou seja, exporta-se Cabernet Sauvignon não das côtes mas das planícies – ou antes: “côtes planas” –, e apesar disso insiste-se em papaguear com o argumento que as experiências nos outros países, do Velho ou do Novo Mundos, não originam vinhos tão completos e equilibrados como os (das planícies de solos húmidos) de Bordéus.

133. Todavia parece que os santos fazedores de opiniões, como que ansiando provar terem espírito isento e sensato, abrem uma pequena exceção: o plágio da Nova Zelândia, autorizada pelos peritos para produzir vinhos completos e equilibrados semelhantes aos de Bordéus. Releia-se o post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte IV/X – Produção, qualidade e preço)», especialmente os pontos 68 a 70, e perceber-se-á a razão para a atribuição do prémio da exceção. Os mercados com funcionamento normal tornam as mentiras e as ineficiências evanescentes; quando o funcionamento é imperfeito, as mentiras e as ineficiências transformam-se em fertilizantes da moda.

134. De acordo com diversos críticos, a Cabernet Sauvignon está para Bordéus assim como a Pinot Noir está para a Borgonha. Para os acólitos, é nessas regiões que as respetivas cepas atingem o auge da sublimação das suas particularidades. Fora delas os vinhos podem ser de boa qualidade; mas não adquirem o grau de excelência, segundo eles. As avaliações que comparam os vinhos produzidos a partir das mesmas variedades de videiras, de que o Julgamento de Paris é um simples exemplo, demonstram o lobby que circunda o processo de formação de opiniões. Alcançados pouco mais de três quartos do post agregado (constituído por dez partes), foi a terceira e última vez que aludo ao Julgamento de Paris – as outras foram efetuadas nos pontos 46 e 120, respetivamente a propósito dos segundo e sexto mitos. Adiante-se porém que poderia ter havido mais referências a esse acontecimento histórico sistematicamente ocultado e enclausurado.

135. Tantos julgamentos estão por fazer, seja comparando vinhos das mesmas castas ou de castas diferentes. Até há quatro décadas julgava-se que as cepas mais velhas geravam uvas de qualidade superior e que os processos tradicionais maximizavam as suas características, tornando os vinhos distintos dos demais. Já se sabe que a poda em verde das parreiras novas permite a maior concentração dos compostos fenólicos, com resultados semelhantes aos obtidos com as videiras mais antigas e menos vigorosas. Não obstante, ainda há demasiados críticos opiniáticos que, para velar pelos caprichos viciosos e tentar afastar a concorrência, acreditam na crença dos vinhedos com mais idade, apesar de a ciência comprovar o contrário. Sublinhe-se que isto ocorre com a Cabernet Sauvignon mas não só.

136. Afastando a comparação de castas – mesmo que dispusesse de conhecimentos para tal, não o faria para não incorrer no erro de cair na perspetiva subjetiva –, há que trazer à colação o facto de, em provas cegas, a esquecida Touriga Nacional ombrear-se com a Cabernet Sauvignon com distinta nobreza e não menos superioridade. É um sinal de que o futuro se está a consolidar para as castas enteadas dos fazedores de opiniões. Crer que a Cabernet Sauvignon cultivada fora da região de Bordéus produz vinhos que são meras imitações dos elaborados, com a mesma cepa, nessa região é duma arrogância tão lancinante como intitular a Cabernet Sauvignon como a rainha das tintas.

137. Porventura é tão rainha como por exemplo a sobredita lusitana Touriga Nacional ou a espanhola Tempranillo (designada em Portugal por Aragonês, no Sul, ou Tinta Roriz, no Norte). Ao identificar esses três tipos de variedades estou obviamente a referir-me não aos vinhos monocasta mas sim aos vinhos de corte em que a Cabernet Sauvignon, a Touriga Nacional e a Tempranillo predominam. Aliás, retomando a parte final do segundo parágrafo do post em causa, o meu gosto entende que os vinhos à base da Touriga Nacional e da Tempranillo ficam desedificados com a presença da Cabernet Sauvignon.

138. Contudo há o outro lado, mais agreste e obscuro. Por muito que as castas locais façam brilhantes vinhos de classe mundial, reconhecidos sem mácula nas internacionais degustações à cega, não inquietam nem sequer beliscam a Cabernet Sauvignon, tais são as imperfeições do mercado. A procura existe; tantos consumidores clamam por oferta e estão dispostos a pagar o preço adequado pela excelência; mas as castas nacionais não vingam como seria expectável e lógico. É expectável e lógico que não vinguem. Prescinde-se de repetir a importância que revestem o marketing e a compra de indulgências.

139. Vejo a situação de Portugal com um sentimento agridoce: agre em consequência e doce em potencial. Nos brancos e talvez mais nos tintos a maioria dos nossos vitivinicultores tem conseguido manter a sua personalidade, conquanto sejam frequentes os cálidos combates entre os amantes das castas nacionais, orgulhosos da identidade que estas demonstram, e os arautos das variedades internacionais, seguidores da tentação de entrar na cadeia viciosa padronizada do fastwine de preço acrescentado. Voltaremos a estes assuntos na décima e última parte.

140. Continua a dar-se ouvidos aos fazedores de opiniões, e estes persistem em prestar vassalagem aos produtores mais assertivos na sua missão de conquistar o mercado. A mensuração da assertividade depende tanto do produto como do marketing. Está visto que é um problema linguístico, a começar pelos rótulos das garrafas. Os críticos opiniáticos e os escanções (ou sommeliers, como é mais apropriado para o mito em apreço) só conhecem o francês da rainha Cabernet Sauvignon das “côtes planas” de Médoc e das suas correligionárias infantas do mesmo idioma.

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VII/X – Boca)

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VII/X – Boca) (15/01/2015)



Mito 6 – Os vinhos superiores dispensam a boca.

115. Um vinho pode ser apreciado de duas maneiras, consoante a relação de proximidade e confiança entre o consumidor e a bebida. No primeiro momento, quando a pessoa e o néctar se apresentam, dá-se um processo contínuo trifásico: o provador observa, depois cheira e a seguir bebe. Posteriormente, uma vez (bem) consumada a apresentação e sentindo-se a pessoa familiarizada com o aspeto e o aroma, a degustação cinge-se ao sabor. Tal acontece com qualquer comida. Polémica por polémica, talvez fosse menos controversa a afirmação de que os vinhos superiores dispensam o nariz.

116. Para justificar a diferenciação entre vinhos, peritos de alta-roda vendem ilusões pré-fabricadas. Proclamam que, ao invés dos vinhos correntes, os de categoria superior autodefinem-se, e ainda apregoam que basta os consumidores usarem os sentidos da visão e do olfato para apreciar os néctares, ou seja, dispensa-se o palato. A abordagem parece ser enviesada e manipuladora em simultâneo. Independentemente de os olhos e o nariz também comerem, é na boca que tudo se revela. O sabor é o príncipe dos sentidos do vinho. Caso contrário não se bebia; olhava-se e cheirava-se. Deixava de ser uma bebida e metamorfoseava-se em mais um quadro ou um perfume.

117. Tem-se assistido a uma nítida ditadura dos fazedores de opiniões, que discretamente cerzem as preferências do público. Contudo – início do parêntesis –, no que toca às escolhas dos consumidores, não sejamos ingénuos. Mesmo num cenário em que os consumidores destronassem de moto próprio os críticos – pelo facto de se desprenderem do que estes falam ou escrevem –, logo de seguida o poder absoluto transferir-se-ia para os vinicultores enquanto criadores e niveladores de gostos. Acentuava-se a aromamania mencionada no parágrafo 49.

118. Os criadores de gostos nivelados passariam a concorrer entre si com produtos (supostamente) diferentes e inovadores para ocupar o espaço que ficara vazio pela saída dos fazedores de opiniões. Para além disso, realce-se que a fase de destrono dos críticos seria efémera e titubeante, pois uma vez fabricadas novas tendências irromperiam críticos opiniáticos especializados nas mesmas. Impedidos pelos fazedores de opiniões ou impelidos pelos criadores de gostos, os consumidores dificilmente conseguem fazer as suas escolhas despidas de pressões. O veredicto do mercado não é total; depende das forças utilizadas para influenciá-lo – fim do parêntesis.

119. Bastantes peritos referem que, em termos gerais – esta ressalva é da minha lavra – os vinhos do Novo Mundo são essencialmente frutados e irreverentes, ao passo que os do Velho Mundo são sobretudo terrosos e persistentes. Partindo desta curiosa dicotomia entre os néctares frutados (do Novo Mundo) e os terrosos (do Velho Mundo), há inúmeros críticos opiniáticos a jurar que a maioria dos brancos de Borgonha caracteriza-se pela vinosidade – conceito que no fundo traduz um escasso nível aromático de fruta –, e por isso se distingue da maior parte dos Chadornnay internacionais. Os especialistas (pensam que) prescindem da boca para identificar uns e outros – embora todos os sentidos sejam tremendamente insuficientes para alcançar a identificação.

120. Se o pensamento dos especialistas fosse válido, então os vinhos dos dois blocos mundiais seriam inconfundíveis, hipótese rejeitada sem apelo nem agravo em sucessivas degustações à cega, de que o Julgamento de Paris exumado aquando do segundo mito («O corpo do vinho consiste nas castas») foi apenas o acontecimento precursor. Assim sendo, existe legitimidade para suspeitar que tanto a citada dicotomia como a apreciação da vinosidade foram montadas para atingir objetivos pouco sérios ou, no mínimo, muito obscuros: vulgarizar (a qualidade de) os néctares do Novo Mundo, e posteriormente enaltecer (o preço de) os vinhos franceses. Não estou a tecer juízos de valor acerca da aparência e do olor, porquanto é uma matéria objetiva – e controlável pelas técnicas e pelos processos de vinificação.

121. Há quem prefira os vinhos frutados e, pelo contrário, há os que elegem os terrosos. Ambos estão corretos. São gostos indiscutíveis, tal como sucede com o conceito de cada pessoa acerca da beleza e do prazer, pelo que ninguém possui autoridade para os hierarquizar. O único ponto que importa é a impreterível necessidade de assegurar a coerência dos argumentos, ou melhor, a humildade – inteligência, em rigor – de assumir que os argumentos invocados não são coerentes, i.e., são empregues conforme a conveniência.

122. A propósito de conveniência, recordo-me desde logo de dois tipos de episódios. O dos clientes cândidos, provavelmente abonados, que se aconselham com os empregados de mesa oportunistas sobre a bebida adequada para acompanhar a comida, sem terem uma noção do custo da garrafa. E o dos logros desvendados que envolvem reconhecidas leiloeiras e intitulados especialistas vínicos que pouco mais são do que charlatões – para evitar mal-entendidos sublinhe-se que, pelo que acabo de escrever, não se pode inferir que todos os especialistas sejam charlatões.

123. No vinho são inúmeras as ocasiões em que as mentiras espraiadas sem rebuço quase se tornam verdades. O vinho apenas dispensa a boca se a aparência e sobretudo o aroma forem desagradáveis. Se contiver defeitos objetivos, tais como ser azedo, refletir um odor sulfídrico, estiver oxidado ou apresentar problemas de envasilhamento, não é necessário sacrificar o palato para confirmar a má qualidade. Mas se nenhum desses defeitos se impuser – caso se trate dum néctar com afirmada sapidez –, então torna-se claro que é imprescindível o palato, o elemento transformador do aspeto e da fragrância da bebida em prazer, prazer que por natureza será sempre totalmente subjetivo.

124. Sem pretender melindrar a intimidade de cada provador, ter um copo de vinho na mão e autoflagelar a vontade de não desfrutar o seu sabor, retardando a degustação, é comparável ao sexo tântrico. É verdade que tudo acaba bem, mas o tempo que se perde na degustação do prazer é irrecuperável. Esta pode ser a perspetiva de quem não é seguidor da prática de atrasar o momento, de quem entende que atrás dum prazer outro vem, e que tempo perdido é prazer perdido. No entanto há quem aprecie, e regressamos novamente ao mesmo ponto: gostos não se discutem. Até há quem opte por proceder à distância ou por satisfazer-se telepaticamente.

125. O mesmo se passa com o sabor e com o mito em apreço. Claro que o vinho – como qualquer comida, da mais natural à soberbamente confecionada – tem de ser cheirado. O olfato é um sentido fundamental que prende a pessoa ao espaço onde está (ou afasta-a dele) – ainda que, com a evolução da espécie, o Homem seja o animal que menos valoriza esse sentido, pois a sua subsistência já não passa pela necessidade de cheirar os alimentos que consome nem o ambiente que o rodeia.

126. Porém, para dignificar o olfato conviria que o néctar reproduzisse verdade. Tal não ocorre quando os vinicultores impregnam o vinho com dióxido de enxofre (ou anidrido sulfuroso) ou quando o maquilham com carvalho francês novo. Ambas as situações adulteram o aroma. Obviamente que não são comparáveis: com carvalho é bastante mais saudável e odorífico do que com enxofre; mas não deixa de ser batota. Se a bebida expusesse a sua fragrância pura e não fosse travestida como sucede com frequência, poder-se-ia atribuir algum crédito ao mito. A desmistificação impõe-se porque muito do caudal do vinho comercializado é orientado pela maquilhagem e pelo travestismo.

Tartarugas, jacaré e lagartixa

Tartarugas, jacaré e lagartixa (11/01/2015)



As tartarugas convocaram um jacaré e uma lagartixa para uma visita ao seu jardim. Os dois últimos animais transmitiram previamente às tartarugas que, ao abrigo da lei do segredo dos répteis, eles teriam de fazer a visita à porta fechada, sem a presença de sapos. As tartarugas concordaram, atentos os altaneiros e intocáveis argumentos invocados pelo jacaré e pela lagartixa. Ao que parece, o primeiro ser também solicitara o direito de reserva de imagem, o que se consubstancia na impossibilidade de os sapos, as rãs e demais anfíbios realizarem fotografias ou filmagens.

Chegou o ansiado dia da visita do jacaré. Como qualquer humilde jacaré que se preze, ele esclareceu as tartarugas presentes e os cágados assessores que não era um jacaré “controller” financeiro mas sim um mero jacaré tesoureiro. Independentemente do epíteto atribuído ou assumido, mesmo à porta fechada o jacaré não abriu a boca nem desferiu qualquer ataque. O episódio expôs a superioridade dos jacarés a todos os níveis. Mesmo sem a presença de anfíbios, o jacaré sabia que as tartarugas e os cágados comportam-se como os humanos: não são confiáveis nem conhecem a vocábulo «sigilo».

No dia seguinte – o momento das luzes – foi a vez da lagartixa. Tal como sucedera no dia anterior com o jacaré, os anfíbios estavam fora do recinto do jardim, devido à lei do segredo dos répteis – apesar de constituírem uma classe de animais bastante diversificada e heterogénea, muitos répteis não simpatizam com os anfíbios. Era o dia «D», aquele em que a lagartixa contabilista se apresentava às tartarugas das várias colónias e aos cágados das hostes acompanhantes. A lagartixa vislumbrou um pouco de sol no jardim e logo se estendeu; abriu-se toda, como se estivesse no seu habitat.

Claro que as tartarugas e os cágados depressa se lembraram que estavam à porta fechada e de imediato romperam o combinado em termos de gravação de depoimentos. Fiéis reprodutores da falsidade e da audácia de tantos animais humanos, gravaram as declarações que a lagartixa candidamente ia proferindo e difundiram-nas para os sapos que estavam no exterior do jardim. Deleite especial sentido tanto pelas tartarugas e pelos cágados como pelos sapos. A própria incauta lagartixa, incrédula com tamanha violação da palavra das tartarugas, interrompeu a conversa e ameaçou suspendê-la.

Moral da história: assim vai o espaço da democracia, onde se consome a honra de valores e o compromisso assumido é vilmente branqueado pelos sapos, seres que, quando lhes convém, conseguem vestir-se de camaleões. Por outro lado, os episódios ilustram o pensamento genético de cada réptil. O jacaré, que impôs declarações à porta fechada e reserva de imagem, nada transmitiu literalmente. À boa maneira de jacaré, mostrou quem manda e está no topo. As tartarugas, indignadas com tamanhos sinais de manifestação de poder, ecoaram ironicamente a uma voz para concluir que afinal as declarações poderiam ter sido divulgadas à porta aberta, com a presença de anfíbios. As tartarugas queriam brincar com o jacaré, mas foram elas que acabaram chacoteadas.

Para além de os episódios permitirem constatar que «quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré», revelaram que as tartarugas e os cágados portugueses desconhecem a virtude da palavra. Por outro lado, confirmou-se que, não obstante o estado de conservação das tartarugas encontrar-se ameaçado, elas são animais versáteis, capazes de entrar em ondas gigantes e sair incólumes. Numas ocasiões por estratégica intenção, noutras por confrangedora inépcia, as tartarugas trocam o essencial pelo acessório, isentando da condenação os tubarões e os gorilas devoradores de milhares de milhões. Como o mexilhão não serve para imolação, a justiça exigirá o sacrifício da lagartixa.

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VI/X – Idade e carvalho)

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte VI/X – Idade e carvalho) (08/01/2015)



Mito 5 – Os vinhos ambiciosos melhoram com a idade.

99. É vendida a ideia comum de que os grandes vinhos das clássicas regiões europeias, sobretudo os da prodigiosa Gália, distinguem-se dos demais porque crescem com a idade. Os factos comprovam que a falácia flui duma ação de propaganda pró-europeia – e em especial pró-francesa –, pois são numerosos os néctares possantes do Novo Mundo que mantêm intacta a sua personalidade acima duma década, sem perder qualquer resquício de classe e vigor. Um desses casos foi identificado no ponto 94, relativamente ao quarto mito («Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares»), a propósito da comparação entre dois Chadornnay, um borgonhês de dez anos e outro chileno somente de quatro anos. Os brancos do Chile, por exemplo, não amadurecem menos do que os da Borgonha.

100. Muitos enólogos do Velho Mundo – liderados pelos apoiantes da França, como não podia deixar de ser –, por crerem que normalmente os vinhos captam mais os aromas e os paladares do terroir do que das castas, consideram que os bons néctares precisam de tempo para mostrar o seu esplendor. Raramente põem no pedestal os vinhos oriundos das regiões e dos países com climas assaz confiáveis e estáveis, mas sim, como de costume, os que têm maior cachet social. Eis porque há ninhos de almas que continuam a jurar honrarias aos produtores franceses, bradando que estes geram vinhos maravilhosos, mais complexos e enigmáticos.

101. Frequentemente sob a capa do mito em questão os logros são totais, assemelhando-se aos crimes de falsificação de documentos. Aposta-se que vinhos toldados de fama vão evoluir com os anos, pelo que o seu preço é inflacionado logo à nascença. Tais néctares vangloriam-se, passeando de leilão em leilão, para no fim os compradores beberem deceção, engano e pesadelo. No epitáfio das bebidas fica registado não mais do que o preço impeditivo e afrontoso. E nada tem a ver com a subjetividade do consumidor, nem com o momento ou o ambiente da degustação.

102. As mesmas pessoas que embandeiram em arco em relação a certos néctares têm colecionado uma miríade de episódios defraudantes de vinhos caros que são objetivamente piores do que vinhos mais baratos. Prova-se um vinho conceituado, pensando e apostando cegamente que ele oferecerá prazer, e dado o primeiro golo, à guisa de canibalismo sexual, as narinas e a garganta do provador são ferozmente atacadas. Ocasiões em que a abstinência pura prevalece sobre o prazer negro.

103. Após sacrificada meditação, mas sem abjurar as suas crenças doutrinárias, alguns fazedores de opiniões têm o fleumático descaramento de sugerir que por vezes as apostas goradas foram fruto do azar, como que se se tratasse duma aposta de casino – tantas vezes é o caso. Como tal, aconselham os consumidores a insistir até encontrarem o vinho que corresponda às expetativas criadas. Hilariante explicação, no mínimo. Posições desse género revelam pouca isenção – ou então acentuado alheamento.

104. Melhor escrevendo: revelam o domínio exagerado do peso que desempenham o rótulo e a rolha abrasonados. Como em princípio os especialistas de provas não são abastados – ou não eram antes de iniciarem a atividade –, é normal que se inebriem com retratos fictícios e escrevam mandamentos vitivinícolas perspicazmente parciais. Homens pobres não governam opiniões; bandeiam-se para as opiniões das marcas do mando. É assim no vinho e no resto: quanto maiores os erros, mais organizadas são as corporações de foreiros que os tentam isentar.

105. Os críticos opiniáticos têm na ponta da língua a resposta eloquente e poética: os vinhos são como as pessoas; têm altos e baixos. Se errar é humano, ao vinho também se admitem erros. Comparação alucinogénia, como que justifique as situações horripilantes de gato por lebre que se apanham, de bebidas dispendiosas mas descaracterizadas ou mesmo decrépitas. Não há livro de reclamações, até porque reclamar faz sentido e é eficaz apenas em mercados que funcionem normalmente.

106. Eu responderia através duma palavra, aquela que é o evangelho seguido pelos fazedores de opiniões: prazer. Se o vinho é o veículo e o meio de transporte para o prazer, para um percurso calmo e reconfortante à geografia das videiras, à história da vinificação e à antropologia dos vinicultores, então constitui profundo masoquismo retardar a viagem pois o amanhã é incerto e não será na outra hipotética vida que a viagem será realizada e o prazer recuperado. «Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje», relembra e alerta sabiamente o povo.

107. O tema da idade é mais um dos que resvalam para o debate inconclusivo entre a escola tradicional (do Velho Mundo), agora e finalmente não tão sobranceira, e a escola técnica (do Novo Mundo), cujo cavalo de batalha já não é combater o exuberante perfume frutado. Os protetores da primeira têm crido que só os melhores vinhos clássicos europeus – ou porventura franceses – progridem com a idade, mas esquecem-se de referir que o envelhecimento é em parte devido a aditivos durante a fermentação ou mesmo antes de esta começar, bem como a métodos de vinificação ou a processos de engarrafamento que permitem artificialmente aumentar a natureza dos néctares e maximizar o seu período de estabilidade.

108. A escola técnica entende que pode assegurar o mesmo resultado (do envelhecimento) mas com menor intensidade dos aditivos, métodos e processos atrás indicados. Privilegia a atuação para a otimização dos conhecimentos propiciados pela ciência, inclusive respeitantes ao aproveitamento das condições edafológicas e climatéricas das regiões. A diferença de filosofia, entre repetição e investigação, entre consistência e experiência, no fundo entre o costume da escola tradicional e a inovação da escola técnica, reflete-se sobremaneira não na qualidade mas no preço.

109. O mito em apreço orbita bastante à volta do engarrafamento. Por isso o envelhecimento podia ser autonomizado, como oportunamente foi abordado: o mito de que o carvalho confere bouquet ao vinho. Mais uma área onde reinam os preconceitos. Por exemplo, a estratégia dos barris de carvalho para transmitir ao vinho olores abaunilhados e aumentar o seu período de vida é deveras valorizado pelos produtores europeus, o que torna as bebidas necessariamente caras. A utilização de aço inoxidável é incomparavelmente mais barata e permite que os vinhos mantenham a sua pureza, pois preserva a fragrância e o sabor naturais das uvas.

110. A maquilhagem não é gratuita, e muito menos as campanhas publicitárias – não raras vezes patéticas – para tentar convencer que o seu uso é benéfico. Marketing formatado e deformado. Não se espera que mesmo uma mulher bela frequente um restaurante de luxo trivialmente trajada; passava quase despercebida ante a vulgaridade aperaltada lá existente. O mesmo acontece com os vinhos maquilhados, conquanto de menor qualidade – qualidade natural, entenda-se – face a vinhos bons que são puro sumo da uva, puros sem artimanhas ou estratégias vínicas ou comerciais.

111. Retome-se o recorrente emprego do carvalho. Os consumidores são impingidos com a ideia de que quanto mais fenóis tiver o vinho, melhor. Os taninos – compostos químicos naturais provenientes das uvas (não da polpa mas sim das cascas, das sementes e dos engaços) – têm-se mostrado insuficientes para os caprichos de grande parte dos críticos opiniáticos. Assim, estes evangelizam os consumidores sobre a importância de outros fenóis, referindo-se especialmente à vanilina – fenol constante do carvalho, que concede um cheiro e um paladar parecidos com os da baunilha.

112. Porém, o procedimento de amadurecer o vinho em barricas novas de carvalho e envelhecê-lo posteriormente em garrafa tem sido inúmeras vezes usado, sem ponderação ou critério, como sinónimo de superior categoria. Na prática o que sucessivamente se faz é, através do controlo das doses aromáticas do carvalho, transformar bebidas comuns em néctares empoladamente complexos. Forma alternativa de marketing, tão eficaz como a declaração de terroir ou o financiamento dos críticos especialistas. Juntando a trindade – carvalho, terroir e críticos –, é desnecessário mencionar o fim alcançado.

113. Virá o dia em que o carvalho será substituído pela pureza de odores e sabores. Não é tanto o uso dos tonéis de madeira – seja de carvalho, castanho ou abeto – para a fermentação do vinho que está em jogo, mas antes a febre do uso de pipos novos de carvalho francês. Quem atribui legitimidade à semelhança entre o vinho e o homem reproduzirá a parte final do ponto 2, de que «pode envelhecer-se sem a ajuda do carvalho; mas este, se for novo, valoriza a idade, como a maioria concordará.»

114. O carvalho não é um elemento natural e como tal é facilmente secundarizado. Pode-se perfeitamente retirá-lo do emblema da qualidade. Basta que a maioria dos produtores não franceses sinta orgulho em fabricar vinho que fermente em recipientes que garantam a neutralidade de fragrâncias e paladares das uvas, e que paralelamente invista em críticos opiniáticos que corroborem a vontade e a coragem desses produtores. Como em quase tudo, é uma questão de preço. Para telintar os gostos afeitos aos mitos, até nem será cara a campanha de informação.

Évora, 21 de janeiro de 2015 – Excursão da interioridade ou da inferioridade?

Évora, 21 de janeiro de 2015 – Excursão da interioridade ou da inferioridade? (05/01/2015)



Ontem, 4 de janeiro, ouvi de relance no rádio uma notícia que me embebeceu por completo o espírito. Um grupo de admiradores do anterior primeiro-ministro está a organizar, para o próximo dia 21 deste mês, uma excursão a Évora, que partirá da Covilhã. Precisamente dois meses após a noite fatídica – fatídica para a classe política – em que esse ex-dirigente governamental foi detido no aeroporto de Lisboa. Todos serão bem-vindos a participar. Como um dos organizadores realçou, se puderem ir milhares de pessoas, não irão centenas.

A excursão de apoio é, de acordo com a organização, um ato que visa mostrar ao País o profundo reconhecimento que as gentes do interior sentem pelo trabalho desenvolvido pelo ex-chefe do Governo. Cumpre reconhecer que a iniciativa não foi mal formulada. A reboque do assunto por vezes crispante entre o litoral e o interior, tenta carrear-se para o processo judicial em curso a ideia de que o acusado (pelos crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e corrupção) foi – e é – o sumo representante da interioridade lusitana.

Assim – há que reconhecer – procurou matar-se dois coelhos com uma só cajadada: defender a personalidade em causa, desde logo junto da opinião pública; e granjear incentivos para as hostes do partido a que ele está ligado. Nada a opor à jogada, perfeitamente possível à luz das regras da política democrática. Todavia uma dúvida insofismável assola qualquer indivíduo cujo prazo de validade da sua memória não seja inferior a um mês e meio.

Com efeito, desde os primeiros instantes após a detenção do sujeito em questão foi construída uma “narrativa” que deixou os ouvidos dos cidadãos anónimos feridos em carne viva, tal a frequência com que ela foi continuamente repetida. Transmitiu-se e defendeu-se até ao tutano que o processo é de natureza jurídica, e por isso deve ser avaliado tão-somente em sede judicial. «A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus», ou seja, à justiça o que é da justiça, e à política o que é da política, era o alfa e o ómega da cada intervenção com que os portugueses foram incessantemente massacrados.

Constata-se agora que afinal houve uma mudança radical da “narrativa”, por desventura para pior, ou antes, para um patamar inferior (apenas comparável a uma endémica realidade, ignóbil e imperdoável, com que as instâncias nacionais têm tratado de olhos vendados: a violação do segredo de justiça, sinal evidente de que o aparelho judicial e a comunicação social teimam em andar de candeias às avessas). Afinal o argumento – esse sim, de nível superior – de que as instituições deveriam funcionar normalmente e sem pressões teve lamentavelmente uma vida efémera.

Somente os mais incautos alinham no cariz altruístico da excursão. Direta ou indiretamente esta terá como objetivo condicionar a “narrativa” nem sempre conveniente da separação de poderes entre justiça e política. Desejo que os romeiros dos novos tribunais façam ótima viagem. Mas não se demorem muito, sob pena de perderem a memória do caminho para o regresso. Excursão da interioridade geográfica ou excursão da inferioridade memorial?



segunda-feira, 29 de junho de 2020

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte V/X – Alta qualidade e singularidade)

A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte V/X – Alta qualidade e singularidade) (01/01/2015)



Mito 4 – Os vinhos de alta qualidade têm marcantes características singulares.

82. Que uma zurrapa se distingue fácil e objetivamente dum néctar, ninguém duvida, tal como se consegue separar o azedo do amargo e o doce do salgado. Justifica-se portanto a variação de preços entre essas duas bebidas de opostas categorias. Para qualquer pessoa uma mistela é uma mistela e ponto final, sem mais delongas. O mercado das zurrapas é livre, concorrencial e democrático, onde o preço reflete a genuína lei da oferta e da procura, pelo que os enólogos e os críticos vinícolas dele se distanciam. No mercado dos néctares o cenário é completamente diferente, com a agravante de a diferença continuar camuflada para a generalidade dos consumidores.

83. Até se aceita que as características sejam singulares e únicas, desde logo porque se pode defender, ainda que ironicamente, que não há dois seres vivos iguais (mesmo que clonáveis) ou até dois objetos iguais, visto que a matéria de que são feitos é distinta. O que contesto é alguém apontar que as características sejam o reflexo duma dada região e por isso incomparáveis, com o pretexto de fundamentar o preço como se houvesse uma transmissão dinástica das regiões para os vinhos – desmistificada no post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte II/X – Terroir e côtes)». A legião dos críticos seguidores duma região comete esse equívoco quase de forma involuntária.

84. Se os vinhos superiores emanarem características invulgares, então admite-se – já lá vamos – que estas devam ser refletidas no preço final, desde que obviamente exista uma relação forte entre a qualidade do produto e o seu custo de fabrico. Mas também é crível, ao contrário do admitido na frase anterior, que a relação entre preços de venda e custos de produção não faça sentido, por nalgumas situações ser a antítese da eficiência de recursos.

85. Com efeito, num mercado de funcionamento normal, os produtores que, para a mesma qualidade dos bens oferecidos, registem maiores despesas face aos seus concorrentes desaparecem do mercado e são substituídos por outros mais eficientes, que praticam custos e preços competitivos. Porém, dado que uma parcela material do mercado do vinho não é suficientemente concorrencial, os compradores toleram inconscientemente que os produtores repercutam nos preços finais os elevados custos incorridos, acabando assim por beber ineficiência quando julgavam beber qualidade.

86. Seja-me permitido transcrever o que foi realçado no parágrafo 21 do post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)». «É inquestionável que o preço deve refletir os custos (normais ou empolados) de produção e de comercialização. Aspeto bem diferente é cristalizar as sensações do público, injetando-lhe a mensagem de que preços elevados – que em regra estão associados a maiores custos operacionais – significam impreterivelmente uma reconhecida qualidade acrescida. Custos maiores implicam preços de venda maiores – a não ser que os produtores percam dinheiro –; mas maiores custos de produção (já para nem incluir os custos de propaganda) ou maiores preços de venda não representam forçosamente maior qualidade. É aqui que reside o ponto nevrálgico.»

87. Duvido da classe superior proclamada com apego pelos fazedores de opiniões, não apenas por uma questão de ceticismo mas sobretudo por razões empíricas. Formigam os episódios de provas cegas em que, para os próprios sapientes da aparência, do aroma e do sabor, os resultados dos seus sentidos puros – quando as garrafas se expõem nuas – divergem sobremaneira das preferências manifestadas através dos sentidos formatados – quando os vinhos se apresentam vestidos com os rótulos, como se se tratasse de festas de gala. Acontece que os sábios são humanos, e por isso erram – resignação inquietante expressa por algumas eminências, para branquear a irracionalidade.

88. Se os provadores especialistas se enganam redondamente, humilhando os vitivinicultores ufanados que creem produzir bebidas desiguais, é impossível esperar pior quando as provas envolvem consumidores ingénuos. Tanto para os profissionais como para os amadores a regra é a aleatoriedade, ou seja, perante vinhos de diferente jaez, a probabilidade de acertar, escolhendo os de melhor qualidade, é tendencialmente igual à de falhar, optando pelos de pior qualidade – claro que a hierarquização da qualidade depende dos critérios prévios definidos pelos peritos a seu bel-prazer.

89. Dado que a qualidade é uma perceção profundamente subjetiva e mesmo imaginária – como foi realçado em posts anteriores –, e visto que tanto para a crítica especializada como para o público em geral as degustações à cega nada atestam sobre a qualidade, há motivos lógicos para afastar a relação entre a qualidade e o preço. O preço não atesta a qualidade. Existem vinhos de qualidade baratos, enquanto outros, também de qualidade, são caros.

90. Haja humildade e reconheça-se que o preço do vinho depende dos encargos de produção e de comercialização. Haja decoro e tire-se a qualidade do filme da publicidade enganosa. A qualidade tem outrossim uma natureza subjetiva – repito –, dependente de imensas variáveis que afetam o estado de espírito de cada um. Estas variáveis explicam porque em determinadas circunstâncias há vinhos baratos que sabem bem, enquanto noutras existem vinhos caros que sabem mal. É tudo uma questão de momentos, irregulares como o tempo, a não ser que o preço seja um mero placebo do prazer.

91. Por conseguinte, estritamente sob o ponto de vista racional, não se pode anuir à ideia de quem pretende sustentar que as características singulares dum vinho são melhores do que as características únicas doutro, nem que seja por os conceitos de singularidade e unicidade dependerem fortemente da avaliação pessoal. A incontestável evidência da subjetividade só por si arrasa vários mitos acerca do vinho, e consequentemente refuta o preço com que bastantes rótulos e rolhas se apresentam.

92. Fica-se com a noção de que os críticos opiniáticos inventam léxico verborreico para descrever imagens, cheiros e paladares dos vinhos endeusados que lhes caem no goto e que querem colocar no pedestal. Eu também poderia inventar algo, tal como entender que há vinhos de qualidade suprema cujos olores são um misto, na proporção de três para dois, de sol primaveril com céu estival, enquanto noutros verifica-se paritariamente um travo de noite sem trovoada com aurora nublada, salpicado com subtis notas matinais de orvalho.

93. Todavia há quem possa retorquir, pugnando que os néctares com maior caráter estão iluminados pela égide das fragrâncias do xisto obliquamente laminado e dos seixos esbranquiçados e carnudos. Cada um invente à sua maneira, desde que reserve a teórica invenção para si. É o que deviam fazer muitos fazedores de opiniões e demais obscuros críticos luzeiros, tão blasfemos e insolentes quanto me possam considerar neste momento. Como retribuição do escárnio e das heresias que tenho proferido, devo estar a receber uma praga forte como a que sofrem as raízes das videiras não enxertadas. A sorte é que tenho os rizomas assentes em terrenos arenosos, repelentes da filoxera.

94. Ainda a propósito da falta de lógica para que, entre dois vinhos de qualidade análoga, um seja discriminado em detrimento do outro, relembrem-se as analogias da beleza, dos cavalos e dos fadistas constantes da primeira desmistificação («A alma do vinho é o seu terroir»). Um Chadornnay da Borgonha com dez anos, criado através da fermentação malolática, é inconfundível – juram os lacaios dos brancos borgonheses. É tão inconfundível como um Chadornnay chileno com quatro anos, nado e criado com o mesmo desvelo dos franceses.

95. Também posso afirmar que um branco de Bucelas com os mesmos quatro anos – feito com a lusitana casta Arinto, não afamada como a Chadornnay mas não atrás desta em nobreza – é ainda mais inconfundível, e por isso o seu preço deve ser incomparavelmente superior ao de qualquer Chadornnay. A substancial diferença entre a minha opinião e a de conceituados críticos – seguramente com opiniões não mais assépticas do que a minha – é a força do dinheiro das indulgências, como referido no terceiro mito («A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho»).

96. Inúmeras contradições, ora entediantes ora aleivosas, pululam a memória. Há conceituados críticos (de opiniões uniformes e formatadas) a justificarem que o sul da França é, em todo o Mundo, a zona produtora dos vinhos mais fascinantes devido ao empenho pertinaz levado a cabo pelos vinicultores e enólogos, obcecados por (o lugar-comum de) a «excelência de qualidade». Paralelamente os mesmos indivíduos são perentórios quanto ao destino reservado ao Chile. Entendem que este país, por ter uma aptidão natural para produzir vinhos bons – solos férteis e próximos do mar, conforme abordado nos parágrafos 72 e 73 do post anterior (parte IV/X – Produção, qualidade e preço) –, não deve incorrer em riscos desnecessários e por isso é preferível não esforçar-se por tentar o estrato superior, o dos vinhos excelentes.

97. Laivos de arrogância que significam, por outras palavras, que para a maioria dos países está reservada a sina da mediania, e que a alta categoria está à mercê unicamente dos etéreos produtores predestinados com terroir. Ou seja, no subconsciente de certos conjuntos de fazedores de opiniões, as características marcantes das bebidas estão talhadas para um microconjunto de regiões, a quem cabe o feudo dos néctares nobres e de qualidade azul (por oposição aos vinhos republicanos elaborados pela chusma dos produtores).

98. Doutrina interessante. Os vitivinicultores profissionais e exigentes obterão, no máximo, bons vinhos, equilibrados nas várias vertentes aromático-gustativas, no entanto associados a uma persistência fugaz. Ao invés, os grandes vinhos – acima dos bons –, os que manifestam uma persistência prolongada, estão ao alcance somente dum punhado de alquimistas bafejados por vontades sobrenaturais. Alguns animais veem o espaço a duas dimensões; há pessoas que olham para a realidade e não conseguem escrutinar mais do que a dicotomia de escol e escumalha. Eis o medievo raciocínio ainda vigente no séc. XXI.

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