Tartarugas, jacaré e lagartixa (11/01/2015)
As tartarugas convocaram um jacaré e uma lagartixa para uma visita ao seu jardim. Os dois últimos animais transmitiram previamente às tartarugas que, ao abrigo da lei do segredo dos répteis, eles teriam de fazer a visita à porta fechada, sem a presença de sapos. As tartarugas concordaram, atentos os altaneiros e intocáveis argumentos invocados pelo jacaré e pela lagartixa. Ao que parece, o primeiro ser também solicitara o direito de reserva de imagem, o que se consubstancia na impossibilidade de os sapos, as rãs e demais anfíbios realizarem fotografias ou filmagens.
Chegou o ansiado dia da visita do jacaré. Como qualquer humilde jacaré que se preze, ele esclareceu as tartarugas presentes e os cágados assessores que não era um jacaré “controller” financeiro mas sim um mero jacaré tesoureiro. Independentemente do epíteto atribuído ou assumido, mesmo à porta fechada o jacaré não abriu a boca nem desferiu qualquer ataque. O episódio expôs a superioridade dos jacarés a todos os níveis. Mesmo sem a presença de anfíbios, o jacaré sabia que as tartarugas e os cágados comportam-se como os humanos: não são confiáveis nem conhecem a vocábulo «sigilo».
No dia seguinte – o momento das luzes – foi a vez da lagartixa. Tal como sucedera no dia anterior com o jacaré, os anfíbios estavam fora do recinto do jardim, devido à lei do segredo dos répteis – apesar de constituírem uma classe de animais bastante diversificada e heterogénea, muitos répteis não simpatizam com os anfíbios. Era o dia «D», aquele em que a lagartixa contabilista se apresentava às tartarugas das várias colónias e aos cágados das hostes acompanhantes. A lagartixa vislumbrou um pouco de sol no jardim e logo se estendeu; abriu-se toda, como se estivesse no seu habitat.
Claro que as tartarugas e os cágados depressa se lembraram que estavam à porta fechada e de imediato romperam o combinado em termos de gravação de depoimentos. Fiéis reprodutores da falsidade e da audácia de tantos animais humanos, gravaram as declarações que a lagartixa candidamente ia proferindo e difundiram-nas para os sapos que estavam no exterior do jardim. Deleite especial sentido tanto pelas tartarugas e pelos cágados como pelos sapos. A própria incauta lagartixa, incrédula com tamanha violação da palavra das tartarugas, interrompeu a conversa e ameaçou suspendê-la.
Moral da história: assim vai o espaço da democracia, onde se consome a honra de valores e o compromisso assumido é vilmente branqueado pelos sapos, seres que, quando lhes convém, conseguem vestir-se de camaleões. Por outro lado, os episódios ilustram o pensamento genético de cada réptil. O jacaré, que impôs declarações à porta fechada e reserva de imagem, nada transmitiu literalmente. À boa maneira de jacaré, mostrou quem manda e está no topo. As tartarugas, indignadas com tamanhos sinais de manifestação de poder, ecoaram ironicamente a uma voz para concluir que afinal as declarações poderiam ter sido divulgadas à porta aberta, com a presença de anfíbios. As tartarugas queriam brincar com o jacaré, mas foram elas que acabaram chacoteadas.
Para além de os episódios permitirem constatar que «quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré», revelaram que as tartarugas e os cágados portugueses desconhecem a virtude da palavra. Por outro lado, confirmou-se que, não obstante o estado de conservação das tartarugas encontrar-se ameaçado, elas são animais versáteis, capazes de entrar em ondas gigantes e sair incólumes. Numas ocasiões por estratégica intenção, noutras por confrangedora inépcia, as tartarugas trocam o essencial pelo acessório, isentando da condenação os tubarões e os gorilas devoradores de milhares de milhões. Como o mexilhão não serve para imolação, a justiça exigirá o sacrifício da lagartixa.
Para além de os episódios permitirem constatar que «quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré», revelaram que as tartarugas e os cágados portugueses desconhecem a virtude da palavra. Por outro lado, confirmou-se que, não obstante o estado de conservação das tartarugas encontrar-se ameaçado, elas são animais versáteis, capazes de entrar em ondas gigantes e sair incólumes. Numas ocasiões por estratégica intenção, noutras por confrangedora inépcia, as tartarugas trocam o essencial pelo acessório, isentando da condenação os tubarões e os gorilas devoradores de milhares de milhões. Como o mexilhão não serve para imolação, a justiça exigirá o sacrifício da lagartixa.
