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sábado, 4 de julho de 2020

«MF» e «mf» – A grandeza de Manuela de Freitas e o silêncio do Museu do Fado

«MF» e «mf» – A grandeza de Manuela de Freitas e o silêncio do Museu do Fado (20/05/2018)




(Imagem obtida através de uma fotografia
tirada em 19/04/2018, extraída da página
de Facebook do Museu do Fado.)



I. «Conversas» no Museu do Fado

Admito que em diversos pontos do Mundo haja museus que instituem, consoante a língua de cada país, as suas «Conversas». Já alguns anos que, pelo menos na língua de Camões, existem museus que têm fomentado Conversas de Museu ou Conversas no Museu, como por exemplo em Portugal e no Brasil. Desta feita foi o nosso Museu do Fado que se associou ao slogan, e decidiu instituir um ciclo de Conversas de Museu.

Semanal e ininterruptamente, de 8 de março a 17 de maio (de 2018), o auditório do Museu teve a honra de receber onze personalidades ligadas ao universo do fado. A iniciativa abarcou diferentes áreas: oito fadistas de renome – Aldina Duarte, Camané, Carlos do Carmo, Marco Rodrigues, Maria Ana Bobone, Paulo Bragança, Paulo de Carvalho e Ricardo Ribeiro –, um insigne guitarrista – José Manuel Neto –, um virtuoso guitarreiro – Óscar Cardoso – e uma maravilhosa letrista – Manuela de Freitas.

Enalteço deveras a iniciativa, porém entendo que poderia ter havido mais espaço para os outros grupos que não o da voz. Reconheço que, em onze «Conversas», dedicar duas aos guitarreiros seria exagerado. Mas creio que foi escasso reservar somente uma sessão aos músicos, e também apenas uma aos poetas ou letristas. Parece‑me que limitar a cinco ou seis o número de encontros com fadistas seria ótimo. Saliente‑se que a observação que acabo de tecer reveste uma natureza exclusivamente construtiva. Em nada pretende beliscar o Museu nem os fadistas convidados, até porque a atividade das Conversas de Museu teve o mérito de permitir que os leigos como eu pudessem ter uma nesga de acesso aos meandros da riqueza cultural que o fado concede a quem o ouve e sente.

Da meia dúzia de sessões a que tive oportunidade de assistir – gostei de todas, realce‑se –, cumpre reconhecer que apreciei sobremaneira as (três) aparentemente menos convencionais, as que extravasam os cânones. Refiro‑me concretamente aos encontros alusivos ao talento da arte da guitarra portuguesa – da construção do instrumento à sua execução musical – e à arte do talento da elaboração de letras de fado. Fiquei abismado com a «Conversa» de 19 de abril p.p., como se a letrista Manuela de Freitas – letrista, e não poetisa, como a própria quis vincadamente sublinhar – fosse uma cabeça‑de‑cartaz do espetáculo que esteve em cena nos fins de tarde das quintas‑feiras. Sem desprimor para as demais distintas figuras do fado, repita-se. Todas as sessões ficarão eternamente gravadas no meu coração.

II. A aula de Manuela de Freitas

II.1. A aula dentro dos Ofícios Inquietos

Logo ao início, a Senhora Diretora do Museu lançou o mote, lendo um excerto de Ofícios Inquietos, texto de Manuela de Freitas reproduzido nas páginas 133 e seguintes do livro (que resultou da coprodução entre o Museu do Fado e o Museu Nacional do Teatro) O Fado e o Teatro, editado em 2013. Ao certo, não me recordo do excerto selecionado. Apenas recordo que incluiu uma referência comparativa entre os fadistas e os atores. Creio que uma das frases lidas foi a seguinte:

         Como o actor se torna autor do texto que representa, o fadista
         torna‑se autor do fado que canta. Não é por acaso que se diz: “aquele 
         fado do Carlos do Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.

Se o excerto enfatizou outra parte, será irrelevante, pois o texto original, apesar de não ser muito extenso, é um autêntico resumo, alargado e condensado, de um grande compêndio sobre dois mundos bastante semelhantes: o fado e o teatro. Qualquer parágrafo, qualquer frase ou qualquer oração do texto seriam suficientes para desenvolver uma sessão apaixonante. Como é óbvio, seria suficiente porque o discurso da Senhora Manuela de Freitas foi enfático e transparente; caso contrário, teria sido uma conversa de plástico, como sucede em barda com tantos comunicadores.

Para Manuela de Freitas, a letra do fado está para o texto do teatro, assim como a música cantada pelo fadista está para a encenação representada pelo ator. Para que haja bom fado e bom teatro, todo o conjunto «[...] tem de estar em harmonia e fazer sentido, um sentido maior do que o intérprete e maior do que o público.» Um equilíbrio único. Tanto o fadista como o ator «[...] fazem do corpo o emissário da alma [...]». «Não imitam nada nem ninguém, são aqueles e não outros [...]». «Quando não é assim, só há mau teatro e mau fado. E, sobretudo agora que o fado está mais prestigiado, "anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado". É que, como o teatro, o fado parece fácil. E é‑o – quando é mau. E quando é mau é insuportável. Não é coisa nenhuma. Porque nem um nem outro suportam a vulgaridade [...]». «Nem suportam o despojamento com que por vezes a falta de talento mascara o vazio [...]». Impossível eu estar mais de acordo.

Um espelho sobre este ser ou não ser (do bom ou mau fadista ou ator) foi colocado pela própria Manuela de Freitas no último parágrafo do texto em apreço, pelo que vale a pena transcrevê‑lo:

         Sabendo que há uma oposição insanável entre exprimir‑se e exibir‑se, 
         fadista, como o actor, tem de escolher: ou ser mais um malabarista 
         habilidoso para entretenimento e negócio rentável da pequena vida 
         das pequenas gentes; ou (tantas vezes inútil, frustrante, 
         incompreensível e incompreendidamente) condenar‑se à paixão, ao 
         desassossego e à insatisfação desse outro negócio – o da alma – 
         que, diz‑nos Miguel Rovisco, «embora leve à falência, é negócio para 
         sempre». [Esta última citação de oito palavras constitui uma excelente 
         forma de acender a memória do talento prodigioso e da energia genial 
         de Miguel Rovisco (1959‑1987).]

Para Manuela de Freitas, o fado e o teatro são manifestações sentimentais nascidas para serem representadas na presença direta das pessoas. Existe uma comunhão, i.e., uma osmose de sentimentos entre o fadista e os seus ouvintes, num caso, e entre o ator e os seus espectadores, no outro. Porém, há uma grande diferença entre quem canta e quem teatraliza. No fado consegue‑se, tanto quanto possível, que fique registado fonograficamente o estado de alma do fadista – registo que é «[...] uma espécie de “memória do momento ao vivo” que nos emociona [...]» –, dado que «[...] a musicalidade é condição indispensável do seu talento expressivo [...]». A música «[...] acaba por conseguir recriar uma “encenação diferida” que no teatro é impossível.» Como se esperava, esta foi uma das ênfases da sessão. Mas houve várias inesperadas curiosidades importantes.

II.2. A aula a partir dos Ofícios Inquietos

O encontro com a letrista foi extremamente gratificante. Tratou‑se de uma aula prática dada no seu habitat natural – o palco – aquilo que ela transmitiu. A Senhora, que honesta e humildemente reconheceu ser incapaz de descrever o que é o fado, possibilitou aos presentes confirmarem que tal incapacidade era genuinamente verdadeira.

Percebeu‑se perfeitamente que ela não sabe o que é o fado porque ela (também) é fado, e como é discreta não consegue descrever tamanha característica pessoal. Todavia, desvendou o mistério, confessando que tem dentro de si instalado um aparelho (mas desconhece de onde veio), um arrepímetro, que se acende e avisa‑a quando o fado acontece. Mas não todo o fado, como a própria reconheceu – ainda que compreensivelmente não tenha pretendido entrar em tão polémico tema e que continua a ser uma espécie de tabu. A luz do aparelho dá‑lhe sinal quando ela sente que o fadista canta como se fosse o elemento de transmissão de uma mensagem divina, ou como se o fadista fosse a voz do próprio Deus.

A propósito da referência «anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado» – vide §3 de II.1 –, retome‑se a última frase do primeiro parágrafo de II.1 – «Não é por acaso que se diz: “aquele fado do Carlos do Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.» Convém acrescentar àquele (outro) fado de Carlos Ramos – Anda o Fado Noutras Bocas, que não por acaso tem letra e música de Artur Ribeiro – alguns versos que não fazem parte do refrão: «Eu ouço por todo o lado / Noutras bocas outro fado / Que de fado não tem nada»; ou, a propósito de determinados fadistas, «Ouvindo alguns que nasceram / Para tudo menos para o fado».

Durante cerca de uma hora e meia esteve em cena – não em exibição, pois esta palavra poderia levar a um grande equívoco, que Manuela de Freitas permanentemente evita, o de distinguir (usando as ideias plasmadas no citado derradeiro parágrafo do texto da sua autoria) quem dá tudo de si para «exprimir‑se», de quem pouco mais se interessa do que «exibir‑se» – uma lição durante a qual procurou explicar tanto o que é o fado do bom teatro como o teatro do mau fado. A Senhora foi – foi e é – assertiva mas reservada, frontal mas educada, forte mas complacente, sabendo elevar os dois estados de arte sentimental sublimes, o fado e o teatro. E percebeu‑se facilmente porque ourejou o teatro e prateou o fado. Sendo coerente consigo, ela não podia pensar doutra forma. Quem tivesse retido o mencionado texto Ofícios Inquietos, saberia de antemão o porquê da hierarquização entre o fado e o teatro, dois primos direitos que são filhos de estados de alma irmãos.

O estilo e a forma de comunicação patenteados permitiram concluir que quando um ator dá abnegadamente a sua alma àquilo que realiza, é indiferente falar sentado para uma pequena sala com dezenas de pessoas, ou representar de pé para um grande auditório com milhares de pessoas, fazendo com que os espectadores fiquem tatuados na memória com o momento único de entrega. Aliás, acerca das condições de comodidade por parte daqueles que recebem esta entrega, Manuela de Freitas partilhou com os presentes a explicação para que haja atores a preconizar que o público não deve assistir muito comodamente aos espetáculos, pois o facto de estar bem instalado pode impedir a maximização da sua capacidade de receção e retenção da mensagem. Creio que ela transmitiu haver mesmo quem avance que o público deve ficar sentado no chão. Se eu estivesse sentado no chão a ouvi‑la, ainda mais teria o prazer de levitar.

Só quem assistiu à representação daquele fim de tarde consegue entender na plenitude a definição de fado. Mesmo que houvesse uma gravação do encontro que registasse os cinco sentidos de cada pessoa presente no auditório, esse registo jamais conseguiria reproduzir o momento. Não captaria o estado anímico da entrega, despida de qualquer vaidade. A foto colocada no início deste post procura transmitir a sombra ínfima mas fiel do ambiente que os presentes puderam usufruir.

III. A comunicação com o Museu do Fado

No dia seguinte ao da sessão, após o jantar, relembrei‑me da palestra com que Manuela de Freitas, de maneira intimista e muito profissional, revolucionou os sentidos transcendentais a quem a (ou)viu com atenção. A vontade impeliu‑me então a descrever sucintamente como, na minha perspetiva, ela sente o fado, viveu o teatro – que abandonou há alguns anos, por não se identificar com determinadas idiossincrasias – e será fiel aos dois amores. Saíram naturalmente (de maneira tão natural como a sua mensagem) umas palavras, cujo conjunto intitulei Instinto e arrepio. O seu instinto inato para o teatro, e o seu arrepímetro único para o fado. Mas ela é incomparavelmente superior acima de tais palavras; inferior foi a minha capacidade para chegar à descrição ideal e suprema.

Após cerca de duas semanas de estágio, lembrei‑me de reler o que escrevera, e procedi a ligeiros ajustes. Um dia depois, em 4 de maio, decidi enviar um e‑mail ao Museu do Fado. Para além das palavras de Instinto e arrepio, o e‑mail continha o necessário enquadramento do mesmo. Comecei por felicitar o Museu, pela «excelente iniciativa promovida» por si – ou seja, as Conversas de Fado –, qualificando de «soberba» a «aula oferecida pela Senhora Manuela de Freitas», e salientando que «Fiquei embevecido com as suas palavras.»

Ademais, adicionei ao e‑mail alguns apontamentos já acima expostos: que foi no dia seguinte ao da sessão que brotou a minha decisão, atendendo a que «não me saía da ideia o que ouvira na véspera»; e que o resultado dessa decisão esteve a estagiar. Prossegui, escrevendo «Como não tenho o contacto da Senhora Manuela de Freitas, pedia o grande favor de o Museu do Fado lhe reencaminhar este e‑mail», e acrescentando que se tratava de «Ideias simples que são uma pálida amostra do que eu senti, ou melhor, do que ela transmitiu ao auditório.»

Volvidos poucos dias, enviei um novo e‑mail ao Museu do Fado, cujo conteúdo passo a reproduzir. «Admitindo que o Museu do Fado ainda não teve oportunidade para reencaminhar o meu e‑mail da passada sexta-feira, 4 de maio, à Senhora Manuela de Freitas, aproveito a oportunidade para fazer uma ligeira correção. Assim sendo, muito agradeço que os versos do último e‑mail sejam substituídos pelos abaixo apresentados». [Substituí, num verso, uma palavra por duas.] «No caso de o Museu do Fado não conseguir entrar em contacto com a Senhora Manuela e desse modo efetuar o reenvio do e‑mail contendo os versos, muito agradeço que me informe. Mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.»

Seguidamente encontram‑se expostas as palavras, imperfeitas mas descomprometidas e desinteressadas, referentes a Instinto e arrepio.

Não sei quem é o fado que me aclama
Um palco de olhar vivo a vida é
Teatro nu, verdade que reclama
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Não sei quem é o fado que me aclama
Sou corpo em movimento incessante
Instinto e arrepio que exalta, inflama
Presença sempre em cena, alma abundante
Um palco de olhar vivo a vida é
Sem cera ou caras ocas e fingidas
Combato, choro, sofro e amo em pé
Semeio alegrias, saro feridas
Teatro nu, verdade que reclama
Sou teu, no escuro sigo a tua pista
Ao fado que te canta eu dou chama
De Deus recebo a voz pura e fadista
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Sou hoje e jamais penso no depois
O estrado é o meu fado e creio até
Que o fado é o amante de nós dois


IV. O plano C

Face ao exposto, do Museu esperar‑se‑ia tão‑somente uma singela atitude: ou informar‑me que fez o favor que educadamente lhe pedi, ou então transmitir‑me que não poderia ter atuado em conformidade com o meu pedido. Não pedi o contacto da Senhora, e nem que a Senhora me contactasse; apenas pedi que a Senhora tivesse acesso ao eco que a sua aula produziu num elemento do público. Tão simples e nada mais que isso.

Mas parece que aquilo que se revela bastante simples converte‑se em multiplicada complicação. Desde o dia 4 de maio até hoje aguardei paciente e ingenuamente que o Museu do Fado tivesse uns segundos do seu escasso tempo para me responder.

O Museu não está ao meu serviço, bem sei. Mas bem sei igualmente que não lhe pedi o Céu. Ao invés, parece que lhe terei oferecido um convite para o Inferno, porquanto o seu silêncio leva a pressupor que foram pecaminosos ou infames os meus dois e‑mails, especialmente o último. Assim seja o seu entendimento. Apresento desde já desculpa se o teor dos referidos e‑mails conduziu a ruídos de interpretação.

Tornado vão o plano A – envolvendo o Museu do Fado –, ainda estive tentado a esboçar um plano B. Mas como para este plano alternativo seria necessário efetuar mais um pedido (para o Céu – ou sequer um convite para o Inferno), fui lesto a desistir da ideia. Enveredei imediatamente pelo plano C, o presente, o que depende de ninguém, o imune a caprichos, simpatias, amizades ou favores, o da publicação (sem rascunhos) no sítio da Internet.

Resta concluir que Manuela de Freitas, «MF», apresentou‑se com uma voz contagiante, sem oscilações no corpo e na alma. Por seu turno, o Museu do Fado, «mf», começou forte no levantamento da iniciativa mas acabou por esmorecer diante do seu silêncio, certamente por invulgar descuido. Conversas de Museu ou Conversas em Silêncio no Museu? O silêncio não se exige sempre; exige‑se quando se vai cantar o fado.

Polícia moderna – Autoridade da informação ou informação da autoridade?

Polícia moderna – Autoridade da informação ou informação da autoridade? (08/09/2017)


Para uma decisão ser adequada, basta que seja tecnicamente correta. Mas isto não chega para que seja eficaz; ser tecnicamente correta é apenas uma condição necessária. Para uma decisão ser eficaz, é preciso que seja adequadamente transmitida. Qualquer decisão só é adequadamente transmitida se contiver um suficiente nível de informação, e se a informação fluir com naturalidade entre o emissor e o recetor.
A informação é o elemento‑chave no processo de comunicação, e a base em que assentam os vários pilares das sociedades democráticas desenvolvidas. Nestas, a informação assume o papel de autoridade suprema. É assim com todas as instituições, incluindo as organizações policiais modernas, onde há muito a autoridade foi substituída pela informação, ou antes, a informação da autoridade soube humildemente dar o seu lugar à autoridade da informação.
Eis a ata pormenorizada de uma reunião‑surpresa realizada no mês passado, que não terá excedido um quarto de hora. Sendo as polícias instituições fulcrais para a consolidação das democracias, o seu vigor deve assentar em primeira instância no primado da informação, e apoiar‑se, quando indispensável, no primado da autoridade.
No feriado de 15 de agosto p.p., pouco antes das 8h30m, dirigi‑me a uma esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP). Na sala havia três agentes policiais: o da direita, de média‑baixa estatura e mais encorpado do que os restantes, encontrava‑se em pé; o do centro, com cabelo grisalho, estava sentado à secretária; e o da esquerda, visivelmente o que parecia mais simpático, encontrava‑se também sentado, numa das cadeiras encostadas à parede. Após o normal cumprimento de «bom‑dia», imediatamente retribuído pelos três, comecei por esclarecer que a minha presença tinha por objetivo fazer uma sugestão.
Foi deveras engraçado assistir à reação instintiva dos presentes. O polícia da direita – que prosseguiu o repetitivo movimento de bater levemente um cigarro (fino e todo branco) que tinha na mão direita contra uma pequena bolsa preta (que porventura guardaria o maço) na mão esquerda – olhou para mim, de baixo para cima e de relativo soslaio, franzindo um pouco o rosto num tom de desconfiança (q.b.). O do centro, com um ar descontraído, sorriu discretamente num ligeiro modo trocista, como que pensando o que sairia da boca do cidadão que figurava à sua frente, um fulano com aspeto apelintrado, que se apresentou na esquadra com um colete sem mangas bastante em voga pelos homens de idade mais avançada. Não reparei na reação do polícia da esquerda da sala, mas creio que terá sido neutra, aguardando simplesmente o que eu iria recomendar.
Antes de entrar no âmago do assunto, comecei por fazer o imprescindível enquadramento. Recordei‑lhes que alguns dias antes decorrera naquela localidade uma prova de ciclismo que obrigou ao óbvio corte de uma estrada nacional e das restantes vias que com ela se cruzam ou entroncam. O agente do centro quis saber imediatamente qual o dia e a hora em que tal ocorreu, ao que lhe respondi de uma forma não tão rigorosa como ele desejava, pois para mim o que interessava não era tanto a descrição exata dos factos nem o(s) polícia(s) que esteve(iveram) envolvido(s), mas sim o uso do caso em questão para melhorar a atuação da PSP.
Como o polícia (do centro) não estava muito convencido com a vaga informação prestada por mim, começou a dialogar com o seu colega que estava em pé, o qual, perspicaz, situou‑se logo, no tempo e no espaço, no que eu acabara de referir. Visto que o polícia mais velho não terminava a conversa com o outro, tive de o interromper, de uma maneira delicada mas assertiva, frisando que se ele me deixasse continuar, certamente iria entender a razão por que me dirigi à esquadra. Percebeu a mensagem, parando imediatamente de conversar.
Depois de eu retomar – reparei que enquanto falava, o agente sentado à secretária ia teclando e olhando para o monitor que estava em frente –, perguntei‑lhes se nesse género de provas (de ciclismo) a decisão do corte de vias é tomada pelo comando central ou distrital, ou pelas esquadras locais. O tal agente da secretária respondeu que em tais provas já estão previamente identificadas as estradas que serão afetadas. Apesar de a resposta ser insatisfatória, pois não se enquadrava na minha pergunta – que incidia exclusivamente na origem da tomada de decisão, e não na identificação das estradas interrompidas –, não insisti, e entrei de imediato no que pretendia.
Manifestei a necessidade de, sempre que possível, os polícias destacados estarem munidos da informação adequada para conseguirem responder cabalmente à população, o que beneficiaria todos, civis e polícias. Explicitei que na situação em concreto não interfeririam com a prova as pessoas que quisessem entrar na autoestrada e sair noutra localidade. Mas confessei‑lhes que concordava perfeitamente com quem, por questões de prudência e de segurança, tomou a decisão de cortar a via, mesmo que os automobilistas pretendessem seguir para a autoestrada.
Adiantei que, embora eu descortinasse o racional da decisão da PSP, foi óbvio que o agente destacado não conseguiu disponibilizar às pessoas que estavam mais exaltadas qualquer informação esclarecedora. Inconscientemente o polícia estava certo; mas foi incapaz de clarificar os cidadãos, provando que eles estavam errados. Foi incapaz não por falta de comunicação, mas por excessiva e evidente falta de informação ou de capacidade explicativa.
Adianto que, discreto e calado, observei à minimanifestação que se levantou por o polícia não permitir o acesso à autoestrada. As pessoas não compreenderam a atitude do polícia – intransigente com os cidadãos, desconhecedores do real alcance do fundamento da decisão, mas ignorantemente obediente perante as instruções dadas pela hierarquia.
Algumas delas gesticulavam energicamente com o agente. Um popular chegou mesmo a ameaçá‑lo, porém de modo indireto e à distância, soltando o desabafo «É por essas e por outras que às vezes as coisas dão mal para o lado da polícia!», e fazendo um movimento horizontal com o dedo indicador em frente à garganta, i.e., referia‑se aos crimes cometidos contra as forças policiais. Apesar de repudiar completamente tais reações irracionais, não intervim até porque estava uns metros afastado do espetáculo pacífico.

Não cedi propositadamente esta informação aos agentes. Preferi substituí‑la, realçando – e olhando sobretudo para o polícia da direita, de quem eu estava mais perto e que se mostrara mais distante da minha presença – que, como eles sabem, quando o povo se junta e fala, tantas asneiras são ditas, donde, para vantagem de todos, população civil e agentes policiais, é conveniente que eles saibam ao que vão e possam informar os cidadãos. Nesse momento o polícia da direita saiu da sala – quiçá para ir fumar o seu acariciado cigarro –, sem proferir uma única palavra desde o «bom‑dia».
Para os outros dois, acrescentei que os polícias não são máquinas, pelo que quem participa numa cadeia deve saber qual o papel do elo que desempenha. O agente mais velho, o do centro da sala, justificou a falta de resposta por parte do polícia que estava no local do corte da estrada, admitindo tratar‑se de um colega que teria sido requisitado para esse serviço e pertencia ao quadro de outra esquadra, e talvez por isso não conhecesse a zona. O polícia da esquerda rematou tal posição, afirmando que se fosse ele ou o seu chefe – fiquei a saber que o agente do centro era o chefe – deixar‑me‑iam seguir para a autoestrada porque conheciam o local.

Retorqui‑lhes, evidenciando que, na minha opinião, a questão não se prendia com a autorização ou a proibição em si, mas antes com a informação que (não) é transmitida aos cidadãos. Exprimi inclusivamente que, se eu estivesse no lugar do polícia encarregue de cortar o tráfego, seria muito provável que também não autorizasse a passagem. Perguntei‑lhes de quem seria a responsabilidade se eu lhes dissesse – aos dois agentes que ficaram na sala – que seguiria no sentido X, ou que iria para o sítio Y, e depois de estar na entrada da autoestrada decidisse dirigir‑me para o sentido contrário ao de X, ou saísse no sítio Z (em vez do Y)
, acabando por ir ter a uma zona onde decorria a prova de ciclismo – X, Y e Z substituem o sentido e os sítios que mencionei na altura. Eles terão percebido a minha observação, porquanto não argumentaram. Não concordaram nem discordaram; unicamente consentiram.
Reforcei então a minha sugestão. Salientei que hoje em dia a polícia não deve ser como antigamente, à moda da tropa, em que os superiores hierárquicos davam as ordens e quem estava abaixo simplesmente cumpria, não ousando perguntar o motivo e o alcance da instrução. Enfatizei que os agentes devem saber o que estão a fazer e porquê, e não funcionarem como meras máquinas – repeti a comparação (que não deve ser feita) entre polícias e máquinas – que não pensam, ou como cães treinados para executar o que lhes é ordenado.
Rematei, perguntando se achavam se seria preferível fazer a recomendação em apreço por escrito e, no caso afirmativo, a quem deveria dirigi‑la, se para aquela esquadra ou para o comando da PSP. O agente da esquerda aconselhou‑me a proceder como entendesse preferível, mas acabou por acrescentar – de forma inteligente, registe‑se – que se eu quisesse poderia enviar uma exposição para o comando da PSP a dar nota do que acabara de referir.
Agradeci e, antes de sair, despedi‑me com o mesmo «bom‑dia» da entrada. Desta vez somente o polícia da esquerda foi educado, respondendo – o que permitiu confirmar a minha primeira impressão, assim que entrei na sala.
Optei por não enviar diretamente uma comunicação para a esquadra nem para o comando. Ainda pensei dar conhecimento deste texto, após a publicação do mesmo, à esquadra envolvida. Todavia, como não se trata de uma denúncia ad hominem, preferi não proceder de tal modo. Publicito a exposição, omitindo o local e o momento do corte da estrada, bem como a esquadra envolvida.
Como em tudo, a força da razão suplanta a razão da força, ainda mais envolvendo decisões dos agentes públicos. O policiamento e a segurança devem assentar na razão e informação, e não na força e autoridade. Para o bem dos cidadãos, dos agentes policiais e da democracia.

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