Nos dias de hoje está bem
patente a infeliz intemporalidade do verso epigrafado, que foi extraído de um poema escrito na segunda metade do séc. XIX pela
galega Rosalía de Castro. Poema inesquecível, traduzido e genialmente musicado
por José Niza, ao qual Adriano Correia de Oliveira terá porventura concedido a
suprema notoriedade, atendendo ao tom arrepiante da canção Cantar de Emigração, editada em 1971.
Na Galiza do séc. XIX
reinavam a miséria camponesa e a fome; cerca de um século depois, no Portugal
de 1971 – ou, em rigor, de 1969, por este ser o ano em que José Niza
se revoltou e musicou o poema – dominavam
a falta de esperança e a vontade de fuga à guerra colonial, ainda que muitos tenham
saltado (também) por motivos políticos; atualmente, a partida de
tantos portugueses deve‑se ao endémico desemprego que perpassa um crescente sem‑número
de famílias. Se bem que, consoante os tempos, as causas da emigração forçada
sejam distintas, os comoventes resultados são praticamente os mesmos.
Se a endemia é ou não evitável, honestamente tenho dificuldade em
saber. Não quero enveredar pela demagogia, visto reconhecer que o assunto é
complexo demais para cenários desgarrados ou redutores. Posso no entanto
sublinhar aquilo que, na minha perceção, uma boa parte dos cidadãos tem notado:
por um lado, há a doutrina valorizada pelo grupo dos menos conformados, para
quem a realidade do desemprego pode, com alguma facilidade, ser alterada e
obrigada a entrar no trilho por si utopicamente traçado; por outro, existe a
tese defendida pelo grupo dos mais resignados, para quem parece que tal
realidade quase reveste a natureza dogmática, associada a um inevitável destino
nacional cuja salvação se restringe sobremaneira ao futuro caprichoso dos
outros países na medida em que dependerão destes a retoma e a aceleração da
nossa atividade produtiva, isto é, não está nas nossas mãos a solução do
problema.
A propósito de soluções, e
recorrendo a uma linguagem referente aos sistemas de equações, pode tentar
simplificar‑se a abordagem de cada um desses dois grupos. Os defensores do
primeiro grupo preconizam a existência de
uma solução para o contundente flagelo do desemprego, porquanto a realidade é
moldável e o problema reside, no fundo, na má formulação das equações do
sistema, ou seja, no fracasso das políticas adotadas em matéria de crescimento
e emprego. Esta visão é frontalmente refutada pelos apologistas do segundo
grupo, fiéis apoiantes da crença de que as incógnitas das equações são em maior
número do que as próprias equações, razão suficiente para que seja impossível
encontrar uma solução técnica para o desemprego estrutural.
Uns acusam os outros de pouco
ou mal fazerem para enfrentar a emigração; os últimos acusam os primeiros de populismo e propaganda. Voltando à comparação temporal
feita no segundo parágrafo, poderá defender‑se que, em substância, o grande
fator distintivo entre as fações acima mencionadas é a posição que
lhes subjaz – não ouso chamar ideologia, para não isolar o assunto no
campo político –, pois ironicamente, a avaliar pelos resultados, elas
assemelham‑se. Com efeito, as palavras de uns e as ações ou omissões dos
oponentes são tão pouco convincentes e tão infrutíferas, que o resultado
esperado das experiências no domínio do emprego – como se de
experiências laboratoriais se tratassem – tem sido, tal como nas
ciências exatas, um acontecimento certo: sempre o mesmo e previamente
conhecido.
Creio que da utopia ao dogma
há um espaço imenso onde cabem doses avantajadas de humildade e sensatez. Quero
assim afirmar que estes dois valores não têm abundado nos decisores e restantes
intervenientes, no que à hercúlea e humanista tarefa de combate ao desemprego
se refere.
Quando os princípios são tão
extremados, qualquer aproximação entre si, por diminuta que pareça, será
deveras profícua. Neste âmbito, constituiria um prestigioso desígnio do orgulho
nacional a mudança de atitude por parte de todos os sujeitos envolvidos.
Perante tantos discursos usados e gastos, porque não, desta vez, tentar
harmonizar as posições, ao invés de as dicotomizar? Se, no contexto da
tentativa de descoberta de um rumo para mitigar o problema, cada fação abdicar
temporariamente da sua instintiva fonte ideológica sobre os fatores que envolvem
o (des)emprego, tentando compreender – que é diferente de concordar –,
de espírito aberto e tolerante, as opiniões daqueles que perspetivam o assunto
de modo diferente, e identificando ou, de preferência, mensurando os custos e
os benefícios pluridimensionais de cada opção, seguramente que os resultados
não serão piores. Para tanto, é imprescindível a definição de uma função‑utilidade
transversal e objetiva para o País, a qual não se compadece, em linha com o que
aqui frisei, com análises parcelares, nem muito menos com convicções ou
preconceitos rígidos.
À população em geral e
sobretudo aos desempregados assiste o direito de exigir que algo de diferente
se faça no sentido de procurar estancar a sangria do desemprego e da emigração
forçada. Para além do encontro de pontos de vista já identificado, uma forma de
mitigar as consequências da chaga do desemprego passa pela otimização dos
recursos existentes no País. É uma área igualmente muito vasta e polémica,
talvez das mais fraturantes. Mas até por questões de dignidade e de afirmação
da nossa soberania, torna‑se necessário saber o que queremos enquanto Nação e
como alcançar este intento.
Entendo que nós, portugueses, temos visto toda esta problemática, no máximo, apenas a duas dimensões – sejam as dimensões utópica e dogmática nos termos que apresentei, ou o espaço discreto de cores resumidas ao preto e ao branco, ou quaisquer outras imagens ou abstrações que cada um retenha no campo bidimensional. Enquanto se insistir em encarar superficialmente os problemas com uma ténue e ineficaz postura, ignorando os estridentes sinais e as indeléveis entrelinhas, e somente homologando a sentença de que as pessoas podem ser descartáveis, encaixotadas e exportadas, este parte, aquele parte… e, na melhor das hipóteses, eu partirei e tu também partirás.
