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sexta-feira, 26 de junho de 2020

«Este parte, aquele parte» – Da utopia ao dogma

«Este parte, aquele parte» – Da utopia ao dogma (03/07/2013)



Nos dias de hoje está bem patente a infeliz intemporalidade do verso epigrafado, que foi extraído de um poema escrito na segunda metade do séc. XIX pela galega Rosalía de Castro. Poema inesquecível, traduzido e genialmente musicado por José Niza, ao qual Adriano Correia de Oliveira terá porventura concedido a suprema notoriedade, atendendo ao tom arrepiante da canção Cantar de Emigração, editada em 1971.
Na Galiza do séc. XIX reinavam a miséria camponesa e a fome; cerca de um século depois, no Portugal de 1971 – ou, em rigor, de 1969, por este ser o ano em que José Niza se revoltou e musicou o poema – dominavam a falta de esperança e a vontade de fuga à guerra colonial, ainda que muitos tenham saltado (também) por motivos políticos; atualmente, a partida de tantos portugueses deve‑se ao endémico desemprego que perpassa um crescente sem‑número de famílias. Se bem que, consoante os tempos, as causas da emigração forçada sejam distintas, os comoventes resultados são praticamente os mesmos.
Se a endemia é ou não evitável, honestamente tenho dificuldade em saber. Não quero enveredar pela demagogia, visto reconhecer que o assunto é complexo demais para cenários desgarrados ou redutores. Posso no entanto sublinhar aquilo que, na minha perceção, uma boa parte dos cidadãos tem notado: por um lado, há a doutrina valorizada pelo grupo dos menos conformados, para quem a realidade do desemprego pode, com alguma facilidade, ser alterada e obrigada a entrar no trilho por si utopicamente traçado; por outro, existe a tese defendida pelo grupo dos mais resignados, para quem parece que tal realidade quase reveste a natureza dogmática, associada a um inevitável destino nacional cuja salvação se restringe sobremaneira ao futuro caprichoso dos outros países na medida em que dependerão destes a retoma e a aceleração da nossa atividade produtiva, isto é, não está nas nossas mãos a solução do problema.
A propósito de soluções, e recorrendo a uma linguagem referente aos sistemas de equações, pode tentar simplificar‑se a abordagem de cada um desses dois grupos. Os defensores do primeiro grupo preconizam a existência de uma solução para o contundente flagelo do desemprego, porquanto a realidade é moldável e o problema reside, no fundo, na má formulação das equações do sistema, ou seja, no fracasso das políticas adotadas em matéria de crescimento e emprego. Esta visão é frontalmente refutada pelos apologistas do segundo grupo, fiéis apoiantes da crença de que as incógnitas das equações são em maior número do que as próprias equações, razão suficiente para que seja impossível encontrar uma solução técnica para o desemprego estrutural.
Uns acusam os outros de pouco ou mal fazerem para enfrentar a emigração; os últimos acusam os primeiros de populismo e propaganda. Voltando à comparação temporal feita no segundo parágrafo, poderá defender‑se que, em substância, o grande fator distintivo entre as fações acima mencionadas é a posição que lhes subjaz – não ouso chamar ideologia, para não isolar o assunto no campo político –, pois ironicamente, a avaliar pelos resultados, elas assemelham‑se. Com efeito, as palavras de uns e as ações ou omissões dos oponentes são tão pouco convincentes e tão infrutíferas, que o resultado esperado das experiências no domínio do emprego – como se de experiências laboratoriais se tratassem – tem sido, tal como nas ciências exatas, um acontecimento certo: sempre o mesmo e previamente conhecido.
Creio que da utopia ao dogma há um espaço imenso onde cabem doses avantajadas de humildade e sensatez. Quero assim afirmar que estes dois valores não têm abundado nos decisores e restantes intervenientes, no que à hercúlea e humanista tarefa de combate ao desemprego se refere.
Quando os princípios são tão extremados, qualquer aproximação entre si, por diminuta que pareça, será deveras profícua. Neste âmbito, constituiria um prestigioso desígnio do orgulho nacional a mudança de atitude por parte de todos os sujeitos envolvidos. Perante tantos discursos usados e gastos, porque não, desta vez, tentar harmonizar as posições, ao invés de as dicotomizar? Se, no contexto da tentativa de descoberta de um rumo para mitigar o problema, cada fação abdicar temporariamente da sua instintiva fonte ideológica sobre os fatores que envolvem o (des)emprego, tentando compreender – que é diferente de concordar –, de espírito aberto e tolerante, as opiniões daqueles que perspetivam o assunto de modo diferente, e identificando ou, de preferência, mensurando os custos e os benefícios pluridimensionais de cada opção, seguramente que os resultados não serão piores. Para tanto, é imprescindível a definição de uma função‑utilidade transversal e objetiva para o País, a qual não se compadece, em linha com o que aqui frisei, com análises parcelares, nem muito menos com convicções ou preconceitos rígidos.
À população em geral e sobretudo aos desempregados assiste o direito de exigir que algo de diferente se faça no sentido de procurar estancar a sangria do desemprego e da emigração forçada. Para além do encontro de pontos de vista já identificado, uma forma de mitigar as consequências da chaga do desemprego passa pela otimização dos recursos existentes no País. É uma área igualmente muito vasta e polémica, talvez das mais fraturantes. Mas até por questões de dignidade e de afirmação da nossa soberania, torna‑se necessário saber o que queremos enquanto Nação e como alcançar este intento.
Entendo que nós, portugueses, temos visto toda esta problemática, no máximo, apenas a duas dimensões – sejam as dimensões utópica e dogmática nos termos que apresentei, ou o espaço discreto de cores resumidas ao preto e ao branco, ou quaisquer outras imagens ou abstrações que cada um retenha no campo bidimensional. Enquanto se insistir em encarar superficialmente os problemas com uma ténue e ineficaz postura, ignorando os estridentes sinais e as indeléveis entrelinhas, e somente homologando a sentença de que as pessoas podem ser descartáveis, encaixotadas e exportadas, este parte, aquele parte… e, na melhor das hipóteses, eu partirei e tu também partirás.

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