Mito 3 – A produção massiva reflete-se negativamente na qualidade e no preço do vinho.
59. Muito se pode desenvolver sobre a conjugação entre a quantidade, a qualidade e o preço. Ainda que, por regra, o volume de produção dos vinhedos evolua em sentido inverso ao da qualidade do vinho obtido, a combinação das duas variáveis não é linear. É uma relação deveras complexa, para a qual contribui um rol de fatores, referentes quer à vinha propriamente dita, quer à intervenção humana, como fora realçado a propósito da primeira desmistificação («A alma do vinho é o seu terroir»). O preço de venda reflete essa complexidade mal desvendada.
60. Assim, atendendo à validade geral da relação inversa entre a quantidade das uvas duma videira, por um lado, e a qualidade e o preço do vinho, por outro, estará cabalmente sustentado o preço do vinho exportado pela Alemanha e pela África do Sul, pois maior quantidade de vinho produzido por hectare vinhateiro traduz-se em menor preço de venda – vide gráfico 2 do post «O preço do vinho e os mercados imperfeitos». Acrescente-se que a produtividade elevada nesses dois países prende-se com a mecanização intensiva.
61. Todavia não é clara a explicação para que tanto o preço como a produtividade registassem os piores valores em Portugal e na Espanha. Abalanço-me a justificar a situação: clima e marketing, um estranho binómio. A Espanha, por ter – tal como Portugal – um clima mais seguro e previsível do que a França ou a Itália, é o país europeu com dimensão e potencial maiores para competir com qualquer território do Novo Mundo, independentemente do segmento do mercado e da perspetiva do negócio. Porém os resultados não têm sido promissores comparando com as possibilidades que a Natureza oferece, sobretudo devido – hipótese minha – ao facto de a região La Mancha ter vindo a ser subaproveitada.
62. Em abono da verdade há a mencionar que o clima em La Mancha difere do do resto da Espanha. Situada na zona central da Península Ibérica, a região vinícola (mais extensa do Mundo) está sujeita a condições climatéricas extremas, felizmente impróprias para o surgimento de pragas, o que permite registar encargos de produção reduzidos e, por isso, concorrer com preços baixos. Fenómeno comparável sucede com boa parte do sul de Portugal: clima quente, o que constitui desde logo um atrito às doenças das videiras e um nível diminuto dos custos.
63. O anverso do paraíso, enleado na ausência de pragas e doenças, tem passado pela vantagem de praticar preços competitivos. Em contrapartida, o reverso vem-se afigurando severo, em ambas as zonas ibéricas acima identificadas: a falta de zelo para a «excelência de qualidade», expressão tão apreciada e vincada pelos fazedores de opiniões. Para responder ao chamamento da excelência é necessário haver outro espírito empresarial dos vitivinicultores.
64. Este espírito deve assentar numa sólida ambição. Ambição para investir e assumir riscos, e também para derrubar tabus. Tabus: é atrozmente incompreensível como os pândegos críticos lançam foguetes de vaidade sempre que o clima duma qualquer região francesa é (anormalmente) favorável, e quando se verifica a (monótona) regularidade de bons anos nas regiões doutros países ficam taciturnos com os resultados garantidos.
65. Voltando ao caso espanhol: o problema é a qualidade. Com quatrocentos mil hectares contínuos de vinha, La Mancha tem albergado essencialmente a casta branca Airén cujas uvas, por serem mal-afamadas pelos enólogos, acabam sanificadas no alambique, transformando-se na aguardente que o licoroso Xerez absorverá. Destino pouco nobre para a região vinícola conhecida como a Adega da Europa. Sina semelhante tem testemunhado a região do Ribatejo, principal fornecedora da aguardente vínica para o vinho do Porto.
66. Contudo novas perspetivas têm estado a anunciar-se, visto que os vitivinicultores espanhóis anseiam impor-se. Estimulam a competitividade através da aposta em espécies internacionais com prestígio assegurado. Entendem – as tendências comerciais assim impõem o entendimento – que uma vinificação ousada passa pelo aproveitamento da onda dos sentidos globalizados. Duvido sinceramente da opção tomada em Espanha; é apenas uma suspeita pessoal – vide pontos 11 e 12 do post «A placebomania dos mitos e o preço do vinho (parte I/X – Premissas)», a propósito da premissa da globalização das virtudes e dos defeitos.
67. Creio que Portugal está a tentar inverter o fado de modo diferente: não tanto pela clonagem de gostos mas sim pela atitude assertiva de fomentar o que em si há de melhor, ainda que este «melhor» não seja imediatamente apreendido e reconhecido pelo grosso dos consumidores (incluindo os nacionais). Problema de (as forças da) comunicação. Tarda a explosão dos proveitos da acertada – a meu ver – decisão estratégica que tem sido encetada no nosso País. No décimo post esses assuntos serão desenvolvidos.
68. Retome-se o triângulo atinente à produção, à qualidade e ao preço, ou antes: retome-se o papel do marketing identificado na segunda frase do parágrafo 61. Estão por perceber os fundamentos – descobrir a lógica – para que, na França e na Nova Zelândia, se venha assistindo à conjugação de produtividades bastante fortes com os preços mais altos de todos. Em anos bons (em quantidade), a produção (mijona – outro sacrilégio nefando) da região de Bordéus é semelhante à da Austrália ou à do Chile. Todavia quando a fraca qualidade (da viticultura – não da vinificação, uma vez que esta está permanentemente no alto da crista) se sobrepõe, não se verifica a consequência aguardada num mercado normal: a descida dos preços, tal como ocorre com os restantes vinhos correntes oriundos de regiões não tão arvoradas quanto as francesas.
69. A Nova Zelândia é o país exportador do Novo Mundo em que o clima melhor se aproxima do francês: verões amenos e maturação por vezes incerta, especialmente na ilha austral. Assim, instalada a mania de os mercados embalarem no dogma de que os vinhos franceses apresentam a relação de referência perfeita entre o teor alcoólico – quantas vezes martelado, por exemplo através da chaptalização, como se abordará no nono post – e o nível de acidez, o acesso ao francesismo está por de mais facilitado. Teoria formulada por mim, embora admita ter enorme aderência à crua realidade.
70. De facto, parece não haver outro motivo sem ser o indicado no ponto anterior, porquanto os vinhos neo-zelandeses são vendidos a bom preço e no entanto a esmagadora maioria da produção provém de vinhedos novos – e sem a aura do terroir –, nos quais é aplicada veementemente a mecanização, pelo que os custos são reduzidos. A Nova Zelândia – passo o exagero da comparação – especializou-se com alarde na contrafação de castas francesas. Se a generalidade dos gostos mundiais desagua num mar uniforme e confiável, compreende-se porque é inglória a preocupação com os córregos nem sempre calmos e inofensivos.
71. A contrafação é dominada pela Sauvignon Blanc que, juntamente com a Chadornnay e a (franco-germânica) Riesling, por exemplo, tem garantido o tremendo êxito dos vinhos brancos. Idêntica estratégia, embora com resultados não tão arrasadores, foi seguida com as variedades tintas. A aposta na Pinot Noir é reveladora da colagem – porventura clonagem – às nortenhas regiões francesas, de modo a beneficiar da finesse empenachada dos tintos de Borgonha. Comunhão de linguagens somente ao alcance do clima do marketing – ou do marketing do clima.
72. São regulares as incoerências entre quantidade, qualidade e preço. Repare-se na seguinte, epílogo quer da dualidade de critérios dos duvidosos peritos, quer de quão hibernados continuam os consumidores. Os enólogos reconhecem que os solos chilenos são extremamente propícios aos vinhos tintos, pois as vinhas estão cultivadas em terrenos aluviais, ricos em minérios férteis para a agricultura. Também acontece com a Argentina; no entanto uma diferença altaneira se impõe, distinguindo as regiões vinícolas dos dois países sul-americanos: a imponente cordilheira dos Andes.
73. No caso do Chile acresce que a proximidade do mar concede a variação de temperatura que, segundo os ampelógrafos, algumas castas adoram, tais como as habituais Chardonnay, Riesling e Pinot Noir que a Nova Zelândia tão bem conhece – recue-se ao penúltimo parágrafo. Dá-se exatamente o mesmo na costa ocidental norte-americana, não tanto na Califórnia mas nos dois estados a norte, Oregon e Washington, com o clima esculpido pela sua latitude, entre 42º e 48º N, e pela cordilheira das Cascatas. Borgonha está localizada a 47º N, no centro-leste da França, mas dista do mar várias centenas de quilómetros. Às vezes é preciso avivar a memória dalguns, para não se esquecerem que o raciocínio tem de ser completo, como qualquer outra realidade, e dispõe mais do que um lado.
74. Relativamente às vantagens naturais do Chile explicitadas nos dois pontos anteriores – solos férteis e próximos do mar –, no oposto da medalha está cunhado um paradoxo: é o país onde o preço da exportação é dos mais baixos. A ilustração da diferença de preços, por país exportador, consta do gráfico 2 referido no parágrafo 60. Alguns críticos invocam haver regiões chilenas que, por serem frias, não são adequadas para os vinhos brancos de qualidade.
75. É curioso que o argumento da baixa temperatura seja prontamente apontado aos países do Novo Mundo (que se caracterizam por terem condições climatéricas assaz estáveis) mas não funcione para as frias regiões europeias de maior latitude, incluindo as do norte da França (que comportam riscos elevados de floração irregular e de maturação tardia, bem como de ocorrência de chuvas intensas nas épocas erradas). Convém não esquecer que, com frequência, famosas regiões francesas são visitadas, na altura da frutificação, por chuvadas perniciosas, ventos destrutivos e geadas agrestes, cujo efeito primacial é a perda duma porção significativa da colheita (e do rendimento dos vitivinicultores, mesmo adotando o mercado regras pouco ortodoxas que os têm protegido com uma mão por cima e outra por baixo).
76. Para atenuar o problema do decréscimo acentuado da frutificação enunciado na parte final do ponto anterior, os produtores fazem com que uma parcela dos vinhedos cresça mais tarde do que o normal, conseguindo-se assim dormir descansado, embora exista um senão, como atrás identificado: a colheita serôdia por falta de maturação das uvas, e o consequente risco de precipitação hostil durante a vindima que arrasa a qualidade. Concretizado o acinte da Natureza, entram depois em cena os segredos cinzelados pela enologia avançada, com os aditivos e os métodos milagrosos que batalhões de consumidores parecem adorar e continuam a retribuir financeiramente.
77. O mercado do vinho é totalmente diferente do mercado de produtos utilitários de massas, tais como televisões, frigoríficos, máquinas de lavar roupa ou varinhas mágicas. Mágico é muitas vezes o mercado do vinho, dado que o preço é assiduamente fixado através de poções mágicas. Se o mercado funcionasse sob a égide da transparência, os críticos opiniáticos esforçavam-se por decompor o preço nas várias componentes.
78. Em tais componentes incluem-se o ónus da safra com as videiras e as uvas, o dispêndio com o envasilhamento e o engarrafamento, a fiscalidade, entre outras. Nestas (outras) componentes residuais – mas não residuais quanto ao peso no preço final – encontra-se obviamente toda a panóplia de custos comerciais, entre os quais os relacionados com a intermediação, o marketing e, como se se tratasse duma compra de indulgências, o patrocínio das atividades dos escritores de vinhos.
79. Deve por conseguinte separar-se o trigo do joio, não misturando quantidade, qualidade e preço. Sem questionar a regra de que, em condições normais de mercado, a quantidade obtida duma vinha afeta negativamente a qualidade do vinho, há que ter bastante cuidado com as extrapolações acerca dos efeitos entre a quantidade e o preço, bem como entre a qualidade e o preço. O preço depende da quantidade, da qualidade e de tudo o resto, em proporções mutáveis no tempo e no espaço.
80. Conforme se conclui pelo que foi abordado a propósito do mito em questão, é impossível estabelecer uma relação minimamente credível entre o preço do vinho no mercado internacional e as suas variáveis explicativas. Basta isso para comprovar que o mercado é imperfeito. Independentemente da dimensão das despesas com o processo produtivo, por um lado, e da validade da relação entre quantidade e qualidade, por outro, sobressai a evidência de que assumem um peso material as aurívoras alcavalas comerciais de promoção do continente, do país, da região, do microclima, do vitivinicultor e do rótulo do vinho.
81. O «resto» – palavra da derradeira frase do penúltimo parágrafo – por vezes tem um efeito maior do que o ocupado pela quantidade e pela qualidade. Existem juízos bons, enquanto outros não são tanto assim. A emoção tempera o juízo, pelo que, como qualquer condimento, requer ser usado com parcimónia. Quando as suas doses são excedidas, a sensatez definha-se e o juízo retrai-se. C’est la vie, i.e., c’est le vin.

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