Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte I/VII) (25/04/2016)
1. Para comemorar o 42.º aniversário da singular Revolução dos Cravos, o FRES Democracia prolongará a celebração até ao próximo Primeiro de Maio. O post septipartido em apreço, baseado em 42 axiomas da política – de A.1 a G.6 –, esboça uma defesa da justiça da liverdade – liberdade com verdade –, ou não fosse a justiça a sede de todas as virtudes, de que a liverdade é uma filial.
2. O post é denso em argumentos, o que não favorece a sua interpretação. Algumas ideias estão propositadamente repetidas, dado que a mesma ideia fundamenta diferentes axiomas. Com entradas de liberdade, deguste-se a verdade e no fim brinde-se à liverdade, a égide democrática.
A. A democracia e a verdade
A.1. A política é a arte da utilidade, da exequibilidade e da proporcionalidade.
3. Para minimizar a controvérsia gerada ao redor de uma matéria já de si ruidosa como a política - política em sentido geral, i.e., incluindo a politiquice -, importa enveredar por uma abordagem objetiva. A objetividade assegura-se com verdade, que por sua vez depende da verificação cumulativa dos seguintes requisitos mínimos: utilidade, exequibilidade e proporcionalidade.
4. A política só é uma arte porque a capacidade para desvendar a verdade está ao alcance de muito poucos. A política e a politiquice nascem de vontades, trate-se de convictas intenções ou utópicos desejos. Porém, enquanto os genuínos políticos fazem acontecer a culta e ubertosa verdade, os astutos politiqueiros fazem crescer a estulta e pustulosa mentira. Com os políticos a vontade rima com verdade; com os politiqueiros a vontade enleia-se na mentira.
A.2. A política verticaliza e a politiquice horizontaliza.
5. A verdade é mais vertical do que horizontal. Os deputados costumam ter uma visão mais horizontalizada do que verticalizada. Ainda que a horizontalidade política seja normalmente desprestigiante, há uma exceção à regra. A exceção reside nas raras pessoas que dispõem de um específico condão cognoscitivo orientado para a verdade política: uma visão horizontal arrasadora, independentemente dos obstáculos erguidos.
6. Tem uma visão horizontal arrasadora quem vislumbra a verticalidade do infinito horizonte e assim prevê um caminho seguro e credível. Vulgares deputados ou mesmo eméritos senadores raramente a possuem. Existe antes nos sábios – não se exclui que um ou outro possa ser político. Este texto restringe-se à potencial verdade do presente. Não aspira a entrar na máquina do tempo vindouro, trabalho reservado à capacidade dos sábios, os humildes pensadores da verdade, sejam luzeiros lentes ou ignotos iletrados.
A.3. O estado supremo da democracia alcança-se com o poder da verdade.
7. A democracia forma a riqueza das nações, e a sustentabilidade desta riqueza é proporcional ao poder da verdade. (Convém sublinhar que a verdade é poderosa se se ativer exclusivamente ao bem comum.) Logo, o segredo frutuoso é descobrir a maneira de atingir a poderosa verdade. Atinge-se tão-somente com verdade, pelo que a verdade é simultaneamente causa e efeito de si mesma.
8. Até ao momento não se conseguiu inventar um instrumento que consiga mensurar o poder da verdade, de onde a sua escala de medição continuar a ser ditada pelo bom senso. Apenas está confirmado que, em democracia, a política multiplica a verdade e adiciona verdade à verdade, ao passo que a politiquice divide a verdade e subtrai mentira à verdade. Devido às operações aritméticas, a verdade na política é sempre superavitária, e na politiquice permanentemente deficitária.
A.4. A espécie homo veritas viabiliza o futuro das sociedades.
9. Dado o óbvio e abissal hiato entre a arte necessária da política e o passatempo contraproducente da politiquice, cumpre refletir sobre o papel do eleitorado na qualidade das democracias. A sabedoria do eleitorado reside na capacidade ou na exigência de escolher o grau dessa qualidade. As decisões de qualidade conjugam a liberdade com a verdade – liverdade. A atuação política sem liverdade desfigura-se, dando lugar à corriqueira politiquice.
10. O assunto resume-se portanto a uma questão de exercício eleitoral que incumbe aos cidadãos. Conscientemente ou não, eles repartem as suas opções pelos antagónicos polos da política e da politiquice ou, por outras palavas, encontram-se na dialética entre a lógica e a retórica. Haverá sempre política e politiquice, tal como nunca desaparecerá o bem e o mal, ou a virtude e o pecado, por serem pares inerentes à condição humana. O homo veritas dirige o seu procedimento para o bem e a virtude, enfim, para a verdade, a escol(h)a do futuro e o cume das democracias.
A.5. Os votos são anónimos mas não silenciosos.
11. Uma sociedade é governada por genuínos políticos ou por astutos politiqueiros consoante o honesto interesse d(a maioria d)os eleitores. A democracia é o único regime em que a chusma manda(rá) acima do escol. O gentio tem ampla liberdade para exercer tamanho poder; basta ousar dar-lhe o conveniente uso. Mas para isso tem de reivindicar a instauração da verdade e a debelação da mentira.
12. A reivindicação anónima encetada nas urnas será tanto mais estridente quanto maior o vício salutar de alguns eleitores pela liverdade. Os ecos da reivindicação propagam-se na afirmação da genuína política e no enterro da astuta politiquice. Só não reivindica quem pretende adormecer na mentira e não tenta compreender a verdade.
A.6. O espírito crítico sustenta a vontade.
13. A vontade encalha nos problemas; a verdade concede as soluções. As soluções brotam quando o comprimento que separa a vontade da verdade for inversamente proporcional à distância entre o Capitólio e a rocha Tarpeia. Apregoar e defender vontades politiqueiras que, apesar de democráticas, estropiam a democracia, constitui uma cilada, e por conseguinte quem a pratica não pode permanecer incólume perante o eleitorado.
14. Para enquadrar o presente post, apresenta-se de seguida um esboço acerca do fabrico da verdade, cujo desenvolvimento constará das subsequentes secções. Conforme se nota, não existe vontade válida – vontade transformada em verdade – sem espírito crítico(1).
14. Para enquadrar o presente post, apresenta-se de seguida um esboço acerca do fabrico da verdade, cujo desenvolvimento constará das subsequentes secções. Conforme se nota, não existe vontade válida – vontade transformada em verdade – sem espírito crítico(1).
(1) Note-se que o espírito crítico difere drasticamente da crítica. A última está associada à liberdade, ou seja, ao exercício do direito de manifestação de expressão. O primeiro espelha a liverdade, isto é, a responsabilidade pelo exercício da liberdade de pensamento – claramente superior ao simples direito de manifestação de expressão. A crítica está para a opinião, assim como o espírito crítico está para a reflexão.
A este propósito, recuperem-se os dois primeiros parágrafos do documento anexo ao post «Humildade para entender o futuro da democracia», de dezembro de 2013. Salientou-se que «Cada ordenamento político tem o seu ADN, desde logo porque da mera crítica ao espírito crítico dista uma vastidão. A crítica espontânea e não fundamentada é fácil, e por isso nada acrescenta. A crítica que, embora não seja tão linear como a anterior, aborda sofisticamente a realidade – uma parte da verdade é analisada de maneira séria e a outra é omitida ou tratada de modo deturpado – também não vale muito.»
No segundo parágrafo acrescentou-se que «O futuro exige ser livre e aberto. Ora, a crítica espontânea e não fundamentada engana-o, enquanto a sofística o encana. O futuro obtém-se essencialmente com espírito crítico, o símbolo do auge democrático. É desmesuradamente mais difícil do que a crítica, pois requer trabalho e organização. No fundo ele consiste na crítica construtiva, resultante da complexa articulação entre crítica, verdade, razão e sensatez.»
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