segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
quarta-feira, 14 de abril de 2021
António Mello Corrêa… com «o nome de saudade»
António
Mello Corrêa… com «o nome de Saudade» (#)
António Vasco Ahrens Teixeira de Mello Corrêa, conhecido
no meio fadista por António Mello Corrêa, nasceu em 25 de maio de 1944 em
Lisboa, na então freguesia de Santos‑o‑Velho. Com o seu estilo inconfundível,
gravou 38 temas diferentes. Faleceu, na mesma freguesia, em 1982, no Dia de
Todos os Santos; com 38 anos de idade e há 38 anos de saudade.
Das tertúlias fadistas à ida para
África
Manifestaram‑se‑lhe desde cedo o gosto e a vocação
fadistas, ou a sua mãe, Paulina Pombo Teixeira (Paneca, como era tratada pela
vizinhança), não cantasse lindamente o fado. «De Pequeno Sou Fadista», um poema
escrito por Maria Manuel Cid, explica tal gosto e vocação: «O fado não me perdeu
/ Nem tão pouco o encontrei / Pois não é mérito meu / Foi condão que Deus me
deu / E que nunca o procurei». Em síntese: «Nasci para ser fadista» – último
verso do fado.
Sendo ele apaixonado pelo fado, amigo de conversar, bom
ouvinte, bem‑disposto e educado, reunia‑se habitualmente em tertúlias com
pessoas de igual jaez, onde dominavam as relações recíprocas de apreço e
generosidade. As primeiras fadistices remontam à adolescência e aos contactos
com os fadistas que viviam no mesmo bairro, a Madragoa.
Os primeiros a acompanharem‑no nas tertúlias fadistas
foram os amadores Carlos Pinto da Rocha, à guitarra, e José Carlos da Maia, à
viola, numa altura em que a versatilidade da sua voz ainda não tinha sido
cabalmente identificada. A primeira pessoa que tirou os tons de António Mello
Corrêa foi o músico Luís Barros, que sabia tocar quer viola, quer guitarra. Na
foto da página 27, tirada em 1965, o fadista está acompanhado pelos amadores Luís
Barros, à viola, e João Azevedo Neves, à guitarra.
A partir de 1965 as fadistices expandiram‑se para o
Ribatejo. Passaram a ser regulares os encontros na Golegã, em casa dos avós
maternos do seu vizinho da mesma idade e amigo de infância Eduardo Vantacich
(Chipá). Aí reuniam‑se algumas pessoas que iam conviver e saborear um bom fado
marialva. O mesmo carro do amigo transportava habitualmente também o
guitarrista João Torre do Valle (Zina), o violista José Carlos da Maia e José
Pracana (que nessa altura ainda andava a aprender a tocar guitarra, recebendo
as primeiras lições de Carlos Pinto da Rocha).
As tertúlias na Golegã deram brado, e rapidamente a fama
contagiou os apaixonados da região que, levando à prática a norma «o amigo do
meu amigo, meu amigo é», começaram a organizar tertúlias fadistas na contígua
Chamusca. A primeira anfitriã foi a poetisa Maria Manuel Cid, que reuniu um
grupo extenso de amigos do fado no «celeiro» da sua casa – um armazém
de razoável dimensão (onde eram guardados os mantimentos e os instrumentos
agrícolas) que, depois de devidamente limpo, arrumado e coberto com mantas,
estava preparado para erguer tertúlias. Para além de António Mello Corrêa, Zina,
José Carlos da Maia e José Pracana, do grupo faziam parte Maria Teresa
Cavazzini – irmã da anfitriã –, Teresa Tarouca, Manuel Andrade, Carlos
Guedes de Amorim, João Ferreira‑Rosa, Fontes Rocha, entre outras
personalidades.
Mais tarde, diversas vezes as tertúlias instalaram‑se no
«celeiro» da Herdade Isidro dos Reis. Mercês da Cunha Rêgo, Teresa Silva
Carvalho, Carlos Zel, Joaquim do Vale (Covinhas) foram também assíduos frequentadores
de tais encontros. Nalgumas ocasiões realizaram‑se na mesma herdade sessões de
fado com o intuito de angariar fundos para fins de solidariedade.
António Mello Corrêa estava sempre pronto para dar o seu
fado às boas causas, nomeadamente em benefício de associações de bombeiros.
Diversas vezes os bombeiros da Golegã e da Chamusca pediram‑lhe para atuar.
Fruto das boas companhias desde a adolescência, ele entendeu
que deveria pôr em prática o seu instinto: começar a cantar em público, mas sem
os pais saberem. Fê‑lo numa taberna que ficava mesmo ao pé da sua
casa – a Taberna Ideal, cujas instalações deram lugar, pouco depois,
ao religioso Solar da Madragoa, na Rua das Trinas (nº 67). Quando havia noites
de fado, era afixada na porta, para atrair clientes, o elenco da casa. Deste
fazia parte António Roque, o nome artístico usado por António Mello Corrêa,
para que os pais – mais concretamente o seu pai, José Corrêa de Mello
(Dom José, assim era tratado, pois vinha de uma família titular) – não
o descobrissem quando passassem à frente da porta. Porém, foi disfarce de breve
dura, terminada com uma valente descompostura pregada pelo seu pai ao
Bettencourt, um dos sócios da taberna. Os colarinhos de Bettencourt sentiram a ira
de José, e os ouvidos registaram duras palavras proferidas por quem jamais
queria ver o seu querido filho no antro pecaminoso do fado.
A vontade do jovem fadista venceu a austeridade do pai. A
resposta, célere e especial, foi dada em dois planos e em duas fases. Em
primeiro lugar, e imediatamente para deixar claro o agradecimento pela
oportunidade dada pelos bons amigos Jorge e Bettencourt – os donos da
taberna – e, do lado oposto, condenar a atitude austera do seu pai,
António Mello Corrêa não só continuou a cantar na Taberna Ideal, como atuou
regularmente no subsequente e afamado Solar da Madragoa, do qual fazia parte,
por exemplo, o fadista António Rocha.
Posteriormente, e em segundo lugar, António Mello Corrêa
pediu reforços às suas fiéis companhias das tertúlias ribatejanas acima
identificadas. Assim, em meados dos anos 60 a conceituada etiqueta Philips
editou um EP, em que António Mello Corrêa cantou fados escritos por Maria
Manuel Cid – autora de três dos quatro temas – e por Manuel
Andrade – da mesma idade que o fadista, e que fatalmente morreu pouco
depois, em 1966. Neste vinil o acompanhamento musical esteve a cargo do
prestigiado Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Tratou‑se dos primeiros temas
criados pelo fadista.
O disco viria a marcar decisivamente o trajeto do jovem
António Mello Corrêa no mundo do fado; representou em simultâneo a sua
fidelidade ao fado rigoroso e a criação de um estilo peculiar. Portanto, para
além de ter sido o seu primeiro EP, revelou‑se o disco de afirmação logo ao
início da carreira, a qual foi compreensivelmente interrompida devido ao
cumprimento do serviço militar obrigatório, que já não podia ser mais adiado
(ou melhor: atrasado, como se explica de seguida).
António Mello Corrêa teve duas passagens pelo serviço
militar. A primeira foi quando se inscreveu como voluntário para a Força Aérea.
Não passou de uma mera intenção, porquanto desistiu do recrutamento para o
ingresso nesse ramo das Forças Armadas. O bicho pelo fado foi certamente um dos
grandes responsáveis por tal desistência.
A segunda passagem foi, pelo contrário, bem efetiva e
duradoura: 44 meses. Porque desistira do recrutamento para o qual tinha
concorrido voluntariamente e porque, já com quase 22 anos de idade, ainda não
fora chamado para a tropa, os amigos aconselharam‑no a tomar a iniciativa de se
alistar para cumprir o serviço militar obrigatório, evitando assim que viesse a
ser considerado refratário.
Em maio de 1966 integrou o Exército, tendo o atraso sido
pago com juros elevados. Primeiro, assentou praça em Santarém. Findos os meses
de recruta, foi destacado para Tavira, para o curso de sargentos milicianos. A
sua grande motivação era o fado, e não a tropa. Por conseguinte, é normal que
tenha obtido uma classificação baixa no curso, de onde ter sido “deportado”
para a ilha da Madeira, para formar uma unidade composta essencialmente por
corrécios. Rodeado pelo mar e separado do fado, foi então destacado para a
Guerra Colonial. Em 6 de agosto de 1967, a “sua” Companhia de Caçadores nº 1739
(bem como a Companhia de Caçadores nº 1740, ambas mobilizadas pelo Batalhão
Independente de Infantaria do Funchal) embarcou no Navio de Transporte de
Tropas «Vera Cruz» (que saíra de Lisboa no dia anterior com outras Companhias).
Chegada a Luanda, a Companhia seguiu para Cabinda, cuja missão terminou somente
no final de 1969.
Longe da sua Lisboa, durante a guerra ultramarina no
Congo Português (vulgo Cabinda), as veias do fado engrossavam‑se
incontidamente. Se para muitos militares o longo período em que estiveram
retidos na floresta de Maiombe aumentou‑lhes a saudade da terra natal e a
angústia do amanhã incerto, para o miliciano António Mello Corrêa serviu para
consolidar duas qualidades pessoais: o supremo espírito de camaradagem e a
inata alma fadista. Aproximando-se a hora da partida para a terra do fado, ele
quis recordar a sua passagem por Cabinda, levando na bagagem um dos residentes
do mar verde de Maiombe: uma pequena macaca (que depois teve de mudar de
residência, da Madragoa para o Jardim Zoológico de Lisboa).
Desde a consolidação da
profissionalização até ao pós‑25 de Abril
Logo após o regresso à Metrópole, em janeiro de 1970,
nele ficou mais do que decidida a direção ansiada para o seu futuro: o fado. A
partir de então, estava empenhado em recuperar depressa os cerca de três anos
afastados da sua querida Lisboa e do seu amado fado. Jamais o próprio
imaginaria – porque ninguém imaginaria sequer – que iria
ser uma década frenética e ditosa, repleta de êxitos e de projetos.
Ele enraizou‑se definitivamente nos circuitos fadistas,
até porque o disco atrás citado, editado antes de ir para a tropa, resultara
num dourado cartão de visita. Não admira por isso que, quando veio de África,
tenha sido convidado para cantar em casas de fado de referência. Por
conseguinte, foi contratado para pertencer ao elenco da reputadíssima Taverna
do Embuçado, em Alfama, encabeçada por João Ferreira‑Rosa – um dos
elementos das saudosas tertúlias na Chamusca –, fadista que fundara, com o
esteio do abastadíssimo casal João Santiago (João Jorge Santiago Corte‑Real,
proprietário do Palácio de Santa Catarina) e Manuela Cintra, esse restaurante
de luxo no final de 1965. Contava no seu elenco com músicos de elevada
craveira, designadamente Fontes Rocha e Pedro Leal.
Os amigos do passado solicitavam‑no e ele respondia positivamente
com a sinceridade que sempre o caracterizou. O velho companheiro das tertúlias
José Pracana, que era então um dos sócios do Arreda Bar, em Cascais, pôde
contar com António Mello Corrêa no elenco.
Ao mesmo tempo que António Mello Corrêa (en)cantava nas
casas de fado, ia gravando em estúdio. Assim, foram editados mais discos. Da
dúzia de fados contidos nos três EP posteriores, editados igualmente pela
Philips, cinco foram escritos por Maria Manuel Cid e dois por Manuel Andrade.
No primeiro dos três discos, outrossim composto só por criações do fadista, foi
acompanhado pelo Conjunto de Guitarras de Jorge Fontes; no segundo pelo
quarteto de músicos composto por Raul Nery, António Chainho, José Maria Nóbrega
e Joel Pina; e no terceiro por três destes músicos e também por Pedro Leal, em
substituição de José Maria Nóbrega. Em seguida tal trio de EP originou o
primeiro LP do fadista (já consagrado), editado pela etiqueta Fontana.
António Mello Corrêa não parava de cantar e encantar, de
rezar o fado, e até – como constitui apanágio de quem é ousado e se
distingue face a indivíduos do seu tempo – de idealizar. Sonhava
entregar‑se a um espaço exclusivamente seu, onde pudesse partilhar com os
amigos e os exigentes apreciadores da sua arte um fado servido em dois tons: o
clássico e o castiço. Imaginava que o fado deveria galgar os cânones das
tradicionais e conceituadas casas típicas.
Afora o desejo de ter um negócio próprio, na linha da
continuidade foi editado um novo EP. A edição coube à etiqueta
Estudio – propriedade do reconhecido empresário discográfico de fado
Emílio Mateus –, e contou com um quarteto de músicos formado por Fontes
Rocha, Carlos Gonçalves, Pedro Leal e Joel Pina. O disco continha uma criação
que se tornou num dos grandes êxitos de António Mello Corrêa: «Tourito Negro»,
um fado escrito pela amiga Mimela Cid (Maria Manuel Cid) – o nono e
último entregue ao seu querido amigo – e composto pelo sumo
compositor Fontes Rocha – o compositor dos três fados ditos musicados
criados por António Mello Corrêa. A era pujante de Maria Manuel Cid sofreu um
repentino revés com o 25 de Abril, pois a brisa radicalizou‑se.
Em pouco tempo, António Mello Corrêa respondeu aos novos
ares com um EP, igualmente editado pela Estudio. Nele atingiu três objetivos:
chamou a si dois poemas escritos pelo falecido amigo Manuel Andrade – também
os últimos da autoria deste gravados pelo fadista, um dos quais foi repetido, o
«Mãos Abertas» –; trouxe para o julgamento do disco o «Maldito Fado», escrito
por Pedro Bandeira e Álvaro Leal, criado por Alberto Reis e popularizado na
interpretação de Hermínia Silva; e apresentou um fado com um nome sugestivo, «Canção
de Abril», escrito pelo monárquico e conservador João Ferreira‑Rosa.
Responderam à chamada os músicos profissionais Fontes Rocha, Pedro Leal e Joel
Pina, totalmente indiferentes ao novo clima político, e convictamente
consistentes com o respeito da amizade que nutriam por António Mello Corrêa.
Com o movimento do 25 de Abril, e após tanto ter sonhado
e imaginado, finalmente tornava‑se imperioso que as ideias de António Mello
Corrêa parassem de levitar. Não pretendendo ele que ficassem enterradas na
memória, fê‑las pousar na realidade. De facto, a instabilidade vivida na
Taverna do Embuçado – negócio até então orientado para uma clientela
de elite prestes a perder peso na sociedade –, por um lado, e a
consequente intenção de João Ferreira‑Rosa encerrar as portas desse restaurante
de prestígio, por outro, originaram o êxodo de boa parte dos intérpretes,
levando o restante elenco e os demais trabalhadores ao cenário da autogestão
para evitar o desemprego generalizado.
O futuro no modo indefinido foi o rastilho para António
Mello Corrêa pôr em prática o seu pensamento há muito enraizado: a criação de
uma popular taberna de fado, apadrinhada pelo simpático casal do vinho e da
amizade. Muito provavelmente pensou que teria de construir um sítio próprio,
singelo mas singular, que fosse consagrado pela voz do povo que apregoava(ra) «Oiça
lá, ó Senhor Vinho!», um êxito de Amália Rodrigues. Tenha‑se presente que em
1971 a etiqueta Columbia editou um EP de Amália intitulado por «Oiça Lá Ó
Senhor Vinho», o nome do primeiro fado do lado A, escrito e composto por
Alberto Janes.
Fundação do Sr. Vinho e novo
impulso discográfico
Estava à vista o resultado final: abrir uma tasca que
servisse fado como prato principal. Decisão tomada. Faltava dar o nome ao
produto final. Para poder batizar, em consciência, o futuro retiro de fado, fez
questão de se dirigir à residência de Amália Rodrigues, de modo a transmitir‑lhe
a sua ideia e pedir‑lhe autorização para utilizar o êxito de Alberto Janes
colocado na voz da diva: «Senhor Vinho». António Mello Corrêa não quis ir
sozinho e por isso levou consigo o velho amigo Chipá, segundo o qual Amália
Rodrigues, a meio da conversa, proferiu‑lhe a seguinte frase: «Eu gosto tanto
do menino!» Portanto, não admira que ela tenha concordado imediata e
incondicionalmente com a ideia do fadista.
António Mello Corrêa lançou‑se com uma coragem desmedida,
decidindo adquirir uma loja de taberna e carvoaria, de um lado, e mercearia, do
outro – mas integradas no mesmo local –, que havia no seu bairro
de sempre, o da Madragoa, sita no cruzamento da Rua das Praças (nº 18) com a Rua
das Trinas. Ciente de que não é só nas afamadas catedrais que se reza o fado
com genuinidade, quis converter a vulgar tasca de comes e bebes num santuário
diferente, onde pudesse distribuir a sua devota sensibilidade com a humilde
gente apreciadora do fado.
Porém, a paixão infinita pela sua honesta ideia
democrática e altruísta – mas nascida e criada antes da Revolução dos
Cravos, sublinhe‑se –, a de abrir o fado ao povo, não condizia com o dia a
dia nem com a razão financeira. O povo afastara‑se do fado; gostava de fado,
mas tinha pudor, ou inclusivamente receio, em exprimir o seu verdadeiro
sentimento.
O projeto Sr. Vinho não passaria, da forma emotiva como o
seu autor desenhara, de um empreendedorismo amador erguido por um fadista
profissional. Cedo constatou que para o projeto prosseguir em segurança não
bastava a salutar vontade, quase abnegada, de ele repartir o seu espírito
fadista com os amantes do fado. Para o negócio poder avançar sem a certeza do
risco de queda, importava que fosse sustentável, desde logo e acima de tudo sob
o ponto de vista dos cifrões. Por outras palavras: para além da ousadia do
projeto não ter o apoio da conjuntura sociopolítica do pós‑25 de
Abril – por o fado ter sido um pouco abandonado ou mesmo ostracizado,
em geral, e por António Mello Corrêa ter estado muito associado ao fado
marialva, alusivo a imagens tauromáquicas ou até aristocráticas, em
particular –, seria preciso um músculo monetário que transformasse o
espaço num adequado retiro de fado.
Perante a necessidade de dispor de um suporte
endinheirado para o Sr. Vinho, imediatamente o fadista‑mentor não hesitou em
partilhar a propriedade do seu projeto. Assim, em julho de 1975, após goradas
algumas tentativas para conseguir um sócio com suficiente arcabouço financeiro,
encontrou por fim um casal que pôde associar‑se à sua ideia. Os sócios com quem
ele dividiu paritariamente o seu projeto pessoal trouxeram não só a capacidade
empresarial (e de investimento), como também o fulgor artístico, transformando
ao longo do tempo o local numa casa típica de fado de referência. Tais sócios
foram José Luís Gordo e a sua mulher (a fadista Maria da Fé, que na altura
trabalhava n’A Parreirinha de Alfama).
Apesar de nessa época o fado não estar bem conotado
perante a opinião pública, a simpatia do Sr. Vinho foi muito bem acolhida nos
meandros, ao ponto de se deparar com a falta de espaço para colocar mais mesas.
Inúmeros clientes tinham de voltar noutro dia para poderem ouvir o bom fado,
encabeçado por António Mello Corrêa. O Sr. Vinho teve portanto de crescer em
área, com a deslocação física, em 1981, para um local perto, a poucas dezenas
de metros, em concreto para o cruzamento da Rua do Meio à Lapa (nº 18) com a
Rua das Praças – onde atualmente se encontra –, após a aquisição
de uma padaria industrial ali existente que estava desativada.
Desde a sua criação, em 1975, até à altura em que a
icónica Maria da Fé se mudou em definitivo para o novo espaço, tornando‑se a
cabeça de cartaz, o elenco era igualmente de peso, tendo contado com a
presença, entre outros artistas, dos fadistas Filipe Duarte, Maria do Céu
(Licas) – a primeira fadista residente, cunhada de Filipe
Duarte – e Maria da Nazaré, e do guitarrista Fontes Rocha (que desde
a primeira hora do Sr. Vinho esteve ao lado de António Mello Corrêa, e desse
modo virou uma página dourada da sua carreira, pondo termo a uma dúzia de anos,
de 1962 a 1974, a acompanhar Amália Rodrigues pelos vários cantos do Mundo). Ao
início o outro músico do Sr. Vinho foi o violista Manuel Martins, que em 1977 deu
o lugar a Pedro Leal (ex‑colega de Fontes Rocha na Taverna do Embuçado, e que também
decidiu deixar de fazer parte do grupo de músicos fixos ao serviço de Amália
Rodrigues).
Constituiria uma lacuna falar no novo Sr. Vinho sem
mencionar uma pessoa que foi praticamente sempre o gerente da casa: Carlos
Pinto. Aliás, depois da morte de António Mello Corrêa, foi‑lhe concedida, por
José Luís Gordo e Maria da Fé, uma parte das quotas da empresa.
Para reforçar a sua imagem, a do (antigo) Sr. Vinho e a
do fado, António Mello Corrêa lançou um novo EP, e mais tarde um LP, também
editados pela Estudio. Desses dois vinis, o primeiro deu para ele subir a
fasquia e simultaneamente continuar a afirmar‑se. Com os mesmos músicos do EP precedente – Fontes
Rocha, Pedro Leal e Joel Pina –, o fadista, ao seu jeito, pretendeu
atingir vários fins: consolidar o famigerado tema «Senhor Vinho», criado por
Amália Rodrigues – e aproveitado para dar o nome à sua idealizada
casa de fado, conforme atrás referido –; identificar‑se com a «Ovelha
Negra», de João Dias, uma criação de Beatriz da Conceição ou de José Manuel
Osório; e vincar a ligação ao passado algo anacrónico e politicamente
desfavorável, reafirmando a sua paixão pelo espírito tauromáquico, trazendo à
memória o conhecido «Fado das Touradas» – ou «O Simão Contra o Caraça» –,
escrito por Luís Galhardo e criado por Hermínia Silva.
Todavia, os maus ventos para o fado eram mais fortes do
que os bons intentos do fadista. Mas não desistiu. Foi então editado o seu
segundo LP, uma compilação que resultou dos três EP anteriores. Bem tentou,
porém em vão, contornar a imagem do público em relação ao fado, alterando o
título da «Canção de Abril» acima citada por um nome ainda mais sugestivo e
universal: «Fraternidade».
Volvidos escassos anos, em 1979, gravou o seu terceiro
LP, editado pela EMI, acompanhado musicalmente por Fontes Rocha, José Luís
Nobre Costa, Pedro Leal e Joel Pina. Tratou‑se de um vinil com três fados
escritos pelo seu sócio José Luís Gordo – o poeta Luís
Alcaria –, um dos quais foi «Quentes e Boas», que intitulou o disco (mercê
do êxito alcançado por «O Homem das Castanhas», um tema editado dois anos
antes, escrito por Ary dos Santos para a voz de Carlos do Carmo). O vinil
integrou outrossim o tema que fora incluído no EP do início de carreira e
posteriormente regravado pelo fadista: «Mãos Abertas». E conteve ainda «Tinha o
Nome de Saudade», escrito por João de Freitas.
Balanço da carreira
António Mello Corrêa, dono de um espírito talentoso e de uma alma fervorosa,
viu ser‑lhe editada uma dezena de discos, repartida por 40 gravações originais – e
38 temas diferentes, em virtude de «Mãos Abertas» ter sido objeto de três
gravações, como explicitado: «Mãos abertas, mãos de dar (…) As minhas mãos são
assim». Dos 10, o primeiro foi em meados dos anos 60; os outros nove durante a
década de 70. O canto do cisne ocorreu em 1979.
Em anexo constam a capa e a contracapa das edições que
compõem a sua discografia, bem como o nome dos fados, com a respetiva
identificação (corrigida, se necessária) dos autores das letras e das músicas,
e ainda com a indicação dos temas criados por António Mello Corrêa. Ser o
criador de mais de metade do seu repertório – 21 em 38 – demonstra
a singularidade do fadista, e explica o motivo de ele, não obstante a curta
carreira, estar ligado a diversos êxitos populares e residir num destacado
lugar da História do Fado.
Depois de uma vida recheada de intensidade e entrega à
causa fadista, a morte prematura chegou em 1 de novembro de 1982, ceifando uma
carreira proficuamente promissora que o fado tanto agradeceria. Quis a
desventura que a sua voz fosse assassinada súbita e tragicamente aos 38 anos,
numa zona de Lisboa perto da que o viu nascer. Nasceu, cresceu, viveu em
Santos, onde morreu no Dia de Todos os Santos.
Privilegiado pela Natureza ou por algo supremo, que lhe
atribuiu, do princípio da palavra ao infinito do sentimento, uma aptidão vocal
invulgar, António Mello Corrêa é um dos apóstolos proeminentes do fado. Dotado
de um lindíssimo timbre e de uma inexcedível afinação, possuía uma
amplitude de voz que lhe facultava inteiro à‑vontade, fosse nas notas graves,
nas médias ou nas agudas. Foi com esse excecional dom que ele deu corpo a toda
a enorme emoção fadista que morava na sua alma.
Antes de terminar este texto, importa colocar uma
questão: o que seria do fado se o destino de António Mello Corrêa tivesse
permitido uma vida maior? Basta ter em consideração que quando o decano Alfredo
Marceneiro, no cimo da sua experiência (e não menos exigência), conheceu
António Mello Corrêa (que tinha tanto de talento como de educação), abriu‑lhe
de imediato o seu coração, como que esta abertura constituísse um salvo‑conduto
para o jovem fadista entrar em qualquer casa de fado. A estreita amizade entre
as duas gerações justificará em parte o facto de «Mãos Abertas», sempre cantado
no Fado Bailado – da autoria de Alfredo Marceneiro –, ter sido o
único a ser gravado mais do que uma vez, do princípio ao fim da obra artística
de António Mello Corrêa. A foto da página 28 é um exemplo do carinho que havia
entre os dois fadistas.
Se bem que ele tenha sido, depois do falecimento,
incompreensivelmente esquecido, de modo geral, pelas pessoas que vivem do fado,
para o povo a tinta da saudade do seu fado dura há 38 anos, e continuará a
permanecer indelével. A homenagem póstuma que lhe foi prestada, em maio de
1994, no exato dia do seu quinquagésimo aniversário, cuja comissão de honra foi
composta por Amália Rodrigues, Maria Manuel Cid e Victor Feytor Pinto (página
33), consistiu num digníssimo exemplo de um oásis no esquecimento.
É por isso nossa obrigação perpetuar o legado de António
Mello Corrêa. Até agora, muito pouco se sabia da vida e da obra desta
indiscutível personalidade do fado. Tal como o fadista, sentimos uma ingente
saudade roubada – «Ardem flores sobre o peito / De uma criança
enganada / E um amor insatisfeito / Arde no seio perfeito / De uma saudade
roubada» (versos do poeta desconhecido João Rosa, em «Ardem Teus Olhos
Mulher»).
Pelo exposto no presente documento, confirma‑se que ele foi
um criador que vive e viverá sempre… com o nome de SAUDADE.
Lisboa, 1 de novembro de 2020
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Jorge Carriço |
Nuno de Siqueira |
Vítor de Araújo |
(#) O trabalho em apreço foi realizado por Jorge Carriço, Nuno de Siqueira e Vítor de Araújo, e contou com os amáveis e indispensáveis contributos de Celestino Pinto, Eduardo Carinhas, Eduardo Vantacich (Chipá), Fernando Batista, João Azevedo Neves, Mário Rainho e Valdemar Duarte (Marceneiro).
Registo discográfico, por ordem
cronológica
1 – Cavalo Baio *
2 – Minhas Mãos *
3 – Tempos d’Outrora *
4 – Braços da Cruz *
5 – O Meu Viver *
6 – Toiradas *
7 – De Pequeno Sou Fadista *
8 – O Rouxinol da Caneira *
9 – Fado Marialva
10 – Nova Tendinha
11 – Dia de São Martinho *
12 – Fadistas do Passado
13 – Galgo de Corrida *
14 – Pranto nos Teus Olhos *
15 – A Minha Rua
16 – É Noite para Mim *
17 – Cheira a Lisboa
18 – Minha Mãe *
19 – Tamanquinhas
20 – Tourito Negro *
21 – Fado Maldito
22 – Canção de Abril *
23 – Paredes de Caliça
24 – Ovelha Negra
25 – Senhor Vinho
26 – Simão Contra o Caraça
27 – Lisboa
28 – Quentes e Boas *
29 – Mataram a Mouraria
30 – Tinha o Nome de Saudade *
31 – O Amor É Louco
32 – Sol Poente
33 – Palminho de Cara Linda *
34 – Apregoando Cautelas *
35 – Levaste Saudades Minhas *
36 – Cavalo Ruço
37 – Ardem Teus Olhos Mulher *
38 – Fado do 31
* Criação de António Mello Corrêa
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
Tribunais… – Cartas de notificação das testemunhas e alterações dos julgamentos
Eis uma situação desagradável que porventura
ainda persiste – pelo menos existia até há poucos anos – e
que em nada contribui para a boa imagem da justiça, devendo como tal ser
evitada, a favor do salutar relacionamento entre os tribunais e os cidadãos. Refiro-me em concreto às cartas
de notificação que as testemunhas recebem para comparecer em tribunal, cujo teor é agravadamente
mal aceite quando as respetivas notificações vêm posteriormente “acompanhadas”
com alterações súbitas das datas de julgamento.
Provavelmente é estandardizado o texto enviado
pelos tribunais às testemunhas. Após a devida análise do mesmo, constata‑se que
denota nítidos traços de falta de delicadeza. Atenda-se a dois exemplos de
expressões dele extraídas: «se a testemunha não se apresentar» e «o faltoso». O
primeiro exemplo é intimidatório e o segundo acusatório.
Somente falta qualificar
de criminoso o faltoso, i.e., a
testemunha que não se apresente em tribunal. Por certo o autor do texto conseguiria,
sem grande esforço adicional, encontrar uma redação alternativa que, sendo
igualmente assertiva e com um cunho de cumprimento obrigatório, transpirasse um
menor grau de arrogância. Não beliscaria o poder da justiça; pelo contrário,
elevaria o seu crédito perante os destinatários.
Conforme realçado ao princípio deste verbete, a abordagem refletida
nas cartas de notificação das testemunhas
não abona a favor quer da justiça, quer do respeito que os cidadãos devem nela
depositar. Como se isto não fosse suficiente para desapreciar o papel do
sistema judicial, há a agravante de ele ser – ou ter sido – pouco
competente em termos de organização.
De facto, no caso que
motivou o post em apreço, as pessoas
envolvidas no processo de julgamento, incluindo as testemunhas, foram
convocadas para estarem presentes num determinado dia, às 11 horas. Ora, cerca
de duas horas antes da hora e do dia (há muito) previstos para o início do
julgamento, elas foram informadas, telefónica e educadamente, por um
funcionário do tribunal com um novo elemento: afinal o julgamento não seria
realizado nesse dia, mas sim no dia seguinte – mas à mesma hora!
Tanto zelo do funcionário para tamanha e lamentável falta de competência do tribunal.
Os cidadãos, para marcarem a presença na audiência e
participarem no julgamento, tiveram de (re)programar os seus compromissos, em
nome da suprema justiça. Ainda bem que é assim, em conformidade com os
parâmetros exigidos a um sistema de justiça democrático e profissional. Mal é o
amadorismo evidente da altaneira justiça, que decidiu nos últimos momentos e
com o aviso de apenas um par de horas, mudar unilateralmente a data, sem ter
manifestado a mínima humildade para pedir desculpa pelo incómodo causado, nem
tão‑pouco dar qualquer explicação sobre a infeliz bizarria.
Erros todos cometem.
Porém, não só o limite de tolerância ao erro deve ser mais reduzido nos
tribunais – pelo menos que acertem nas datas dos julgamentos –,
como é menos aceitável quando tais instituições judiciais que cometem erros
invulgares e crassos são arrogantes no modo como convocam as testemunhas.
A justiça daquele tribunal demonstrou estar acima das normas de conduta e da consideração pelos cidadãos. Será um desejo ambicioso implorar a revisão – para o caso de ainda não ter sido realizada – da redação das cartas de notificação das testemunhas?
domingo, 8 de novembro de 2020
Do catraio resistente ao adolescente falhado – Afundar ou recuperar?
Mudança de idade
O pico da crise de identidade do rapaz verificou‑se no final de junho
deste ano. Foi como se ele tivesse assistido ao auge de uma guerra civil. Ficou
gravemente ferido e com diversas fraturas expostas. A recuperação exigirá, no
mínimo, um longo período, se tudo correr pelo melhor, i.e., num cenário assaz otimista.
As guerras são quase sempre desnecessárias. Pior que isso: pela parte
de quem defende a justeza da sua causa, as guerras aumentam as chagas que, já
de si, seriam dificilmente saradas. O maior problema das guerras nem reside
tanto em começá‑las, mas sim na incapacidade de as acabar ou até de fazer diminuí‑las
de intensidade.
Quando uma guerra é deixada ao sabor da sua força irada, pode haver
ganhadores, mas por certo todos saem perdedores. O moço perdeu, bastante mais
do que o conjunto dos seus apoiantes de visões antagónicas.
Há 15 anos
«Se não interviermos e desistirmos, falhamos», eis o lema do petiz,
cujo registo oficial remonta a 31 de julho de 2006. Não obstante, ele já
existia 265 dias antes da data em que o seu nascimento foi lavrado. Há
precisamente 15 anos, em 8 de novembro de 2005, celebrou‑se a sua vinda ao
mundo, anunciada através da criação de um blogue.
Década e meia constitui tempo suficiente para proceder a um balanço. E
tem tanto que contar. O quadro acima apresentado é autoexplicativo, e justifica
o título atribuído ao presente post.
Outrora um catraio resistente; ora um adolescente falhado; e o futuro?
Conforme se comprova, a vida do rapaz de 15 anos conheceu quatro fases:
a primeira, até 2014; a segunda, entre 2015 e 2017; a terceira, compreendida
entre o início de 2018 e o final de junho de 2020; e a quarta, a partir de julho
de 2020. Sintetize‑se cada uma delas.
Fase do encanto
Até aos nove anos o miúdo era dinâmico e respirava esperança.
Bastantes membros adoravam‑no e incentivavam‑no, como sucede aliás quando se
lida com qualquer ser de tenra idade. Por ser adorado e incentivado ainda
quando usava fraldas, o pequeno sentia‑se sobredotado. Assim que começou a
proferir as primeiras palavras, apregoou publicamente, sem a mínima hesitação e
à guisa de convicção premonitória, que «desistir é falhar». O fim desta fase
vivaz da infância coincidiu com o lançamento de um livro: «Desistir É Falhar!»,
como se impunha.
Todavia, a etapa final da infância trouxe vincadas divergências internas.
Uns entendiam que, por mais tempo que decorresse, a idade da inocência tinha de
continuar; outros tantos defendiam que era o momento para o garoto deixar de
ser criança; e a restante maioria, profundamente resignada, não quis pronunciar‑se
sobre o rumo a seguir.
A divergência acentuada de opiniões entre os apoiantes ativos foi a
gota da divisão inicial que rachou a coesão em torno do puto. Houve quem,
porque já não estava muito encantado com o petiz arrogante, perdeu o resto do
encanto e despediu‑se dele à sorrelfa e sem chama; houve outrossim quem se
afastasse mediante a apresentação de uma honrada declaração de saída; houve
ainda quem o mantivesse animado, não obstante tratá‑lo como um rapazote e não
como um menino mimado.
Fase da incerteza
Tal como em tudo na vida, só faz falta quem está. Mas a vida reconhece
que há os que devem fazer falta e os que nunca deveriam fazer falta, ou seja, jamais
deveriam estar. Erros da vida, que recaíram sobre o cachopo. Como o quadro
denota, o contributo dos que deixaram de trabalhar para o garoto em
2014 – N e S – não foi minimamente compensado com o
resultado dos novos apoiantes entre 2015 e 2017 – T, U, V, W e X (mesmo
não tendo um destes qualquer laço familiar com o jovem), e outros cujo fruto se
traduziu, de forma exata e rigorosa, no blogue e no vazio à sua volta, em nada.
Saliente‑se que este comentário – acerca da comparação entre os que
saíram e os que entraram – apenas se cinge à atividade do blogue. A
realidade foi bem mais mordaz do que o blogue indicia.
A partir de 2015 o menino – para alguns – deixou
de ter carregadores de piano. Poderá parecer injusto usar esta designação
aparentemente pouco elogiosa para quem fazia o meritório papel de formiga no
seio gregário. Não é o objetivo. Basta trazer à colação a fábula da formiga
(cessante) e da cigarra (cantante e – após a saída da formiga – reinante).
Num ápice, a organização interna desapareceu por completo. Para além disso, urge
realçar que por mais firme que a abelha‑mestra se mantenha no cortiço, sem
obreiras não há fabrico de pingo de mel.
A confirmação da reconhecida importância dos carregadores de piano,
das formigas, das obreiras foi bem audível (e visível) em 2016. Até então não existira
um ano tão fraco em termos de atividade (excluído obviamente o ano inicial de
2005 que, conforme supra indicação, contou com somente quase dois meses de vida).
Depois do efeito estrondoso da substituição de formigas modestamente obreiras
por cigarras vaidosamente cantantes, em 2017 registou‑se uma tentativa de repor
o dinamismo do catraio. Foi o canto do cisne, que marcou o fim da segunda fase.
Porém, como se não fosse suficientemente péssimo o fim das formigas e o
consequente rumo incerto do pequeno coadjuvado por cigarras, havia que agravar
a sua vida ultradébil – debilidade advinda da circunstância de já serem
uma saudosa miragem quer os debates internos (seja à distância, mediante a
comunicação por e‑mail, seja
presencialmente, durante os encontros em jantares‑convívio), quer os eventos
externos.
Fase do declínio
Finda a segunda fase, foi emitido o certificado de agravamento da
debilidade permanente. Com efeito, se aquando do lançamento do livro a
divergência de opiniões abriu rachas, estas aumentaram logo no princípio de
2018. Fizeram com que a família se fosse desmembrando e o adolescente fosse
votado ao abandono (por todos, sem exceção).
A paz do miúdo implodiu nessa data devido à conjugação de dois efeitos
que minaram o seu funcionamento: rascunho e silêncio. A declinante e beligerante
fase do rascunho e do silêncio vigorou cerca de dois anos e meio. O blogue do jovem
abandonado passou a funcionar como um blogue pessoal de um dos seus apoiantes,
como se de um albergue espanhol se tratasse. Mais: funcionou como um blogue panfletário
de luta fraticida, impetuosamente crescente, emocionalmente incitada e
racionalmente justificada.
Durante a guerra impera a desordem. Foi a resposta natural à
desorganização interna, concretamente na área informática, e à sua couraça
formada pela liga feita à base de rascunho e silêncio. Nada funcionou: a
família institucional não interveio, o fórum de debates desistiu, e portanto a
reflexão económica e social falhou, ao invés do pregão do lema.
Nos tais dois anos e meio não existiu uma única tentativa para
reconhecer que rascunho e silêncio constituíam uma doença que se intensificava dia
a dia e podia levar ao descrédito e ao fim da família. Fracasso completo, pois
não houve a mínima prudência para estancar o problema quando este dera os
primeiros sinais. A cisão retumbou e conduziu ao inadiável desmoronamento no
final do primeiro semestre de 2020.
No caso em apreço tudo estava facilitado, ao contrário do que sucede
com certas doenças (como a tuberculose) que vão avançando sem serem logo ao
início diagnosticadas – e em que a manifestação dos seus primeiros sinais
(que permitem o diagnóstico) ocorre tardiamente, quando a doença já é
incurável. A doença estava perfeitamente diagnosticada; o insensato desleixo,
assente na crença de que o silêncio tudo resolve, impediu a cura a tempo. Em
suma: o mal do rascunho alastrou‑se… em silêncio, levando o cachopo à (pré‑)ruína.
Fase do renascimento?
Como se não bastasse a – há muito anunciada – implosão
da paz da fase do declínio, em 28 de junho de 2020 registou‑se a fatal explosão
da guerra, com a irremediável publicação do post
«Mais uma enigmática… marosca informática». A explosão da bomba estava
involuntariamente programada; era e foi inevitável, ante o statu quo da informática. Rebentou com toda a área ao redor, desde
o plácido carnívoro acéfalo até à extensa fauna servil que o alimenta(va). Tratou‑se
de uma espécie de salutar explosão pírrica, como o supramencionado quadro demonstra.
O tempo não volta atrás e felizmente não apaga o passado. Os factos estão
consumadas e as consequências quase homologadas. A criança pomposa que inflava,
bradando que «desistir é falhar» (ou «Desistir É Falhar!»), hoje não passa de um
adolescente falhado, deprimido, resignado, calado, só.
Agora munido de elementos que lhe permitem estar porventura mais cabalmente
esclarecido, ele pretende saber tão‑só se a crise de identidade é para
continuar por diversos anos, ou se ainda é possível tentar recuperar destroços
mesmo sabendo que nada será como antes. Pior do que os recentes destroços
profundos, que levam muito tempo a cicatrizar, são as frias cinzas inertes, que
não conseguem renascer.
Depois da tempestade vem a bonança. A guerra civil não foi assim tão
negativa. Se nada tivesse sido feito, o puto inválido entraria numa subfase, em
que a debilidade permanente por certo daria lugar à morte confirmada. Haja um
sentimento positivo, porquanto ninguém gosta de pensar no outono quando existem
apenas 15 primaveras. Eis a dificuldade do futuro recuperado, ou então unicamente
a simples memória de mais um passado afundado.
P.S. – O grosso da análise aqui constante,
designadamente no tocante às fases do encanto, da incerteza e do declínio, foi
efetuado há meio ano, pouco após a publicação, em 25 de abril de 2020, do
verbete «Fresbook e não Facebook do FRES». O fim da fase do declínio levou impreterivelmente
à necessidade de proceder a ajustes no texto. Os outros ajustes virão – ou
poderão vir – na próxima oportunidade de debates presenciais, quando
o moço se sentir revigorado e tiver as hormonas da puberdade algo recompostas, momento
esperado – ou desejado – para breve. Haja fé na sua recuperação.
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