sábado, 4 de julho de 2020

Entre o Tejo e o Luali

Entre o Tejo e o Luali (24/05/2018)


























Brevemente perto de si, ou provavelmente mais longe, pois desta vez, em virtude da aplicação de critérios objetivos mais rígidos, apenas 108 (de 356) bibliotecas públicas municipais receberão Entre o Tejo e o Luali.

Obrigado ao Paulo J.S. Barata, pela habitual camaradagem e pela permanente disponibilidade que lhe são intrínsecas.

E obrigado à empresa gráfica Sersilito, pela forma simplesmente profissional e responsável como trabalha, dirigida para o cliente.

Viva a verdade, livre de rascunhos, silêncios ou outras formas modernas de censura formatada. No fim da guerra, as contas batem todas certas.

«MF» e «mf» – A grandeza de Manuela de Freitas e o silêncio do Museu do Fado

«MF» e «mf» – A grandeza de Manuela de Freitas e o silêncio do Museu do Fado (20/05/2018)




(Imagem obtida através de uma fotografia
tirada em 19/04/2018, extraída da página
de Facebook do Museu do Fado.)



I. «Conversas» no Museu do Fado

Admito que em diversos pontos do Mundo haja museus que instituem, consoante a língua de cada país, as suas «Conversas». Já alguns anos que, pelo menos na língua de Camões, existem museus que têm fomentado Conversas de Museu ou Conversas no Museu, como por exemplo em Portugal e no Brasil. Desta feita foi o nosso Museu do Fado que se associou ao slogan, e decidiu instituir um ciclo de Conversas de Museu.

Semanal e ininterruptamente, de 8 de março a 17 de maio (de 2018), o auditório do Museu teve a honra de receber onze personalidades ligadas ao universo do fado. A iniciativa abarcou diferentes áreas: oito fadistas de renome – Aldina Duarte, Camané, Carlos do Carmo, Marco Rodrigues, Maria Ana Bobone, Paulo Bragança, Paulo de Carvalho e Ricardo Ribeiro –, um insigne guitarrista – José Manuel Neto –, um virtuoso guitarreiro – Óscar Cardoso – e uma maravilhosa letrista – Manuela de Freitas.

Enalteço deveras a iniciativa, porém entendo que poderia ter havido mais espaço para os outros grupos que não o da voz. Reconheço que, em onze «Conversas», dedicar duas aos guitarreiros seria exagerado. Mas creio que foi escasso reservar somente uma sessão aos músicos, e também apenas uma aos poetas ou letristas. Parece‑me que limitar a cinco ou seis o número de encontros com fadistas seria ótimo. Saliente‑se que a observação que acabo de tecer reveste uma natureza exclusivamente construtiva. Em nada pretende beliscar o Museu nem os fadistas convidados, até porque a atividade das Conversas de Museu teve o mérito de permitir que os leigos como eu pudessem ter uma nesga de acesso aos meandros da riqueza cultural que o fado concede a quem o ouve e sente.

Da meia dúzia de sessões a que tive oportunidade de assistir – gostei de todas, realce‑se –, cumpre reconhecer que apreciei sobremaneira as (três) aparentemente menos convencionais, as que extravasam os cânones. Refiro‑me concretamente aos encontros alusivos ao talento da arte da guitarra portuguesa – da construção do instrumento à sua execução musical – e à arte do talento da elaboração de letras de fado. Fiquei abismado com a «Conversa» de 19 de abril p.p., como se a letrista Manuela de Freitas – letrista, e não poetisa, como a própria quis vincadamente sublinhar – fosse uma cabeça‑de‑cartaz do espetáculo que esteve em cena nos fins de tarde das quintas‑feiras. Sem desprimor para as demais distintas figuras do fado, repita-se. Todas as sessões ficarão eternamente gravadas no meu coração.

II. A aula de Manuela de Freitas

II.1. A aula dentro dos Ofícios Inquietos

Logo ao início, a Senhora Diretora do Museu lançou o mote, lendo um excerto de Ofícios Inquietos, texto de Manuela de Freitas reproduzido nas páginas 133 e seguintes do livro (que resultou da coprodução entre o Museu do Fado e o Museu Nacional do Teatro) O Fado e o Teatro, editado em 2013. Ao certo, não me recordo do excerto selecionado. Apenas recordo que incluiu uma referência comparativa entre os fadistas e os atores. Creio que uma das frases lidas foi a seguinte:

         Como o actor se torna autor do texto que representa, o fadista
         torna‑se autor do fado que canta. Não é por acaso que se diz: “aquele 
         fado do Carlos do Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.

Se o excerto enfatizou outra parte, será irrelevante, pois o texto original, apesar de não ser muito extenso, é um autêntico resumo, alargado e condensado, de um grande compêndio sobre dois mundos bastante semelhantes: o fado e o teatro. Qualquer parágrafo, qualquer frase ou qualquer oração do texto seriam suficientes para desenvolver uma sessão apaixonante. Como é óbvio, seria suficiente porque o discurso da Senhora Manuela de Freitas foi enfático e transparente; caso contrário, teria sido uma conversa de plástico, como sucede em barda com tantos comunicadores.

Para Manuela de Freitas, a letra do fado está para o texto do teatro, assim como a música cantada pelo fadista está para a encenação representada pelo ator. Para que haja bom fado e bom teatro, todo o conjunto «[...] tem de estar em harmonia e fazer sentido, um sentido maior do que o intérprete e maior do que o público.» Um equilíbrio único. Tanto o fadista como o ator «[...] fazem do corpo o emissário da alma [...]». «Não imitam nada nem ninguém, são aqueles e não outros [...]». «Quando não é assim, só há mau teatro e mau fado. E, sobretudo agora que o fado está mais prestigiado, "anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado". É que, como o teatro, o fado parece fácil. E é‑o – quando é mau. E quando é mau é insuportável. Não é coisa nenhuma. Porque nem um nem outro suportam a vulgaridade [...]». «Nem suportam o despojamento com que por vezes a falta de talento mascara o vazio [...]». Impossível eu estar mais de acordo.

Um espelho sobre este ser ou não ser (do bom ou mau fadista ou ator) foi colocado pela própria Manuela de Freitas no último parágrafo do texto em apreço, pelo que vale a pena transcrevê‑lo:

         Sabendo que há uma oposição insanável entre exprimir‑se e exibir‑se, 
         fadista, como o actor, tem de escolher: ou ser mais um malabarista 
         habilidoso para entretenimento e negócio rentável da pequena vida 
         das pequenas gentes; ou (tantas vezes inútil, frustrante, 
         incompreensível e incompreendidamente) condenar‑se à paixão, ao 
         desassossego e à insatisfação desse outro negócio – o da alma – 
         que, diz‑nos Miguel Rovisco, «embora leve à falência, é negócio para 
         sempre». [Esta última citação de oito palavras constitui uma excelente 
         forma de acender a memória do talento prodigioso e da energia genial 
         de Miguel Rovisco (1959‑1987).]

Para Manuela de Freitas, o fado e o teatro são manifestações sentimentais nascidas para serem representadas na presença direta das pessoas. Existe uma comunhão, i.e., uma osmose de sentimentos entre o fadista e os seus ouvintes, num caso, e entre o ator e os seus espectadores, no outro. Porém, há uma grande diferença entre quem canta e quem teatraliza. No fado consegue‑se, tanto quanto possível, que fique registado fonograficamente o estado de alma do fadista – registo que é «[...] uma espécie de “memória do momento ao vivo” que nos emociona [...]» –, dado que «[...] a musicalidade é condição indispensável do seu talento expressivo [...]». A música «[...] acaba por conseguir recriar uma “encenação diferida” que no teatro é impossível.» Como se esperava, esta foi uma das ênfases da sessão. Mas houve várias inesperadas curiosidades importantes.

II.2. A aula a partir dos Ofícios Inquietos

O encontro com a letrista foi extremamente gratificante. Tratou‑se de uma aula prática dada no seu habitat natural – o palco – aquilo que ela transmitiu. A Senhora, que honesta e humildemente reconheceu ser incapaz de descrever o que é o fado, possibilitou aos presentes confirmarem que tal incapacidade era genuinamente verdadeira.

Percebeu‑se perfeitamente que ela não sabe o que é o fado porque ela (também) é fado, e como é discreta não consegue descrever tamanha característica pessoal. Todavia, desvendou o mistério, confessando que tem dentro de si instalado um aparelho (mas desconhece de onde veio), um arrepímetro, que se acende e avisa‑a quando o fado acontece. Mas não todo o fado, como a própria reconheceu – ainda que compreensivelmente não tenha pretendido entrar em tão polémico tema e que continua a ser uma espécie de tabu. A luz do aparelho dá‑lhe sinal quando ela sente que o fadista canta como se fosse o elemento de transmissão de uma mensagem divina, ou como se o fadista fosse a voz do próprio Deus.

A propósito da referência «anda o fado noutras bocas que não são bocas pró fado» – vide §3 de II.1 –, retome‑se a última frase do primeiro parágrafo de II.1 – «Não é por acaso que se diz: “aquele fado do Carlos do Carmo” não sendo dele nem a letra nem a música.» Convém acrescentar àquele (outro) fado de Carlos Ramos – Anda o Fado Noutras Bocas, que não por acaso tem letra e música de Artur Ribeiro – alguns versos que não fazem parte do refrão: «Eu ouço por todo o lado / Noutras bocas outro fado / Que de fado não tem nada»; ou, a propósito de determinados fadistas, «Ouvindo alguns que nasceram / Para tudo menos para o fado».

Durante cerca de uma hora e meia esteve em cena – não em exibição, pois esta palavra poderia levar a um grande equívoco, que Manuela de Freitas permanentemente evita, o de distinguir (usando as ideias plasmadas no citado derradeiro parágrafo do texto da sua autoria) quem dá tudo de si para «exprimir‑se», de quem pouco mais se interessa do que «exibir‑se» – uma lição durante a qual procurou explicar tanto o que é o fado do bom teatro como o teatro do mau fado. A Senhora foi – foi e é – assertiva mas reservada, frontal mas educada, forte mas complacente, sabendo elevar os dois estados de arte sentimental sublimes, o fado e o teatro. E percebeu‑se facilmente porque ourejou o teatro e prateou o fado. Sendo coerente consigo, ela não podia pensar doutra forma. Quem tivesse retido o mencionado texto Ofícios Inquietos, saberia de antemão o porquê da hierarquização entre o fado e o teatro, dois primos direitos que são filhos de estados de alma irmãos.

O estilo e a forma de comunicação patenteados permitiram concluir que quando um ator dá abnegadamente a sua alma àquilo que realiza, é indiferente falar sentado para uma pequena sala com dezenas de pessoas, ou representar de pé para um grande auditório com milhares de pessoas, fazendo com que os espectadores fiquem tatuados na memória com o momento único de entrega. Aliás, acerca das condições de comodidade por parte daqueles que recebem esta entrega, Manuela de Freitas partilhou com os presentes a explicação para que haja atores a preconizar que o público não deve assistir muito comodamente aos espetáculos, pois o facto de estar bem instalado pode impedir a maximização da sua capacidade de receção e retenção da mensagem. Creio que ela transmitiu haver mesmo quem avance que o público deve ficar sentado no chão. Se eu estivesse sentado no chão a ouvi‑la, ainda mais teria o prazer de levitar.

Só quem assistiu à representação daquele fim de tarde consegue entender na plenitude a definição de fado. Mesmo que houvesse uma gravação do encontro que registasse os cinco sentidos de cada pessoa presente no auditório, esse registo jamais conseguiria reproduzir o momento. Não captaria o estado anímico da entrega, despida de qualquer vaidade. A foto colocada no início deste post procura transmitir a sombra ínfima mas fiel do ambiente que os presentes puderam usufruir.

III. A comunicação com o Museu do Fado

No dia seguinte ao da sessão, após o jantar, relembrei‑me da palestra com que Manuela de Freitas, de maneira intimista e muito profissional, revolucionou os sentidos transcendentais a quem a (ou)viu com atenção. A vontade impeliu‑me então a descrever sucintamente como, na minha perspetiva, ela sente o fado, viveu o teatro – que abandonou há alguns anos, por não se identificar com determinadas idiossincrasias – e será fiel aos dois amores. Saíram naturalmente (de maneira tão natural como a sua mensagem) umas palavras, cujo conjunto intitulei Instinto e arrepio. O seu instinto inato para o teatro, e o seu arrepímetro único para o fado. Mas ela é incomparavelmente superior acima de tais palavras; inferior foi a minha capacidade para chegar à descrição ideal e suprema.

Após cerca de duas semanas de estágio, lembrei‑me de reler o que escrevera, e procedi a ligeiros ajustes. Um dia depois, em 4 de maio, decidi enviar um e‑mail ao Museu do Fado. Para além das palavras de Instinto e arrepio, o e‑mail continha o necessário enquadramento do mesmo. Comecei por felicitar o Museu, pela «excelente iniciativa promovida» por si – ou seja, as Conversas de Fado –, qualificando de «soberba» a «aula oferecida pela Senhora Manuela de Freitas», e salientando que «Fiquei embevecido com as suas palavras.»

Ademais, adicionei ao e‑mail alguns apontamentos já acima expostos: que foi no dia seguinte ao da sessão que brotou a minha decisão, atendendo a que «não me saía da ideia o que ouvira na véspera»; e que o resultado dessa decisão esteve a estagiar. Prossegui, escrevendo «Como não tenho o contacto da Senhora Manuela de Freitas, pedia o grande favor de o Museu do Fado lhe reencaminhar este e‑mail», e acrescentando que se tratava de «Ideias simples que são uma pálida amostra do que eu senti, ou melhor, do que ela transmitiu ao auditório.»

Volvidos poucos dias, enviei um novo e‑mail ao Museu do Fado, cujo conteúdo passo a reproduzir. «Admitindo que o Museu do Fado ainda não teve oportunidade para reencaminhar o meu e‑mail da passada sexta-feira, 4 de maio, à Senhora Manuela de Freitas, aproveito a oportunidade para fazer uma ligeira correção. Assim sendo, muito agradeço que os versos do último e‑mail sejam substituídos pelos abaixo apresentados». [Substituí, num verso, uma palavra por duas.] «No caso de o Museu do Fado não conseguir entrar em contacto com a Senhora Manuela e desse modo efetuar o reenvio do e‑mail contendo os versos, muito agradeço que me informe. Mais uma vez, obrigado pela atenção dispensada.»

Seguidamente encontram‑se expostas as palavras, imperfeitas mas descomprometidas e desinteressadas, referentes a Instinto e arrepio.

Não sei quem é o fado que me aclama
Um palco de olhar vivo a vida é
Teatro nu, verdade que reclama
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Não sei quem é o fado que me aclama
Sou corpo em movimento incessante
Instinto e arrepio que exalta, inflama
Presença sempre em cena, alma abundante
Um palco de olhar vivo a vida é
Sem cera ou caras ocas e fingidas
Combato, choro, sofro e amo em pé
Semeio alegrias, saro feridas
Teatro nu, verdade que reclama
Sou teu, no escuro sigo a tua pista
Ao fado que te canta eu dou chama
De Deus recebo a voz pura e fadista
Eu fiz‑te um juramento: eterna fé
Sou hoje e jamais penso no depois
O estrado é o meu fado e creio até
Que o fado é o amante de nós dois


IV. O plano C

Face ao exposto, do Museu esperar‑se‑ia tão‑somente uma singela atitude: ou informar‑me que fez o favor que educadamente lhe pedi, ou então transmitir‑me que não poderia ter atuado em conformidade com o meu pedido. Não pedi o contacto da Senhora, e nem que a Senhora me contactasse; apenas pedi que a Senhora tivesse acesso ao eco que a sua aula produziu num elemento do público. Tão simples e nada mais que isso.

Mas parece que aquilo que se revela bastante simples converte‑se em multiplicada complicação. Desde o dia 4 de maio até hoje aguardei paciente e ingenuamente que o Museu do Fado tivesse uns segundos do seu escasso tempo para me responder.

O Museu não está ao meu serviço, bem sei. Mas bem sei igualmente que não lhe pedi o Céu. Ao invés, parece que lhe terei oferecido um convite para o Inferno, porquanto o seu silêncio leva a pressupor que foram pecaminosos ou infames os meus dois e‑mails, especialmente o último. Assim seja o seu entendimento. Apresento desde já desculpa se o teor dos referidos e‑mails conduziu a ruídos de interpretação.

Tornado vão o plano A – envolvendo o Museu do Fado –, ainda estive tentado a esboçar um plano B. Mas como para este plano alternativo seria necessário efetuar mais um pedido (para o Céu – ou sequer um convite para o Inferno), fui lesto a desistir da ideia. Enveredei imediatamente pelo plano C, o presente, o que depende de ninguém, o imune a caprichos, simpatias, amizades ou favores, o da publicação (sem rascunhos) no sítio da Internet.

Resta concluir que Manuela de Freitas, «MF», apresentou‑se com uma voz contagiante, sem oscilações no corpo e na alma. Por seu turno, o Museu do Fado, «mf», começou forte no levantamento da iniciativa mas acabou por esmorecer diante do seu silêncio, certamente por invulgar descuido. Conversas de Museu ou Conversas em Silêncio no Museu? O silêncio não se exige sempre; exige‑se quando se vai cantar o fado.

Índice de Atração Turístico-Residencial

Índice de Atração Turístico-Residencial (15/05/2018)



I. Introdução

O Índice de Atração Turístico‑Residencial (IATR) apresentado no presente post procura captar - e deste modo é um candidato a tornar-se noutro rascunho – as variáveis que condicionam quer os fluxos turísticos, quer a mudança de residência, mudança operada por parte sobretudo da população reformada oriunda de Estados ricos. Traga‑se à colação o texto de Paulo J.S. Barata publicado há cinco anos no ex‑jornal Oje – atual Jornal Económico –, na coluna Refletir, em 6 de março de 2013 – e republicado três dias depois no blogue do FRES - Fórum de Reflexão Económica e Social –, intitulado «Portugal e a atração sénior».

Logo no início desse texto encontra‑se uma lista de «fatores diferenciadores» eleitos pelos forâneos no momento de decidirem viajar para o nosso País. Ela é composta por «Posição geográfica, clima, história, património, diversidade paisagística, gastronomia, hospitalidade, segurança, infraestruturas de qualidade (aeroportos internacionais, vias de comunicação, redes de hotéis e restaurantes, redes de telecomunicações, hospitais públicos e privados) e mão de obra qualificada».

O sobredito texto acrescenta fatores à lista: força dos «preços competitivos», percentagem elevada de portugueses que falam ou compreendem a língua inglesa, e tempo de voo relativamente reduzido para as principais cidades europeias. De resto, o texto alerta que, para além dos fatores enunciados, não se pode descurar o regime fiscal.

Seria interessante transportar para um único indicador todos os itens que influenciam o turismo e a alteração de residência, de modo a facilitar as comparações entre países. Porém, da miríade de características inatas que Portugal possui, umas revelam‑se mais objetivas que outras. A «segurança», o «clima» e os «preços competitivos» são provavelmente das mais quantificáveis.

II. Variáveis do índice

II.1. Segurança

A segurança será porventura o fator que reúne maior ponderação tanto no âmbito turístico como no da fixação de residência. Para mensurá‑lo, recorreu‑se ao trabalho desenvolvido pelo Institute for Economics and Peace. Trata‑se de uma instituição que integra um painel de peritos internacionais, cujos pareceres em matéria de segurança são transformados num índice global de paz.


Este índice é elaborado com base em bastantes indicadores quantitativos e qualitativos – respetivamente 15 e oito, em 2017 –, que avaliam a conflitualidade interna e os diferendos externos. O subíndice de natureza interna tem uma ponderação ligeiramente superior (60%) face ao correspondente para a paz de índole externa. O gráfico 1 mostra a evolução do índice global.







No capítulo da segurança, Portugal tem estado mundialmente bem posicionado ao longo das recentes décadas. Ainda, constata‑se que vem melhorando nos últimos anos.


Em 2017, no seio dos 163 países com uma população acima de um milhão de pessoas e um território que ultrapassa 20 mil quilómetros quadrados, a nossa Nação ocupava a terceira melhor posição – 15ª melhor em 2009, entre 143 Estados –, apenas atrás da Islândia e da Nova Zelândia. Se bem que o gráfico permita confirmar que a Europa é um continente seguro, nota‑se que o nível de paz diminuiu a partir de 2015, contrastando com a evolução registada em Portugal.

II.2. Clima



Após a segurança, o clima será um elemento de diferenciação altamente relevante para efeitos turísticos e de mudança de residência. O quadro 1 relaciona os dois fatores. A segurança é refletida pelo índice global de paz (explicitado na subsecção precedente), e o clima é traduzido através da temperatura média anual (medida em graus Celsius). O quadro não inclui 163 países, em virtude de a série de dados relativa à temperatura não dispor de informação referente a quatro deles (a saber: Kosovo, Palestina, Sudão do Sul e Taiwan); e porque se admitiu que as conclusões seriam praticamente as mesmas (assumindo 163 ou 159 territórios nacionais), razão pela qual se entendeu que seria desnecessário preencher a série original com dados de outras fontes.




Da dúzia de Estados mais seguros em 2017 – ordenadamente: Islândia, Nova Zelândia, Portugal, Áustria, Dinamarca, República Checa, Eslovénia, Canadá, Suíça, Japão, Irlanda e Austrália –, somente dois são bafejados por um clima mais aprazível. Pertencem aos intervalos de temperatura média anual [12, 16) e [20, 24), e correspondem, por esta ordem, a Portugal e Austrália.
Podendo escolher, a maioria das pessoas evitaria viver em áreas com um clima demasiado quente ou deveras frio. Apesar de o ser humano adaptar‑se a qualquer temperatura, não há dúvida que os climas amenos são os preferidos pela generalidade dos indivíduos, pelo que é perfeitamente plausível estabelecer que a temperatura média ideal para o grosso das pessoas rondará os 18oC. Dos 159 países abrangidos, apenas 14 aproximam‑se dessa bitola. Porém, nenhum deles dispõe do grau máximo de segurança – nível «Muito elevado».

Em 2017, os Estados mais seguros integrantes do intervalo [16, 20) eram o Uruguai e a Namíbia, os quais ocupavam o segundo maior patamar – i.e., o grau «Elevado». Portanto, à escala mundial, e sob os prismas primaciais da segurança e do clima, Portugal é dos países mais competitivos. Todavia, em matéria de competitividade falta acrescentar uma componente fundamental: o nível de preços.

II.3. Nível de preços


Para a variável respeitante ao nível de preços foi tido em conta um conjunto de 121 territórios nacionais. No gráfico 2 apresenta‑se a distribuição da frequência dos escalões do índice de poder de compra reportados a 2017.




Visto que a série de dados tem como referência – base 100 – o poder de compra nova‑iorquino, é normal que a distribuição evidencie um enviesamento para a direita. Para o tal universo de 121 Estados, a mediana era de 53,6. O poder de compra português (62,7) estava alinhado com o da média dos países, que registava o valor de 62,3.

Apresentado o fator afeto ao poder de compra, importa relacioná‑lo com as variáveis já explicadas, ou seja, a segurança e o clima. Para tanto, houve necessidade de construir o citado (logo no primeiro parágrafo) IATR.

III. Construção do índice

O IATR consiste num índice compósito que abarca as três dimensões desenvolvidas no post em apreço: nível de paz, temperatura média e custo de vida. Conforme mencionado, estas dimensões são deveras relevantes para efeitos da deslocação de cidadãos entre nações, quer na óptica dos movimentos turísticos, quer na perspetiva da fixação de residência em território estrangeiro (excluindo a mudança de residência associada à emigração motivada pela procura de melhores condições de trabalho).

A variável atinente ao custo de vida, que assenta, como atrás sublinhado, no nível de preços praticado na cidade norte‑americana de Nova Iorque, incorpora as diversas componentes do custo de vida em cada país, nomeadamente a alimentação, a restauração, os transportes, a energia e o alojamento – as despesas com arrendamento e com empréstimos hipotecários para habitação –, medidos em paridade do poder de compra. Não obstante existirem dados sobre o índice global de paz e a temperatura média anual para 159 Estados, somente foram utilizados os elementos de 109 deles, por ser o número de nações para as quais há informação acerca dos preços.

Enquanto os valores relativos ao nível de paz e ao custo de vida que entram no IATR foram extraídos da fonte, para a temperatura média adotou‑se um procedimento diferente, descrito de seguida. Usou‑se a temperatura média anual disponível para aqueles 109 países, cuja amplitude varia entre 27,2 e -5,1 graus Celsius. Uma vez que – vide §3 de II.2 – 18oC é uma temperatura média que pode ser considerada ótima, para a transformação da série de origem construiu-se uma função por ramos simétrica em torno de 18.

Por dois motivos não é possível empregar os dados da temperatura média retirados diretamente da fonte. Por um lado, porque o quociente entre o valor máximo e o valor mínimo carece de sentido. A divisão entre um valor positivo e um negativo tem validade unicamente no campo teórico‑aritmético. Por outro – e mesmo que não houvesse temperaturas negativas –, pelo facto de o rácio entre uma temperatura média muito elevada e uma extremamente baixa resultar numa utilidade nula aquando da agregação da temperatura às outras duas para efeitos do cálculo do IATR.

Em relação a este último motivo (para a adoção de um procedimento tomado especificamente para o fator da temperatura, ao invés do uso direto da informação), note‑se que em 2017 o quociente entre os valores máximo e mínimo era de 3,43 para o nível de paz (2,8 em 2009), e de 6,45 para o custo de vida. Reforce‑se o motivo: dividindo uma temperatura próxima de 27oC com uma a rondar 0oC, resultaria num número exorbitante e sem nexo.

Os dois obstáculos anteriormente explicitados associados ao uso direto dos elementos da série original da temperatura média anual foram ultrapassados mediante a seguinte interpolação linear, encetada para obter o valor da nova variável respeitante à temperatura, «y»: ln 10.000 corresponde à amplitude máxima de 23,1 [=18-(-5,1)] – >9,2 (=27,2-18) –, ln 10 à amplitude mínima de 0 (=18-18), e ln y à amplitude de |18-x|, sendo «x» a temperatura da série de origem. Por conseguinte, para «x» acima de 18, ln y = A-B+C e, para «x» abaixo de 18, ln y = A+B-C, onde A = ln 10, B = 18.(ln 10.000-ln 10)/23,1 e C = x.(ln 10.000-ln 10)/23,1.

Escolheu-se ln 10.000 de modo a que o rácio entre o valor máximo e o valor mínimo da série transformada esteja situado entre os quocientes verificados nas duas demais séries de dados – que, como mencionado no penúltimo parágrafo, são de 3,43 e 6,45. Fixando ln 10.000 para a amplitude máxima, obtém‑se o rácio de 3,87; se se fixasse ln 1000 ou ln 100, os quocientes seriam de apenas 2,94 ou 1,98.

O coeficiente de correlação entre o nível de paz e a temperatura média é de ‑0,31, e de ‑0,49 entre o nível de paz e o custo de vida. Entre a temperatura média e o custo de vida, o correspondente coeficiente é de 0,28. Assim sendo, o IATR incorpora três perspetivas bastante distintas, estando dissipado o risco de se incluírem variáveis correlacionadas entre si, situação que poria irremediavelmente em causa a validade do índice compósito.

IV. Resultados do índice



O quadro 2 contém um conjunto alargado de informação. Para cada um dos três fatores individualmente considerados, i.e., o índice global de paz, a temperatura média anual e o custo de vida com alojamento, apresentam‑se os 15 Estados melhor posicionados, e outrossim a ordem que ocupam no ranking do respetivo fator – realce a negrito. Em 2017, no universo de 109 territórios nacionais, Portugal detinha a terceira – último parágrafo de II.1 – e a 15ª melhor posições em termos do índice de paz e da temperatura média, ocupando a 63ª posição no tocante ao custo de vida.






Construiu‑se o IATR assumindo como cenário‑base o produto dos valores das três variáveis em apreço. Nesse cenário, o nosso País ocupava o quarto melhor lugar à escala mundial – antepenúltima coluna do quadro. Porém, atendendo a que a amplitude das três variáveis é díspar – conforme salientado (e repetido), o rácio entre o máximo e o mínimo varia entre 3,43 e 6,45 –, efetuou‑se um recálculo das posições – últimas duas colunas –, procedimento levado a cabo através da média simples das posições dos fatores. Sob esta perspetiva, Portugal seria o segundo Estado mais atrativo.

No quadro 3 apresentam‑se os valores do IATR constantes do quadro 2, assim como os valores para três cenários alternativos, resultantes da maior ponderação atribuída a cada um dos três fatores em causa. De modo semelhante ao realizado para o cenário‑base do quadro 2, as últimas três colunas do quadro 3 correspondem à ordem das nações tendo em conta não os valores do índice mas sim a ordem da cada fator individual, consoante o peso que se lhes concede.







No cenário em que a maior ponderação é dada ao índice de paz, quiçá a variável que objetivamente tende a ser a mais reconhecida, Portugal era o arquétipo mundial. Destacava‑se por ser o Estado mais atrativo, seja em termos do valor do índice – A2.B.C –, seja no tocante às posições das três variáveis – (2.a+b+c)/4. Quando o peso maior é direcionado para a temperatura média, a Nação ocupava o sexto ou o segundo melhor lugares, consoante se refira ao valor do índice ou às posições das três variáveis. Finalmente, se se ponderar mais o custo de vida, os lugares baixavam para o 22.º ou o 14.º.



V. Reflexões finais

No domínio da atração turístico‑residencial, o País tem sido um habitual concorrente para os lugares do pódio mundial. Os resultados do IATR, índice compósito que agrega o nível de paz, a temperatura média e o custo de vida, explicam grandemente o êxito português em termos do afluxo turístico e da mudança de residência (maioritariamente enveredada por reformados estrangeiros possidentes, conquanto para tal mudança contribua consideravelmente o chamariz fiscal que o Estado tem bem montado).

Apesar da tentação de entrar no etnocentrismo, será irrefutável assumir que a nossa Nação dispõe, para além das características objetivas reunidas no índice, de aspetos de pendor subjetivo assaz distintivos, já oportunamente enunciados no texto «Portugal e a atração sénior», de Paulo J.S. Barata. Tranquilidade e bem‑estar são exigências inerentes às preferências do destino turístico e da alteração de residência.

Portugal é um país tranquilo e, sobretudo para quem vem de fora, detém um nível de bem‑estar elevado. A tranquilidade (em aceção lata) revela‑se a nível da segurança em si mesma, mas decorre igualmente do clima. O bem‑estar é enaltecido certamente por quem aprecia a vida, entremeando a segurança e o clima com as vertentes histórica, geográfica, gastronómica e cultural.

A Nação tem sabido, ao longo do tempo, partilhar fraternamente a sua identidade, como que as virtudes das vertentes identificadas na frase anterior também caracterizem os outros povos que connosco se cruzam. Mas nada vale empertigarmo‑nos com os êxitos alcançados se descurarmos a lição ancestral de que tudo pode ser modificado a qualquer instante, até porque a concorrência é imarcescível e o mercado não dorme.

O território nacional foi agraciado pela ventura da Natureza universal e pela vontade do Homem lusitano. Haja portanto vontade para respeitar a ventura, e não falte audácia nem humildade para reconhecer que do Capitólio à Tarpeia não dista mais que um pulo. Que abunde a serenidade para tratar bem da galinha dos ovos de ouro. 



Cegueira

Cegueira (25/04/2018)




(Fotografia tirada às 23h16m de 24 de abril de 2018, em Setúbal, na Praça de Bocage,
durante mais um concerto fabuloso da banda UHF, repartido entre

temas da própria banda e músicas de Zeca Afonso.)



O FRES Democracia elogia veementemente o que Abril fez, mas não deixa de lembrá-Lo (Abril) do que se tem esquecido de fazer. Hoje é um dia de realidade e de esperança. Sem rascunhos. A «raiva» que falta a Portugal, ao Povo maiúsculo e aos políticos minúsculos somente desaparecerá quando a verdade se transformar em Verdade. No entretanto a Cegueira impera, o povo permanece minúsculo e os Políticos continuam maiúsculos.





               Tu serás o que sonhares
               Mais o que concretizares
               Sociedade hipotecada
               Fora de tempo gerada

               Sonho afiado em esmeril
               Após chuvada de abril
               Melhor água nunca houvera
               Irrompida em primavera

               Ano em que a força regou
               O que o silêncio secou
               Raiou outra confiança
               Que aclamou a fácil esperança

               Mas os filhos da vontade
               Beberam agre verdade
               Unidade engavetada
               Flébil razão refutada

               Alegria sedutora
               Tristeza triunfadora
               Jamais nasce nova era
               A raiva de ti se espera

               A rota da coerência
               E o golpe da consciência
               São a única aliança
               Senão a cegueira avança

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