sexta-feira, 3 de julho de 2020

Esquerda e Direita no Século XXI – Reflexões (V) (parte I/III)

Esquerda e Direita no Século XXI – Reflexões (V) (parte I/III) (31/03/2017)


Esquerda e direita no séc. XXI? – Pergunta pouco útil, ou talvez pior do que inútil (#)


Conclusões e outras considerações

Inicie‑se o documento pelo final – as conclusões (acrescidas de outras considerações) –, com o intuito de tentar diminuir as reações negativas que o seu (sub)título poderá causar. Esta secção, servida como acepipe mas preparada para acabar em sobremesa, seria suficiente para abordar o assunto em presença, até porque representa cerca de 1/4 do total do texto. Porém, há momentos em que, justificadamente e em diversas circunstâncias, impõe‑se substrato adicional. A partir da segunda secção – posts referentes às partes II/III e III/III – entrar‑se‑á no núcleo do substrato.

Nos regimes totalitários ou ditatoriais, bem como nos regimes híbridos, esquerda e direita são palavras rígidas, atendendo a que o epicentro da política é o poder da autoridade e da força. Ao invés, nos regimes eminentemente democráticos e civilizacionais, esquerda e direita são palavras flexíveis, visto que o epicentro da política é o poder da verdade e da razão. Encontrando‑se nos antípodas esses dois grupos de regimes, é aceitável admitir que os dois tipos de poder que lhes subjazem estejam igualmente afastados à mesma distância.

Nos regimes totalitários ou ditatoriais, e nos regimes híbridos, o poder da autoridade e da força é autoexplicativo. Isso não sucede com o poder da verdade e da razão, aplicável aos regimes eminentemente democráticos e civilizacionais. De qualquer modo, a última secção – «A verdade democrática» – aflorará esse segundo tipo de poder. Ainda assim, e porque subsistirão dúvidas acerca do alcance das expressões – na prática sinónimas – «poder da verdade e da razão» e «verdade democrática», pode trazer‑se à colação o documento septipartido «Da semente da verdade ao fruto da liverdade», publicado entre 25 de abril e 1 de maio de 2016. A política sem verdade – repita‑se: verdade democrática (e não verdade dogmática) – cria metástases, e transforma‑se gradualmente em politiquice.

Em democracia, o diálogo entre a esquerda e a direita sempre se manteve – se com ou sem utilidade, não importa por ora. E não é preciso dispor de poderes premonitórios para afirmar que eternamente se manterá, no séc. XXI e em qualquer outro século. É certo que a esquerda foi e será mais progressista, e a direita foi e será mais conservadora, o que aliás reveste um grande contributo (de uma e de outra) para o amadurecimento e o desenvolvimento das sociedades. Porém, impõe‑se a dúvida sobre a função prática da esquerda e da direita nos dias de hoje. Os sonhos coletivos são a especialidade da esquerda; os cifrões individuais são a predileção da direita.

O problema é que assiste‑se regularmente a um diálogo de surdos, porquanto estão presentes dois vícios: a esquerda não quer ou não sabe fazer contas que mensurem corretamente o impacto financeiro das suas ideias tendentes à promoção do bem coletivo; e a direita não tem ideias para promover o bem coletivo, mas tem permanente vontade e capacidade para acertar nas contas em seu proveito, e para ocultar que as soluções por si preconizadas são bastante melhores para o indivíduo do que para o coletivo. Tais vícios extravasam a atuação dos partidos políticos; abrangem a hipocrisia crónica vincada em diversas associações sindicais e patronais.

A esquerda tem feito gáudio em autoclassificar‑se o baluarte dos pobres. Não constituirá exagero afirmar que, ao início, a esquerda tinha um pé nos pobres e o outro nos republicanos. Depois ficou com um pé nos republicanos e o outro nos agnósticos. Seguidamente manteve um pé nos agnósticos e o outro nos trabalhadores. E por fim almejou fechar o círculo, instalando um pé nos trabalhadores e o outro novamente nos pobres.

A anterior imagem da passagem de pé em pé serve unicamente para ilustrar a evolução do conceito «esquerda» – consoante as circunstâncias e os interesses em cada momento –, e portanto não deve ser entendida como uma tentativa de criar segmentos forçados e artificiais da realidade, como se os conjuntos dos pobres, dos republicanos, dos agnósticos e dos trabalhadores fossem entre si disjuntos. Análoga imagem pode ser esboçada para a evolução do conceito «direita»: terá passado dos ricos para os monárquicos, dos monárquicos para os crentes, dos crentes para os patrões, e dos patrões para os ricos.

A tradicional dicotomia esquerda‑direita aplicar‑se‑á num mundo a duas dimensões e pintado exclusivamente com duas cores, como tem sucedido em inúmeras ocasiões ao longo do tempo e em várias geografias. Nesse mundo restrito, a esquerda e a direita alimentam‑se de incoerência – incoerência de argumentos frequentemente falaciosos, como os três parágrafos precedentes indiciam. No jogo político de diferenças de pontos de vista, onde os cidadãos satisfazem‑se plenamente com a alternativa dual – cingida ao claro e ao escuro, ou ao preto e ao branco – que lhes é oferecida e permitida, o papel de árbitro é autoritariamente assumido pela demagogia.

Assim, resta concluir que a tradicional dicotomia esquerda‑direita perde o sentido num mundo pluridimensional, como sucede em tantos países, onde os parlamentos nacionais são representados por uma paleta de cores para muitos gostos, consoante as opções manifestadas pelo eleitorado e respeitadas em conformidade pela lei eleitoral. Nesses países, o jogo político de diferenças de pontos de vista é regulado sobriamente não pela demagogia partidária, mas antes pela verdade democrática.

Quando uma sociedade comunga sãmente com a verdade democrática, a dita esquerda consegue ser coerente consigo própria, e o mesmo sucede com a direita, pois a coerência é inerente à verdade democrática. Mais: as duas estão fadadas uma para a outra, em prol do bem coletivo (ou comum) citado no quinto parágrafo, pelo que a esquerda não pode advogar soluções baseadas na equidade sem ter em conta o critério básico da eficiência, nem a direita pode defender soluções orientadas pela eficiência sem acautelar o critério fundamental da equidade. Trata‑se de um problema de otimização, em que a esquerda procura maximizar a equidade, condicionada à restrição da eficiência, e a direita tenta maximizar a eficiência, sujeita à restrição da equidade.

Finalizando: em sociedades exigentes do séc. XXI – associadas a regimes eminentemente democráticos e civilizacionais –, os partidos da esquerda (dando primazia à equidade) ou da direita (concedendo prioridade à eficiência) que se prezem têm impreterivelmente de transportar uma característica comum: serem, acima de tudo, partidos da verdade. Os partidos que usam demagogicamente as meias verdades ou as mentiras não exercem política, mas sim politiquice. E os indivíduos seguidores desses partidos não são bem eleitores; são mais eleitoreiros – o mencionado documento «Da semente da verdade ao fruto da liverdade» explicita estas ideias incomuns.

Logo, parece que a insistência em continuar a resumir o debate político ao confronto anacrónico (e por vezes decadente) entre esquerda e direita – quando vazias de verdade – não vai além do mero objetivo de servir de passatempo, para distração da população. Objetivo fútil, dado que um número crescente de eleitores já tem suficiente maturidade democrática para repudiar o entretenimento político previsível e inútil, e para reclamar a salientada verdade democrática. Esclareça‑se esta questão, para evitar equívocos interpretativos.

Na arena política – ou politiqueira, para ser mais rigoroso – em que os cidadãos aceitam ou rejeitam as opções tomadas não pela sua pertinência e viabilidade, mas tão‑só em função dos partidos que as tomam, é normal que a verdade democrática viva órfã e não singre. Não é invulgar que, no terreno dominado pelo bipartidarismo, uma determinada medida seja ajuizada de positiva ou de negativa pelo mesmo partido consoante, respetivamente, este esteja no poder ou na oposição. Daí a previsibilidade e a inutilidade do bipartidarismo habitual (ou do "centrão" hegemónico), por oposição à verdade democrática reclamada por um número crescente de eleitores – portanto, não eleitoreiros.


(#) Cumpre agradecer o valioso contributo fornecido, sob a forma de espírito crítico, pela Helena Matilde Jacques Feliciano. O acolhimento das suas principais dúvidas e a resposta a algumas das suas objeções traduziram-se na melhoria do texto, tendo a redação final ficado – se bem que (44%) mais extensa – incomparavelmente bastante mais clara e fundamentada. No entanto, do acolhimento e da resposta atrás mencionados, não pode concluir-se que a Helena se identifique com o teor do documento.

A homilia de Fátima e os contratos de associação

A homilia de Fátima e os contratos de associação (15/05/2016)


Ontem à noite ouvi que, na homilia das celebrações das Aparições de Fátima, o Cardeal-Patriarca Manuel Clemente – pessoa em quem eu, mesmo não sendo católico (ou pertencendo à massiva legião de “católicos não praticantes”) deposito uma grande empatia – veio a terreiro, ainda que de forma subtil, defender a continuação do statu quo no que se refere aos contratos de associação no ensino.

O Senhor Cardeal-Patriarca referiu que, «Sendo as famílias e o catolicismo realidades fundantes do que somos hoje, ainda que sejamos diversos, hão de ser tidos em conta por organizações posteriores, como o Estado ou as instâncias internacionais, quando legislam ou administram o que a todos respeita». Assim, para a Igreja – acredito que o Cardeal-Patriarca, por ser uma pessoa incomparavelmente mais aberta do que a Igreja conservadora que representa, não pensará aquilo que as suas palavras transmitem –, dado que o Estado é uma organização “posterior” ao catolicismo (porque veio depois deste), deve submeter-se à Igreja.

Defendeu – com certeza sem querer, razão pela qual desvalorizo o alcance subjacente à comparação – que, pelo menos na área da educação, para a Igreja o catolicismo está acima do Estado. É verdade que as famílias são uma realidade fundante; assim é em Portugal e em quase todo o Mundo, daí que o Estado e as «instâncias internacionais» as devam respeitar. Porém, pôr no mesmo patamar as instituições família e religião católica é no mínimo questionável. O catolicismo está a anos-luz das famílias, ainda mais num Estado constitucionalmente laico. Ademais, sob uma perspetiva ecuménica que a Igreja deve cada vez mais ter nos tempos atuais, é anacrónica a colocação da família e do catolicismo no mesmo altar. A família foi usada como escudo de proteção do catolicismo e principalmente dos contratos de associação.

Ainda na homilia, o Senhor Cardeal-Patriarca prosseguiu: «As entidades políticas servem o bem comum, que é o bem de todos segundo as legítimas escolhas de cada um. Porque solidariedade sem subsidiariedade, não o é de facto. É neste ponto que culto, cultura e sociedade se devem harmonizar, mesmo e sobretudo em sociedades plurais e democráticas, como quer ser a nossa.» Também aqui os conceitos foram desadequadamente utilizados, ou antes, foram corretamente empregues de acordo com a interpretação da Igreja. As expressões «bem comum», «legítimas escolhas de cada um» e «subsidiariedade» têm um significado para a Igreja católica que jamais prevalece em termos legais. Apenas prevaleceria se o Estado e a Igreja continuassem umbilicalmente apegados como sucedia no Estado Novo. Forçar esse apego, sobretudo em «sociedades plurais e democráticas, como quer ser a nossa», pode soar a um ténue desejo de recuar 42 anos.

Portugal é uma república laica, pelo que a liberdade religiosa deve revestir-se em todos os atos do Estado, desde logo no ensino. Por aplicação do laicismo, o Estado não deve subsidiar as escolhas das famílias em função dos credos, e portanto não fica bem à Igreja pressionar o Estado nesse sentido. As preocupações da Igreja portuguesa devem ser outras. Ela está bem ciente que, à luz da Constituição da República Portuguesa, o Estado somente deve firmar contratos de associação para efeitos da aplicação do princípio da subsidiariedade.

post tripartido «Serviço Nacional de Educação e livre escolha subsidiada - Argumentos [i(deo)]lógicos», publicado nos dias 5, 12 e 19 de junho de 2015, desenvolve este tema, pelo que é dispensável a sua repetição. Contudo, não posso deixar de retomar parte de dois dos seus 81 pontos, a propósito da igualdade de oportunidades, outro argumento invocado pelos defensores da livre escolha, ou melhor, pelos apologistas da livre escolha (mas) subsidiada. São os pontos 50 e 51.

«50. (...) para alguns liberais do ensino, respeitar as convicções individuais e legitimar o ensino privado presidido por valores filosóficos, estéticos, políticos, ideológicos ou religiosos significa a obrigação de o Estado apoiar financeiramente os interesses individuais. Algaraviada de pensamentos sui generis, de quem vive abeberado com tanta liberdade e mistura a esmo o direito de cada um escolher o melhor para si com o dever de o Estado financiar as preferências individuais.»

«51. (...) Ou o Estado, para salvaguardar a igualdade de oportunidades entre os estudantes, financia em idênticas condições o ensino público e – quando a rede pública de ensino revelar-se escassa – o ensino privado, caso em que as famílias nada têm de pagar (tanto nas escolas públicas como nas privadas); ou o Estado concede total direito de as famílias selecionarem as escolas, cabendo às primeiras o exclusivo financiamento das opções. Assim, ao contrário do que os partidários do ensino privado subsidiado apelam, o conceito de igualdade de oportunidades aplicado à educação está relacionado com os princípios da gratuitidade e da universalidade, e não com o princípio da liberdade de escolha.»

A Igreja portuguesa está nitidamente desesperada, desde as bases à cúpula (ainda que não em pânico comparável ao que foi provocado pela Revolução Russa de fevereiro de 1917, ao ponto de, escassos meses depois, terem sido reveladas as Aparições da Virgem Maria aos Pastorinhos na Cova da Iria). Se calhar o desespero é tanto da Igreja como de outras pessoas influentes que negociaram com decisores públicos vários contratos de associação. A Igreja tem-se manifestado ativamente contra as intenções do Governo; as referidas outras pessoas aproveitam o ensejo e colocam-se na sombra.

Com o lobby instalado, porventura não faltará quem ventile constituir uma comitiva lusitana para deslocar-se propositadamente a Roma, com o intuito de falar com o Papa Francisco – aliás, a personalidade que, a meu ver, simboliza fiel e finalmente a missão do catolicismo. No mínimo uma comitiva, pois o melhor mesmo será convencer o Papa a incluir (o assunto dos contratos de associação em Portugal) no discurso feito numa das habituais missas na Praça de São Pedro aos domingos de manhã.

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte VII/VII)

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte VII/VII) (01/05/2016)


G. A importância da liverdade

G.1. A liverdade é a suma felicidade.

88. Nas sociedades democráticas, se os eleitores exercerem a livre e consciente vontade de mudança em prol da verdade – entendida enquanto o benefício (não o seu, mas o) da maioria dos concidadãos –, então pode chegar-se à simples constatação que será atingida a felicidade plena: felicidade em liverdade. Isto não invalida que haja um espectro de causas, de ordem igualmente prioritária, da felicidade, designadamente a saúde, a tranquilidade, o amor ou o dinheiro.

89. Não existe reforma democrática sem desenvoltura para exercer a liverdade. Esta constitui o epílogo da política e da cidadania. Se bem que a política e a politiquice sejam totalmente distintas quanto à dimensão da verdade que anseiam desvendar, não resta dúvida que, pelo menos na derradeira instância, as duas têm, nem que seja de forma implícita, um fim comum: a vitória do poder.

90. Quando o desiderato primacial culminar na consolidação da verdade, a política conhecerá o patamar máximo. Esse momento coincidirá com o desaparecimento da praxis do salvo-conduto politiqueiro, de os politiqueiros afagarem a falta de consciência pulando de legislatura em legislatura e institucionalizando as mentiras do mando nas democracias. No fundo, coincidirá com a entrada na era da promissora e estoica liverdade, sem a qual a cidadania vive despojada de sustentabilidade.

G.2. A liverdade exige transfigurados cidadãos eleitores e remodelados agentes decisores.

91. O caminho para a liverdade é hercúleo, não por exigir remodelados agentes decisores, antes por depender de transfigurados cidadãos eleitores. Tudo em nome da (li)verdade universal, anverso da liberdade democrática. Se, na metamorfose requerida no rumo para a liverdade, crismarem os genuínos políticos de poetas do luminoso sonho, não resta senão ser honesto e reconhecer que os astutos politiqueiros não passam de profetas da sombria realidade.

92. A liverdade permite debelar eficaz e eficientemente a tirania da maioria, talvez o maior mal das sociedades democráticas. São frequentes os casos em que a vontade da maioria viola, ainda que não propositadamente, as regras da verdade (nacional ou universal). Para combater a disfunção democrática acabada de identificar, tem de se dotar a maioria, preferencialmente a multidão, de dois elementos imprescindíveis à liverdade: pão e educação.

93. Recordando a evidência n.º 39 – «Verdade e independência» – inscrita no post «Viagem da Liverdade a Portugal», de abril do ano transato, foi escrito que o pão e a educação são os ingredientes para assegurar a verdade e a independência. Se o Estado, reflexo da sociedade em geral, provir a sua população com os citados dois elementos essenciais que satisfazem as necessidades primárias das democracias, então pode afirmar-se que a sociedade conquistou a feliz liverdade.

G.3. Ante a falta de liverdade, o ótimo possível seria alcançável por senadores da verdade.

94. O ótimo desejável seria, como se depreende, a consolidação de uma comunidade de pensamento livre, crítico mas responsável, e impregnada de verdade, em suma, uma consciente comunidade de liverdade. Embora se devesse, para o efeito, verificar uma adesão universal a essa comunidade, há a consciência que tal universalidade não é concretizável porque nem todos os cidadãos estão munidos do desejo de aceitar voluntariamente tamanho afã.

95. Por conseguinte, em muitas sociedades onde os seus regimes democráticos parlamentares têm sido guiados muito mais por politiqueiros do que por políticos, o objetivo alcançável – o ótimo na perspetiva do que é exequível – tem de passar pela instituição de senadores. Para materializar o ótimo (alcançável), e face à dificuldade de reformular as vontades dos deputados politiqueiros, seria preciso que existisse um poderoso contrapeso assumido por senadores políticos exclusivamente orientados pela e para a verdade.

96. Coloca-se a questão de saber qual o modo de eleição dos senadores. A resposta não é imediata. No entanto, desde logo reunirá alargado consenso a sugestão de efetiva independência partidária, ou seja, seria um bom princípio que não houvesse qualquer vínculo, de facto, entre os senadores e as forças partidárias. Visto que a aproximação deve ser assegurada perante os cidadãos e não os partidos políticos, seria lógico que os senadores fossem eleitos pelo público, tal como o Presidente da República é escolhido por sufrágio direto e universal. Trata-se de uma utopia em democracias normais assentes na liberdade; não em democracias consolidadas assentes na liverdade.

G.4. Na liverdade, a liberdade é o sujeito e a verdade o predicado.

97. A liverdade é o fruto resultante da solidariedade de duas virtudes: uma de caráter quantitativo, a liberdade; e a outra de índole qualitativa, a verdade. A ação é dada pela liberdade de pensamento, ditada nos termos da estima pela verdade, quer a verdade da razão da justiça, quer a da justiça da razão. Apesar de não haver certezas acerca da razão e da justiça – pelo motivo de uma e outra evoluírem –, não se pode advogar a sua irregularidade. Irregulares são as vontades; a razão e a justiça são regulares na medida em que fundamentam-se na verdade.

98. A liberdade e a verdade comunicam-se na mesma língua. Elas são, respetivamente, o sujeito e o predicado da liverdade, o princípio e o final desta. Os pais da liverdade são a razão – razão ou conhecimento – e a justiça, ou melhor, o motor construído da razão e a potência inata da justiça. União duradoura, lacrada pelo respeito mútuo.

G.5. A liverdade simboliza o estádio máximo da razão e o desejo insanável da justiça.

99. A apreensão fácil da liverdade depende da importância da verdade em democracia, o que só se torna possível recorrendo à razão enquanto inteligência lógica. Cumpre pois transformar, através de elementos racionais, a informação em verdade. Se a informação é a matéria-prima e a verdade o produto acabado, a razão é o elemento processado da liverdade. O elemento natural da liverdade é ocupado pela justiça, conforme se infere da ulterior subsecção.

100. É portanto provável – para não substituir «provável» por «inevitável» – que seja anatemizado quem luta pela liverdade. É considerado de louco. Louco irracional, não; louco social, sim. Ambos são loucos porque estão em paz com eles mesmos e em conflito com as regras instituídas – com a praxe doutrinária –, e por isso não recolhem o apreço das pessoas que os rodeiam.

101. O que os distingue será o facto de o louco irracional estar mais atento ao «Eu-Mundo» e o louco social ao «Nós-Nação». Em linha com o parágrafo n.º 58, conclui-se que quem procura a liverdade quer estar tranquilo consigo e com o seu país – e se possível com o Mundo, lar do conjunto de países –, ainda que assim esteja em guerra ou em guerrilha com os seres aparentemente vulgares, apologistas da praxe doutrinária.

G.6. A justiça simboliza o estado máximo da liverdade.

102. A liverdade nasce na razão e desagua na justiça. No recrutamento para a verdade apenas são inelegíveis os seres néscios que não dispõem de inteligência intuitiva para distinguir o bem do mal, a harmonia do caos, a razão da opinião. Exige-se a inteligência lógica, associada à razão, e sobretudo a máxima inteligência intuitiva, ligada à justiça, como já explicado.

103. A justiça implica respeito e bom senso. É a voz e a alma dos que conseguem destrinçar o primeiro do último, o melhor do pior, as virtudes dos defeitos, em suma, a verdade da mentira. Quem dessa virtude dispuser está em condições para se alistar nos pelotões, nas companhias, nos batalhões, nas hostes que a desejem. Alinhamento possível quando a utopia democrática se converter em liverdade efetiva.

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte VI/VII)

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte VI/VII) (30/04/2016)


F. Da politiquice à política

F.1. Na politiquice reinam as certezas, enquanto na política imperam as dúvidas.

71. A politiquice é o coração e a política a cabeça de corpos muito diferentes: corpo da presunção na politiquice, e corpo da modéstia na política. Respetivamente, arrogância em confiar na definhada sabedoria, e humildade em reconhecer a frutuosa ignorância; ou arrogância em responder, e humildade em perguntar. As dúvidas de uns são as certezas de outros.

72. As dúvidas da política consistem na certeza das perguntas, entre elas: «Como atingir o bem coletivo?», ou «Como assegurar o crescimento e o emprego?». Inversamente, as certezas da politiquice correspondem à dúvida das respostas, como sejam: «O bem coletivo atinge-se acabando com os mercados financeiros.», ou «O crescimento e o emprego ficam assegurados através do aumento da justiça social e da promoção da igualdade de oportunidades.» Perguntas convictamente certas e respostas assertivamente duvidosas.

73. Tais exemplos espelham duas realidades opostas. A política caracteriza-se pela reflexão e pelo debate de ideias, ou melhor, de autênticas dúvidas; envolve a análise e o diálogo. A politiquice cinge-se à demagogia e à persuasão de argumentos, ou antes, de falsas certezas; queda-se pela retórica e pelo monólogo.

F.2. Os politiqueiros focam-se na parte e os políticos no todo.

74. Os politiqueiros concentram-se na superfície dos assuntos; os políticos no âmago dos problemas. A classe politiqueira engana com sofismas os cidadãos e assim engana-se a si mesma; a classe política ensina-se a si própria e assim ensina com sinceridade os cidadãos. O que mais os distingue é a carga de verdade – ou de mentira – que as suas decisões (de governo da sociedade) transportam, i.e., a sensatez para dosear a tecnicidade impessoal e a solidariedade interpessoal.

75. Em rigor a solidariedade atrás mencionada não pode restringir-se ao campo interpessoal. Deve abranger – sobrecitado no parágrafo n.º 36 – a harmonia e o respeito entre o indivíduo e o meio que o rodeia, rectius, a relação entre o Homem e a Natureza. Sem a atenção permanente prestada à Natureza, elemento agregador, quiçá paradivino, do futuro, é descabido falar de política, uma vez que não há verdade sustentável se o ser humano não se articular com o ambiente natural e as gerações vindouras.

76. A politiquice conforma-se com a ilusão do empolamento das promessas, enquanto a política não dispensa a constatação da concretização das ações. Os politiqueiros preocupam-se com a aparência e a forma, ao passo que os políticos focam-se na consistência e na substância. Melhor expondo: os politiqueiros empenham-se na consistência da forma, bem como na aparência da substância, e os políticos enfatizam a consistência da substância e desprezam a aparência da forma.

F.3. A politiquice busca a complexidade e a política a simplicidade.

77. Conforme oportunamente deduzido, em política a simplicidade aumenta com a distância do horizonte. Com a politiquice ocorre a deturpada amplificação da simplicidade em complexidade; com a política consegue-se a ditosa redução da complexidade em simplicidade. Todavia, a simplicidade não é sinónima de facilidade; nem a complexidade significa dificuldade. A politiquice pretende não ultrapassar a fácil complexidade; a política pretende desvendar a difícil simplicidade.

78. Logo, para efetivar a robustez social de uma nação, é imprescindível que, quer o eleitorado, quer a classe política, disponham de ânimo (ou dedicação) e capacidade (ou inspiração) para fazer valer a simplicidade da verdade. Para tanto, na fase da análise – que, recorde-se, contempla as etapas da organização e da intuição – importa que o eleitorado nunca perca o espírito crítico para separar a verdade da mentira, e que a classe política tenha em conta os vários tipos de correlações existentes. A classe política deve ter presente que a matriz de correlações da verdade reduz a complexidade em simplicidade, e que o vetor – não uma matriz – de elementos independentes da mentira amplifica a simplicidade em complexidade.

79. Não obstante a abordagem combinatória dos átomos da realidade (sejam verdadeiros ou falsos) aparentar ser difícil, a realização de uma abordagem do género revela-se um exercício fácil. Fácil porque do exercício extrai-se uma solução possível – entre as inúmeras que os arranjos ou as combinações permitem –, pelo que não se justifica o gáudio feito à sua volta quando se apresenta essa solução.

F.4. Os politiqueiros partem do engano da verdade; os políticos da ausência da verdade.

80. Sendo a verdade o resultado molecular de um exame minucioso de inúmeros elementos objetivos, não é de estranhar que, para obter uma solução correta – portanto verdadeira –, haja necessidade de despender demasiada dor e enorme esforço. Mas cumpre realçar – em linha com o referido na parte final do parágrafo n.º 45 – que se a verdade é penosa, a mentira revela-se ainda mais.

81. Os genuínos políticos fecham-se em si para abrirem-se aos outros; os astutos politiqueiros, porque se abrem apenas a si, precisam de se fechar aos outros. Dado que a descoberta da verdade decorre de uma tarefa laboriosa, denota-se uma manifestação distinta de atitude entre eles. Perante a ausência da verdade, os genuínos políticos sentem angústia; perante o engano da verdade, os astutos politiqueiros sentem regozijo. No domínio da verdade, a angústia é relativa, pois a angústia inicial passará a regozijo final; no domínio da mentira, o regozijo é efémero, pois o regozijo inicial passará a angústia final.

82. Com efeito, por a fase da análise exigir assaz transpiração, tanto na etapa da organização como na da decisão – traga-se à colação B.6 –, então é normal que, até encontrarem um caminho válido para a verdade paracientífica, os seus descobridores ou investigadores sintam laivos de desânimo ou angústia por não alcançarem o bem coletivo. Não admira por conseguinte que, após árdua avaliação das vontades, em que se separa adequadamente a flor da verdade da escória da mentira, eles sejam apoderados de um amplo regozijo.

F.5. A opinião não pode representar a verdade porque conhece fases de avanços e recuos.

83. A verdade, por ser objetiva, evolui sempre, avança constantemente; a opinião, por ser subjetiva, tantas vezes ora avança ora recua. Uma verdade que, num momento específico, é considerada total, posteriormente pode passar a verdade parcial, dado que a realidade altera-se. Igualmente pelo motivo de alteração da realidade, verificam-se casos nos quais a verdade parcial transforma-se em verdade total.

84. Deste modo, embora a verdade e a opinião sejam transitórias – válidas unicamente para uma área geográfica e para um horizonte temporal algo restritos –, a verdade será constante e a opinião será volátil. A verdade é política porque requer o constante bom senso; a opinião é sobretudo politiqueira porque subsiste com volátil sensibilidade. Frise-se porém que certas opiniões são proveitosas: as que provêm do pensamento e se materializam em verdade – parágrafo n.º 62.

F.6. Muitas opiniões são politiqueiras; somente algumas são políticas.

85. À partida não haveria opiniões erradas, já que elas comportam, em maior ou menor grau, algum fundamento verdadeiro. Claro que se pressupõe a presença de um mínimo de boa-fé nas opiniões proferidas. Afere-se a boa ou a má-fé das opiniões não enquanto conhecimento provado mas enquanto jactância de validade (isto é, desde que despidas de altiva assunção de validade, uma opinião desprovida de sustentação lógica não carrega má-fé).

86. A política funciona de maneira semelhante à de uma câmara de compensação central, onde algumas opiniões, partículas da verdade atomizada – umas partículas são bastante visíveis e outras deveras impercetíveis –, são profundamente convertidas em verdades totais. Conclui-se que afinal, mesmo no alto da boa-fé, existem opiniões corretas mas muitas são erradas.

87. Repita-se: as opiniões erradas não o serão quanto à fé duvidosa ou malsã que incorporam. Sê-lo-ão sim pela utilidade que lhes é dada. No âmbito da política, as opiniões são válidas porque constituem matéria-prima do mecanismo de construção da verdade. Ao invés, no domínio da politiquice as opiniões são nocivas para o regime democrático e para a opinião pública, pois são entendidas e tratadas como produto final, passando por fora do mecanismo de construção da verdade.

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte V/VII)

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte V/VII) (29/04/2016)


E. O papel do pensamento

E.1. O melhor serviço que os cidadãos podem prestar a um país é pensar verdade.

57. A consolidação da liverdade ultrapassa deveras a exigência da verdade. Para além desta exigência, a liverdade requer a afirmação do pensamento na verdade. Pensar (na) verdade equivale a aspirar o bem privado – individual ou corporativo –, desde que o ente coletivo possa igualmente usufruir desse bem. Enfim, a afirmação do pensamento impõe apenas que a maioria dos cidadãos preste o patriótico serviço humilde de dispor de capacidade para identificar que, em política, a soma das partes pode ficar muito atrás do todo potencial.

58. Não é pois surpresa que os indivíduos que pensam verdade sofrem mais da sua vitalidade do que beneficiam da amizade de outrem. A vitalidade brota da firme preocupação ou porventura do sólido amor depositados no bem nacional e no consequente combate a interesses contrários a esse bem nacional, o que não raras vezes causa dissabores e desarticulações sociais, laborais e familiares. O combate pode inclusive abranger a abnegação dos interesses particulares, epítome da liverdade.

59. Não há democracia consolidada sem liverdade sustentável; não há liverdade sustentável sem cidadania plena; e não há cidadania plena sem pensamento na verdade. Defender a democracia consolidada, ou a liverdade sustentável, ou a cidadania plena, ou o pensamento na verdade representa em primeira instância proteger a pátria acima do povo, porquanto, no atinente à verdade, não é normal os interesses da nação coincidirem ou sequer convergirem com os interesses da multidão. Há a esclarecer que isto sintoniza-se – embora não pareça – com o conteúdo do post «Muita Pátria e pouco Povo», de agosto de 2015. No início da sua última secção, «Epopeia do séc. XXI», realçou -se que «o excelso Povo tem sido sistematicamente generoso com a Pátria mas nem sempre consigo próprio. Para si próprio tem mostrado, com alguma frequência, ser individualista, dado que está por alcançar a obra de pensar como um todo indivisível.»

E.2. O pensamento é o sexto sentido.

60. Obter-se-á a política desejável se os eleitores focarem a sua atenção no coletivo, ao invés de o enfoque fluir para o indivíduo ou a corporação – admitindo a validade (que deve ser inviolável) do pressuposto que os políticos, os supremos defensores do coletivo, terão suficiente sagacidade para salvaguardar os legítimos e proporcionais interesses dos cidadãos em função da proteção que cada um destes interesses merece. Apesar de aquela política desejável poder ser considerada algo utópica, um estádio anterior é perfeitamente atingível: a política ao mesmo tempo honesta entre as pessoas e equilibrada entre cada pessoa e o coletivo. Se os políticos atuarem convenientemente, pensando de forma idêntica à dos eleitores, a verdade é ainda mais consistente ou até inteligente – parágrafo n.º 17.

61. Quando os indivíduos, incluindo os eleitores e os políticos, pensam com equidade e humildade, automaticamente irrompe um sexto sentido. Daí a importância da equidade e da humildade, o pão e o conduto da liverdade, através dos quais surge um processo metamórfico subtil: a energia e o espírito robustos nascem com a vontade, crescem com a análise e morrem com a verdade. Não existe verdade sem pensamento. Há quem não o possua – lamentavelmente sucede com os demais sentidos. Por conseguinte, pensar na verdade constitui o devir da energia e do espírito. Energia positiva e espírito crítico.

62. O conhecimento é o ensino teórico e a justiça a aprendizagem prática. Um e outra exigem o exercício de pensar e transmitir verdade. Ao emitirem se opiniões, também se pode pensar, procurando transmitir verdade – transmissão que vulgarmente não ocorre, por carência de utilidade. (Conforme se referirá, para aqui só interessam as opiniões desinteresseiras, isentas de má-fé.) A missão da política consiste em distinguir os pensamentos convergentes com a verdade dos pensamentos divergentes da verdade.

E.3. O pensamento funda-se simultaneamente num direito e numa obrigação.

63. A verdade, que em geral é intrínseca ao nascimento dos seres humanos – porque se revela em vontades expurgadas de segundas intenções –, mingua com a idade e tenta impor-se quando a consciência prevalece. Neste processo cíclico da verdade, o fundamental não é pensar na muche – até porque o alvo, por progredir no espaço e no tempo, revela-se mutável –, mas antes ter a noção onde se situa o alvo e dispor da garantia que a carreira de tiro encontra-se livre. Na fase minguante não é a classe politiqueira que escolhe a cegueira da mentira; é a cidadania eleitoreira que receia o pensamento na verdade.

64. O pensamento é um direito, enquanto liberdade, e também uma obrigação, enquanto responsabilidade. Numa sociedade coesa e organizada, sem embargo de o povo estar endividado, em dinheiro e em valores, não pode haver dívida perante o pensamento. O pensamento na verdade é o domínio da função liverdade. O contradomínio da função é a razão e a justiça.

E.4. A retoma da verdade culmina sob o norte da energia de pensamento.

65. Como decorre do penúltimo ponto, na idade da inocência a verdade abunda e, com o crescimento do indivíduo, vai-se misturando com (ou modificando em) a mentira. É portanto essencial que impere a consciência para pôr a verdade na ordem do dia, processo que gera a retoma da verdade. Para o novo ciclo de apego à verdade, é imprescindível a intervenção de cidadãos e de políticos. Com efeito, somente mediante um acordo vincado entre eleitores e eleitos para defender e promover a verdade se granjeia a sua restauração ou reincarnação.

66. O triunfo final da verdade, símbolo do valor coletivo, alcança-se com cidadãos cuja matéria é formada, mais do que pelo vigor da vontade em alcançar a verdade, ou até pelo esforçado aprumo da sua conduta moral, pela energia de pensamento que permite romper com o statu quo. Em inúmeras pessoas a matéria e a energia são imiscíveis, como se a matéria fosse incorpórea e a energia corpórea. Apenas os cidadãos dotados de um renovado espírito crítico dispõem da inovadora energia de pensamento.

E.5. A vontade do povo é o input das relações humanas e o pensamento deve ser o output.

67. O input da vontade é sensivelmente idêntico de sociedade para sociedade. O output do pensamento é porém bastante distinto, consoante o tipo de sociedade. A política será apanágio das sociedades maciças e, por ela ser uma prática paracientífica, eleva a vontade à verdade – releia-se C.1. Contrariamente, a politiquice será típica de sociedades ocas e, por ser um exercício de demagogia, reduz a vontade à mentira. Os povos que querem descobrir a verdade pensam e elegem políticos; os que querem iludir- se com a mentira resignam-se e elegem politiqueiros.

68. Não se pede que a maioria do eleitorado tenha presente as correlações da verdade e da mentira evocadas no parágrafo n.º 32 – tarefa que cabe aos agentes políticos. Basta bom senso para saber conviver com a verdade e comunicar com a mentira. Bom senso, adicionado de modesta dedicação e de parca inspiração, cumpre reconhecer. É mais simples do que parece, pois quem dispõe do sentimento universal de justiça tem em si o bom senso, e existindo bom senso não falta a dedicação necessária ao pensamento. Por seu turno, havendo alguma dedicação ao pensamento, logo acorda a inspiração natural, que conduz inevitavelmente ao nascimento da inspiração construída.

E.6. O pensamento é um íman que atrai a verdade e repele a mentira.

69. O pensamento suscita a alteração de uma vontade numa verdade. Com recurso à inteligência – muito mais do que a associada ao conhecimento – e à sensatez, as ideias ou opiniões iniciais transformam-se em produtos finais úteis para a sociedade. O pensamento consegue enriquecer fúteis interesses individuais ou corporativos em verdades agraciadas pelo interesse coletivo.

70. Pelo que tem sido explicado, o pensamento tem um papel de charneira na política: constitui o elemento indutor do processo de formação da verdade paracientífica. O pensamento tem de ser vigilante porque importa atender quer à verdade, para a atrair, quer à mentira, para a repelir. Contudo, tal como um íman está sujeito a desmagnetizar-se, o pensamento perderá qualidades se não for atualizado e adaptado à evolução da realidade.

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte IV/VII)

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte IV/VII) (28/04/2016)



D. Verdade versus mentira

D.1. A verdade é o seu autoalimento e a arma contra a mentira.

43. A verdade alimenta-se a ela própria porque – repita-se – é causa e efeito de si mesma. Se ela é utilizada para se fortalecer, inevitavelmente enfraquece a mentira. Mas o enfraquecimento também ocorre no seio da verdade. Na subsecção C.6 tocou-se ao leve o lado reverso da verdade flácida: a verdade imóvel cria ervas daninhas. Analogamente aos rapaces altaneiros, que planam de modo suave e discreto sem serem detetados pelas presas incautas, a mentira sobrevoa a sociedade e frequentemente não é sentida pelos radares da maioria dos cidadãos. A mentira destrói-se no instante em que os radares da verdade a identificam.

44. Impõe assim refletir sobre o que requer maior esforço: a mentira levantar voo e sobrevoar até reunir condições para atacar; ou a verdade estar munida de radares atualizados e antecipar-se às ameaças. Os radares da verdade exigem – explicar-se-á no parágrafo n.º 68 – bom senso, dedicação e inspiração.

45. O bom senso é inquantificável – não é diminuto nem excessivo –; é unicamente existencial – ou há ou não. Inversamente, a dedicação e a inspiração são mensuráveis. É inequívoco que a verdade custa alguma dedicação e uma ligeira inspiração; só que a mentira dá trabalho acrescido, quer em dedicação, quer em inspiração. Logo, o esforço para a construção da mentira é incomparavelmente maior do que o necessário para a edificação da verdade.

D.2. Na política não há meias verdades nem meias mentiras.

46. Para efeitos do bem comum, não se conhecem nem meias verdades nem meias mentiras. Somente ou verdades ou mentiras, nada mais. Uma tese que contenha por exemplo 70% de argumentos verdadeiros – ou 30% de argumentos falsos – é talvez apodada de verdadeira no campo da politiquice conjuntural, contudo é irremediavelmente qualificada de falsa no contexto da política séria (ou genuína, usando o adjetivo que vem sendo adotado). Terminar um argumento com uma verdade parcial corresponde a iniciar outro com uma mentira total.

47. Tal não significa que todas as meias verdades – ou as mentiras totais, se se quiser – sejam inúteis. Ainda que de segunda ordem, elas terão a utilidade de, se forem pré-verdades, servirem para construir verdades reforçadas, em resistência e fundamentação, portanto conscientemente aceites pela maioria dos cidadãos. Todavia, se por um lado importa reconhecer que certas meias verdades, ou determinadas mentiras, podem ser aproveitadas – à semelhança da existência de resíduos que são úteis, como se mencionará mais adiante –, por outro não deixa de ser um facto que a maior parte das meias verdades é vã e o maior número das mentiras é vil.

D.3. As meias verdades não se completam com outras meias verdades.

48. A anterior epígrafe parece contraditória com a de D.2, pois se se afirma que «não há meias verdades nem meias mentiras», então seria desprovido de lógica defender que «As meias verdades não se completam com outras meias verdades» já que em rigor não existem meias verdades. As duas ideias não são paradoxais porque referem-se a âmbitos diferentes: apenas a primeira cinge-se ao âmbito da política séria.

49. O mesmo argumento de meia verdade, à luz do que foi justificado no antepenúltimo ponto, pode indicar verdade total num contexto – no da politiquice – e mentira completa noutro – no da política. É o motivo por que uma meia verdade é perigosa e por norma deve ser banida – com a exceção entretanto salientada. As meias verdades não se combatem com outras meias verdades; podem ser enfrentadas exclusivamente com verdades totais. A verdade é a pacífica bateria antiaérea que destrói o míssil da hostil mentira.

D.4. A evolução da verdade depende do conhecimento da mentira.

50. A verdade traduz um conceito espacial e temporal que evolui e vai sendo desvendado por decorrência do conhecimento da mentira. Conhece-se a verdade total, a nacional ou a universal, se se cumprirem dois momentos. Primeiro, é preciso entrar cautelosamente tanto na verdade parcial como na mentira, seja esta total ou parcial, para conhecê-las. Depois, é essencial saber sair corajosamente delas.

51. São vulgares os círculos viciosos em que as verdades parciais antecedem as mentiras parciais, e vice-versa, pelo que só com a rutura destes círculos é possível conquistar a verdade total. Consumada uma osmose de prioridades entre eleitores e eleitos, a verdade política será mais facilmente obtida. Não se atinge o consenso ou o arquétipo da verdade – no campo da verdade não há consensos ou arquétipos –, mas reduzem-se drasticamente os dilemas quanto aos caminhos a trilhar.

52. A verdade é a concertação – conceito oportunamente explicitado – fabricada manualmente e por medida. Ao contrário do som uniforme de uma orquestra de música clássica, passível de ser laboratorialmente repetido até à exaustão – e daí a parecença com as experiências científicas –, a riqueza do jazz exige que este seja criado e vivido no momento e não aceita a reprodução de cópias. Os políticos que confundem música clássica com jazz, se bem que não sejam necessariamente astutos politiqueiros, estão longe de ser genuínos políticos.

D.5. A verdade constitui uma equação sem solução única.

53. A genuína política deriva de uma tarefa árdua de otimização, cujo desígnio é – refira-se novamente – aproximar ao máximo o desejável do realizável, encontrando-se este último condicionado a uma miríade de restrições de diversa natureza, consoante o horizonte traçado. A política é uma paraciência de onde emanam resultados adequados, e não uma ciência que produz teses algo lineares e tendencialmente intemporais.

54. Desconhece-se uma fórmula transversal ou uma solução única para descobrir a verdade, desde logo porque esta não é constante. Nem a verdade é constante nem a mentira. Face a tal inconstância, impõe avaliar-se a utilidade quer da verdade quer da mentira. A utilidade da verdade é autoexplicativa; a da mentira passa, como a seguir se apresenta, pela possibilidade de ser a energia criadora de outra verdade.

D.6. A verdade é a virtude da energia e a mentira o resíduo do consumo de energia.

55. A verdade somente é uma virtude enquanto a consistência não fraquejar – vide parágrafo n.º 41. Jamais viverá ao sabor de movimentos discretos; tem de ser continuamente exalada pelos cidadãos. Ela não é um mero fim em si mesmo. Deve ser a conduta de vida, o alicerce do quotidiano, a matriz de pensamento. É o alfa e o ómega da energia útil.

56. Em contrapartida, a mentira é o resíduo do consumo de energia. Conforme sucede com quaisquer resíduos, a maioria deles é inutilizada; mas existem resíduos que são aproveitados para produzir nova energia. Há mentiras que, após serem submetidas a um processo de reconstrução da verdade, metamorfoseiam-se em energia útil. Assim, a mentira pode ser o nascimento da verdade, ao passo que a verdade é sempre o falecimento da mentira.

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte III/VII)

Da semente da verdade ao fruto da liverdade (parte III/VII) (27/04/2016)


C. A formação da verdade paracientífica

C.1. A política transforma as múltiplas vontades numa una verdade.

29. Apesar de ser quase impossível encontrar a solução da verdade onde todos os cidadãos – sem exceção – saiam beneficiados, isso não atribui autoridade para defender a multiplicidade da verdade. A multiplicidade caracteriza as vontades. Ao invés, a unidade é intrínseca à verdade, como solução válida – a mais válida – para um conjunto de pontos no espaço e no tempo, um dos motivos pelos quais a política é paracientífica.

30. No entanto, para que a unidade da verdade se imponha, não basta a validade da solução encontrada acima citada. Importa acrescentar a interiorização – ou aceitação – por parte dos eleitores. A diversidade de vontades, ora convergentes ora divergentes entre si, dá lugar à unidade, não consensual mas concertada, da verdade – vide B.1 –, o que consiste no segundo motivo para a política ser paracientífica. Existe verdade una quando as medidas por que os políticos enveredam são aceites pela generalidade dos eleitores, aceitação tomada – sublinhe-se – em ascética consciência do futuro e não por cobarde conveniência do presente.

C.2. A verdade é una mas divisível, em que uma parte revela-se e a outra procura-se.

31. A unidade da verdade paracientífica compõe-se de duas partes: a visível e a invisível. A parte visível manifesta-se através dos interesses parcelares dos eleitores; a parte invisível decifra-se. Cabe aos políticos decifrá-la, procurando o caminho para o interesse nacional, mesmo que este último possa não assumir um caráter internacional ou universal. Os politiqueiros canalizam a parte invisível da verdade para a parte visível dos interesses privados (individuais ou corporativos).

32. Entre as componentes constituintes da verdade, surgem interações de forças positivas e negativas. A unidade da verdade vai muito para além ou fica muito aquém da soma das partes, consoante as correlações sejam, respetivamente, positivas ou negativas, i.e., convergentes ou divergentes. As correlações da verdade transformam a mentira caótica em verdade organizada, ao passo que as correlações da mentira transformam a verdade potencial em mentira efetiva.

C.3. Quanto mais distante o horizonte, maior a simplicidade.

33. A política, enquanto ramo paracientífico multidisciplinar, caracterizar-se-á de alfanumérica. Por analogia, se a política é alfanumérica, a politiquice é alfabética e a ciência numérica. Alfabética unicamente no desprestigiante sentido retórico – e não no atinente ao uso virtuoso do alfabeto para descrever e fundamentar argumentos válidos – e numérica apenas no contexto da infalibilidade. Note-se que, por as ciências – exatas ou sociais – buscarem incessantemente a validade perfeita da verdade, procuram ser infalíveis.

34. Ao contrário das ciências, em que o conhecimento obtido é tanto maior quanto mais altos forem os ombros dos gigantes onde os cientistas se apoiam – alusão à resposta humilde dada por Isaac Newton para justificar as façanhas por si atingidas –, nas paraciências tal não sucede. Nas paraciências, nomeadamente na política, a altura não é numérica mas alfanumérica, e mede-se de um modo assaz diferente: a distância do horizonte, vista preferencialmente na perspetiva vertical – daí a expressão «verticalidade do infinito horizonte», na parte inicial do ponto 6.

35. Não obstante as barreiras levantadas – recordem-se as duas últimas palavras do parágrafo n.º 5: «obstáculos erguidos» –, é do início do horizonte que se descobre a simplicidade. O pensamento – abordado na secção E – comporta porventura a maior simplicidade. A simplicidade é arrastada pelo pensamento preso à verdade; não pelo desleixo associado à mentira. O horizonte desvenda-se portanto com a reflexão democrática e não com o sectarismo rebuçoso. Na simplicidade da verdade não entram nem as seitas nem os milagres; exclusivamente têm lugar as ideias transparentes produzidas por cérebros independentes. A reflexão democrática liberta a verdade; o sectarismo rebuçoso aprisiona-a.

C.4. A verdade resulta da articulação entre conhecimento e justiça.

36. O limite da verdade política não se restringe ao sonho ou a quejandas utopias, inclusivamente porque a verdade em apreço é a possível e não a ideal. O limite é antes a realística e alcançável justiça, que transvasa o respeito pela lei e desagua no respeito pelo Homem e pela Natureza. Se a justiça é o limite da verdade, a base é o conhecimento.

37. O conhecimento apela à organização; a justiça necessita de intuição. A justiça é o espelho da terrena inteligência suprema; o conhecimento, proxy da razão, sintetiza em simultâneo a humildade e a multidisciplinaridade. O conhecimento é a dimensão da verdade que se ensina – transmite-se pela escrita e pela leitura. A justiça é a dimensão da verdade que se aprende – transmite-se pelo comportamento e pelo exemplo.

C.5. A verdade implica autorreflexão e, em seguida, introspeção social e nacional.

38. A quem procura a verdade exige-se que faça primeiro uma autorreflexão à sua conduta – «comportamento» e «exemplo» atrás frisados –, e depois uma dupla introspeção, sobre a articulação entre os cidadãos e a sociedade, e sobre o bem coletivo. Por fim, deve efetuar uma sólida investigação dos assuntos e um responsável exame das consequências das medidas a tomar. Eleitores e políticos devem inspirar conhecimento e expirar justiça.

39. Como se depreende, impõe-se que a justiça tenha uma dimensão multifacetada: desde a justiça entre as pessoas até à justiça entre elas e o Estado, passando pela justiça – abordada no antepenúltimo ponto e também em F.2 – entre elas e a Natureza. Formas de justiça no fundo interligadas, pois se, no âmbito da justiça entre as pessoas, deve haver respeito pela liberdade individual e assim é permitida a criação de riqueza fundada no mérito, paralelamente, no âmbito da justiça entre as pessoas e o Estado, os agentes públicos devem assegurar a dignidade individual e a proteção dos concidadãos mais pobres.

C.6. A melhor verdade reproduz-se.

40. Não existem verdades prejudiciais. Porém, umas são melhores do que as demais: as melhores são as que se propagam no espaço e no tempo. A verdade é uma virtude que se reproduz se for semeada corretamente e bem tratada. Se, mesmo que semeada corretamente, não for bem tratada, definhar-se-á e, enquanto morre, nascerá a debilitada mentira.

41. É neste movimento minguante da verdade que cresce a oportunidade para a brenha poluente de meias verdades, antecâmara das mentiras. A astuta politiquice está sempre à espreita do abrandamento da genuína política. A quietude da verdade é por si só um fator incentivador para o seu involuntário esmorecimento.

42. Embora não haja verdades más, ninguém pode defender com garantia a validade definitiva de qualquer verdade. Apenas os politiqueiros mitómanos ousam defender a garantia de verdades. As verdades acabadas, vendidas como garantidas, de tão fingidas que são, constituem um gérmen das mentiras. Somente na política ou noutras paraciências se procuram as verdades asséticas, limpas de gérmenes da mentira. Nem na ciência se conhecem verdades acabadas. Aliás, advogar verdades eternas ou inquestionáveis equivale a reconhecer a estagnação do conhecimento científico.

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