terça-feira, 12 de novembro de 2024

Teresa Silva Carvalho, Manuela de Freitas e «Balada para Um Súbdito»


Teresa Silva Carvalho

Fadista e cançonetista, compositora, mensageira de causas justas, assim pode ser resumidamente descrita Teresa Silva Carvalho no domínio artístico. Para o seu repertório de meia centena de fados e canções gravados em disco – excluindo as regravações –, Teresa Silva Carvalho foi bastante seletiva na escolha dos poetas em cujas palavras pretendeu colocar, através da voz e da música, o seu espírito criativo e o seu sentimento cívico.

Escolheu uma qualidade poética superior, e pontualmente chamou a si temas populares. Para além disso quis diversificar, interpretando um poema de cada autor, conquanto tenha repetido alguns deles. Cantou duas vezes Florbela Espanca e Mário de Sá-Carneiro, e três vezes Fernando Pessoa. E cantou cinco temas diferentes da autoria do seu amigo José Afonso (em 1977) – portanto, não contando com a gravação, outrossim em 1977, do tema «Verdes São Os Campos», também uma criação de José Afonso (com letra de Luís de Camões e música do próprio de José Afonso) – e da sua amiga Manuela de Freitas (em 1969 – 3 vezes –, 1971 e 1976).

Manuela de Freitas

Para o público, Manuela de Freitas é mais conhecida pela vida de atriz dedicada ao teatro do que pelo papel de letrista de fados e canções maravilhosos. Em 1972 foi co‑fundadora do teatro «A Comuna - Teatro de Pesquisa». Depois do 25 de Abril, trabalhou nesse teatro com José Mário Branco, após o regresso deste do exílio, o seu companheiro a partir de 1979 e a quem ensinou a gostar do bom fado. Antes de tudo isso já o fado se havia entranhado no corpo e na alma da atriz, fado que tornou não somente a sua representação ainda mais enfática, como também a sua escrita ainda mais singular.

Conforme consta do texto redigido por Manuela de Freitas intitulado «Ofícios Inquietos» – incluído no livro «O Fado e o Teatro» (2013), co‑produzido pelo Museu do Fado e pelo Museu Nacional do Teatro (Museu Nacional do Teatro e da Dança desde janeiro de 2015) –, «Como o actor se torna autor do texto que representa, o fadista torna‑se autor do fado que canta.» As palavras de um fado ou de uma canção estão para o texto de uma peça, assim como a música do fado ou da canção cantado pelo artista está para a encenação representada pelo ator.

«Balada para Um Súbdito»

Com o aprumo artístico que a caracteriza, Teresa Silva Carvalho representou em apenas cerca de dois minutos e um quarto a peça musical «Balada para Um Súbdito», um poema escrito por Manuela de Freitas sob a forma de redondilha menor, composto por cinco quadras de incisiva crítica social, musicado pela própria artista, e integrado no seu quarto EP, editado em 1971 pela discográfica Movieplay. Depois de três EP – um em 1967 e dois em 1969 –, todos contendo fados tradicionais (com exceção do fado musicado composto por Teresa Silva Carvalho para o soneto «Amar» de Florbela Espanca), o citado EP de 1971 não dispôs de qualquer fado; das quatro faixas, três foram musicadas por Teresa Silva Carvalho, entre elas a «Balada para Um Súbdito».

A riqueza e a versatilidade do poema são tais que é possível sintetizá-lo plenamente recorrendo aos dois primeiros versos da primeira quadra e aos dois últimos da derradeira quadra: «Para ter umas luvas / As mãos amputei / Só a morte é minha / Que a vida é do rei»

É difícil acreditar que essa canção social e politicamente tão acutilante não haja sido censurada. Porventura a censura entendeu que Manuela de Freitas, por ser tão direta na imagem colocada nas suas palavras simples e transparentes, tenha escolhido como alvo a monarquia, e não o poder ditatorial (que viria a estatelar-se cerca de três anos mais tarde, em 1974). Tratar-se-á de uma hipótese não confirmada, mas certamente bastante lógica e plausível, por estar alinhada com a estratégia de contracensura só ao alcance de poucos poetas e interiorizada por um punhado de artistas.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Fresbook e não Facebook do FRES

Fresbook e não Facebook do FRES   (25/04/2020) O FRES - Fórum de Reflexão Económica e Social sempre foi um Grupo plural para o lado...