Teresa Silva Carvalho
Fadista e
cançonetista, compositora, mensageira de causas justas, assim pode ser
resumidamente descrita Teresa Silva Carvalho no domínio artístico. Para o seu
repertório de meia centena de fados e canções gravados em
disco – excluindo as regravações –, Teresa Silva Carvalho foi
bastante seletiva na escolha dos poetas em cujas palavras pretendeu colocar,
através da voz e da música, o seu espírito criativo e o seu sentimento cívico.
Escolheu uma qualidade
poética superior, e pontualmente chamou a si temas populares. Para além disso
quis diversificar, interpretando um poema de cada autor, conquanto tenha
repetido alguns deles. Cantou duas vezes Florbela Espanca e Mário de
Sá-Carneiro, e três vezes Fernando Pessoa. E cantou cinco temas diferentes da
autoria do seu amigo José Afonso (em 1977) – portanto, não contando
com a gravação, outrossim em 1977, do tema «Verdes São Os Campos», também uma
criação de José Afonso (com letra de Luís de Camões e música do próprio de José
Afonso) – e da sua amiga Manuela de Freitas (em 1969 – 3
vezes –, 1971 e 1976).
Manuela de Freitas
Para o público,
Manuela de Freitas é mais conhecida pela vida de atriz dedicada ao teatro do
que pelo papel de letrista de fados e canções maravilhosos. Em 1972 foi co‑fundadora
do teatro «A Comuna - Teatro de Pesquisa». Depois do 25 de Abril,
trabalhou nesse teatro com José Mário Branco, após o regresso deste do exílio,
o seu companheiro a partir de 1979 e a quem ensinou a gostar do bom fado. Antes
de tudo isso já o fado se havia entranhado no corpo e na alma da atriz, fado
que tornou não somente a sua representação ainda mais enfática, como também a
sua escrita ainda mais singular.
Conforme consta do
texto redigido por Manuela de Freitas intitulado «Ofícios
Inquietos» – incluído no livro «O Fado e o Teatro» (2013), co‑produzido
pelo Museu do Fado e pelo Museu Nacional do Teatro (Museu Nacional do Teatro e
da Dança desde janeiro de 2015) –, «Como o actor se torna autor do texto
que representa, o fadista torna‑se autor do fado que canta.» As palavras de um
fado ou de uma canção estão para o texto de uma peça, assim como a música do
fado ou da canção cantado pelo artista está para a encenação representada pelo
ator.
«Balada para Um Súbdito»
Com o aprumo artístico
que a caracteriza, Teresa Silva Carvalho representou em apenas cerca de dois
minutos e um quarto a peça musical «Balada para Um Súbdito», um poema escrito
por Manuela de Freitas sob a forma de redondilha menor, composto por cinco
quadras de incisiva crítica social, musicado pela própria artista, e integrado
no seu quarto EP, editado em 1971 pela discográfica Movieplay. Depois de três
EP – um em 1967 e dois em 1969 –, todos contendo fados
tradicionais (com exceção do fado musicado composto por Teresa Silva Carvalho
para o soneto «Amar» de Florbela Espanca), o citado EP de 1971 não dispôs de
qualquer fado; das quatro faixas, três foram musicadas por Teresa Silva
Carvalho, entre elas a «Balada para Um Súbdito».
A riqueza e a
versatilidade do poema são tais que é possível sintetizá-lo plenamente
recorrendo aos dois primeiros versos da primeira quadra e aos dois últimos da
derradeira quadra: «Para ter umas luvas / As mãos amputei / Só a morte é minha
/ Que a vida é do rei»
É difícil acreditar
que essa canção social e politicamente tão acutilante não haja sido censurada.
Porventura a censura entendeu que Manuela de Freitas, por ser tão direta na
imagem colocada nas suas palavras simples e transparentes, tenha escolhido como
alvo a monarquia, e não o poder ditatorial (que viria a estatelar-se cerca de
três anos mais tarde, em 1974). Tratar-se-á de uma hipótese não confirmada, mas
certamente bastante lógica e plausível, por estar alinhada com a estratégia de
contracensura só ao alcance de poucos poetas e interiorizada por um punhado de
artistas.

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