quarta-feira, 1 de julho de 2020

Pássaro democrático

Pássaro democrático (06/04/2015)



Constatei que no arvoredo perto da minha casa a passarada tem vivido assaz encantada. Agora muito mais do que noutras ocasiões. Os ornitólogos responderão que o meu conhecimento é inimigo da Natureza, por ser perfeitamente normal os pássaros ostentarem maior agitação e exibirem acrescida energia a partir do início da primavera, estação de nascimento de todas as esperanças. É verdade que sou leigo em ornitologia, mas não tanto assim ao ponto de ignorar a relação natural entre as aves e a época primaveril.

A minha dúvida residia noutra sede: no estado de espírito dos bicos e das asas. Consegui chegar à fala com o pássaro de meio palmo que se afeiçoou ao parapeito duma janela da minha casa. Apesar de fleumático, próprio das almas livres e senhoras de si, deu-me ouvidos quando argumentei que o facto de ele pousar no parapeito daquela janela e lá fazer tudo o que a sua vontade comanda era motivo bastante para depositar em mim alguma confiança.

Ainda que respondendo com nítidos sinais de afirmação e alguma inabalável altivez, intrínsecos às aves na primavera, admitiu anuir ao meu pedido: realizar uma reunião com alguns elementos do bando dos bicos e das asas contentes, no local e à hora por si fixados. O pássaro – como sou leigo em ornitologia, desconheço a espécie – avançou imediatamente que se eu pretendesse reunir com eles, teria de ser num espaço virtual, pois não estavam disponíveis para reuniões presenciais, tamanho o tempo que absorve a sua dedicação à alegria.

Não tive outra alternativa senão concordar com ele. Combinámos logo nesse preciso momento a data do encontro à distância. Vieram o dia e a hora marcados e lá estava o meu vizinho, ladeado por outros camaradas de voo. Foi uma conversa profícua para mim, através da qual pude ter uma noção sobre quem, apesar de pequeno, dispõe dum raio de visão muito maior e melhor do que o meu e os da minha espécie. Os pássaros, para sobreviverem e vencerem, têm necessidade de pensar superior e lateralmente. Ao invés, eu e os da minha espécie insistimos em viver e perder nos patamares inferiores e centrais que escolhemos.

Não querendo cometer inconfidências – porque são seres deveras discretos e pediram-me que fosse parcimonioso no relato que efetuasse da reunião –, confessaram-me que o ímpeto de entusiasmo, crescente até ao próximo dia 25 de abril, constitui unicamente o hino melodioso da liberdade, dedicado aos seus antepassados do pensamento democrático. Autorizaram-me todavia a divulgar, se tal pretendesse, a letra do chilreio, a qual foi criada por um versífero patrício de asas feridas no antanho da ansiada democracia. Agradeço copiosamente ao pássaro do parapeito, vizinho fiel, tão ignoto e invulgarmente nobre.

     Do destino isolado

     Colocada fui na cave
     Subi alto em todo o lado
     Voo ástreo coroado
     Decisão de risco grave

     Meu silêncio pressentiram
     Andorinha no exílio
     Mesmo longe bem ouviram
     Aprenderam o que queriam
     A coragem trouxe auxílio

     A saudade tudo arrasa
     Quanta lágrima caiu
     Fiquei ferida numa asa
     Todavia vim para casa
     Nem o vento descobriu

     Sofri tanto; longo apuro
     Mas matei a velha idade
     Enterrei um país duro
     Levantando o hino puro
     Da eterna liberdade

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