sábado, 27 de junho de 2020

Império dos enteados ou democracia empalada?

Império dos enteados ou democracia empalada? (07/04/2014)


 


Enquadramento


Um sonho afiado em esmeril cortou a corda que amarrava a esperança. A libertação primaveril aclamou a celestina confiança e irrigou o chão que o sal das mágoas lacrimejadas secara. Contudo, finda a bela primavera, os descendentes do mesmo empenho beberam diferente engenho e, com a unidade engavetada, a alegria inicialmente sedutora transformouse numa vaga de tormento duradoura. Haja portanto arte para pôr em marcha a obra hercúlea da ressurreição do ânimo.

A população em geral persiste na convicção de a democracia ser controlada pelos republicanos azulados e pelos democratas filiados, a quem as pessoas atribuem, à boca cheia, o rastilho do nosso atraso. Com efeito, eles encontramse misturados no próprio povo, no qual largam, estratégica e cuidadosamente, os seus bemaventurados e prodigiosos ovos. O gentio não faz caso da desdita, ignorando que há uma transmissão – por vezes da desmoralização – dos velhos para os novos. Uns e outros estão ligados a igual teia – genética ou não –, sendo o código de acesso o milagroso condão de sucesso. O desconhecimento e a resignação são formas tácitas de aceitação do mal e do erro. Recorrendo a um anagrama modelar, podese dizer que vamos «livres» por um caminho «servil». Acrescentaria: vivemos num Estado «social», embora «servil», iludidos que somos «laicos», e mesmo «livres».

Império dos enteados


A república – da primeira à terceira – vingou sobremaneira: passouse da hegemonia dos morgados ao império dos enteados. Eufemismo de feudalismo à portuguesa, onde as guildas partidárias decretam a certeza legal e o evangelho dos senhores astutos logra as classes otárias com promessas de epifania. Os mesmos senhores – bemeducados, da razão profanadores e com a incompetência acesa – legislam que a noite vira dia, à guisa de quadrilheiros com nobreza. Viciam os vassalos, os senescais e os demais criados e, como se não bastasse, usam os bobos e os jograis para efémeros regalos, para investiduras sem pejo e para orações e ofícios tais. Pelos padrinhos são nomeados, e com beijo da paz e festejo honram os malfadados sitiados.

São mestres engenheiros da pobreza, de piquete incondicional, ao dispor quer do seu serviço, quer do dos fortes. Perfeitos ascéticos mercenários para a riqueza, que defendem a severidade, porém para si diferentes sortes. Vendem paraíso em terra – moderna maré de indulgências – e espalham vasta popularidade, fabricada com objetivos de opaca clareza, longe do conflito ou da guerra e com invisível subtileza, sem fazer ondas, para afastar do sobressalto a eclosão dos ovos.

Alheios ao facto de as ervas daninhas minarem as terras e os canteiros e sugarem as plantas vizinhas, os tribunais impõem irrecorríveis autos de absolvição, homologando o conjunto de espécies botânicas que frutuosamente destina o império que domina. Com arbitrária e autoritária decisão, os eminentes cangalheiros – ou antes: os ilustres canibais da lei – assumem o papel de carrascos pioneiros que mandam a justiça para a prisão. No fundo, são juízes conselheiros do dinheiro, que confirmam a utilidade das experiências inovadoras de resultado desconhecido. Não importa o resultado, desde que para cobaia se nomeie a grei.


Democracia empalada


O escol que na Nação manda divulga a pegajosa propaganda de que hoje vivemos numa democracia consolidada – suspeita opinião, ou muito dele não pertencesse às chocadeiras de referência. Uma democracia onde a força se funde em frouxidão; onde reinam mitos e fantasias, do arcanjo ao dragão; onde apenas há certezas, sem quaisquer dúvidas ou enganos; onde se empedram idolatrias; e onde a coragem é envenenada com o simples olhar dos basiliscos, não está consolidada mas sim empalada. Na lusa democracia minguada, bem parida e mal desmamada, até os ventos se enlutam com a norma da usurpação que certas almas disputam. Democracia da cristalização de dores, do bloqueio da evolução e da decadência alimentada com a inanição de valores e a consciência torturada.

Apesar do Estado fantasioso, os faunos, os grifos e as sereias, sejam bondosos ou medonhos, sentem o sangue gelado nas veias quando se levanta o tirano – o papão minaz, que raramente descansa, come os desejos e dinamita a verdade. Por onde ele passa, produz dano, ficando a lógica sem autoridade. Chegámos à estação do futuro extinto e esmagado e da era vil da especulação. O arrojo, agora desmembrado, converteuse em sensor do prazer. O pensamento de lentidão precisava de ser preso e julgado – mas não em tribunal, pelo que atrás foi indicado – pelos delitos comprovados de veleidade e de ausência de orientação. Entretanto, assistese à justiça órfã a crescer e à crucificação da moral tardiamente enxertada.

Ao lado, erguese um monstro indomável – de mil olhos – e que, à semelhança do ditador fisco – com frequentes crises de cegueira –, ataca as classes plácidas, nesta terra de interesses e cargos e neste local da corrupção banal, das ideias flácidas e da veneração das heranças e do capital. Pior do que tamanha veneração, é a decapitação da esperança, aplaudida pelo ordálio legalizado da sacramental aliança entre a hipocrisia e o sofrimento. O vigor evaporado é o pavio do arrebentamento e o garrote da liberdade.

Conclusão


Falta gente de firmeza para formar uma batida e anunciar a limpeza dos deístas dos interesses, dos partidos e das seitas. Já que de morte a alma está ferida, com cátaros da verdade curavamse inúmeras maleitas. Assim, há que dançar conforme a música. Resta desenterrar a pureza, alimentar a vontade e aguçar a destreza. No nosso território abundam os pausmandados – pecadores por omissão, facilmente trepanados e com espírito entorpecido. Paralelamente, rapaces de garra e visão caçam tanto os animais mansos como quem anda iludido. Os ataques só poupam os ovos da mesma espécie. Virá o dia em que os cordeiros – enfim indignados e dotados para encarar os predadores – imporão os seus lanços, mas somente depois do regresso duma excursão ao mundo novo da revolução. Todavia, ainda são poucos os aliados para direcionar ou ensinar a peculiar democracia. Escasseia a ousadia – definida de utopia por alguns seres.

Retomando a questão epigrafada sobre o sistema que melhor caracteriza a sociedade lusitana: império dos enteados ou democracia empalada? Não há resposta certa nem errada. Não se sabe o que dirão os especialistas políticos de renome, os comentadores reputados, os «ex» da ribalta ou outros ilustres da audiência televisiva em alta – e da memória em queda. A maioria das pessoas entenderá que são as faces desvalorizadas da mesma enganada moeda.

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